OPINIÃO

O mal estar - parte 2: como viver em tempos líquidos?

16/07/2015 10:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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(imagem: Ryan McGuire)

Em The Walking Dead, os seres humanos começam a se transformar em mortos-vivos. Retomando meu texto anterior, "O Mal Estar nos Dias de Hoje", uso Zygmunt Bauman para entender a série como metáfora. Também apresento referências que me ajudam a manter o rumo na Terra Devastada dos dias de hoje.

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A maior parte das pessoas leva vidas de calmo desespero.

-- Henry David Thoureau

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Rick toma um tiro e acaba internado entre a vida e a morte. Ele é assistente de xerife em uma cidade pequena no interior dos Estados Unidos. Quando acorda espontaneamente do coma, alguns meses depois, encontra um mundo de mortos-vivos, reduzido a ruínas. Transtornado, não faz ideia do que aconteceu, mas segue em frente, à cavalo, numa busca desesperada pela mulher e o filho.

E isso é só o começo. Ainda piora muito.

Nossa cultura depende de escritores, diretores, atores e outros artistas para sonhar. Podemos ver séries americanas -- e demais formas populares de narrativa -- como sonhos que emanam do inconsciente coletivo. Os filmes veiculam, em nível simbólico, as angústias, ansiedades e esperanças próprias aos nossos tempos. Constituem, portanto, uma trilha simbólica privilegiada para compreender, em profundidade, a época em que acontecem.

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A imagem arquetípica acionada em The Walking Dead é a Terra Devastada. Toda a série é um mergulho nesse arquétipo. Mais que um sonho, trata-se de um pesadelo que emana do inconsciente coletivo.

A Jornada do Herói de Rick e do grupo sempre cambiante de sobreviventes é a busca desesperada por uma cura (ou mesmo algum sentido) que restabeleça o equilíbrio, tanto para o mundo, quanto para suas almas destroçadas pela calamidade.

No decorrer da história, a gente percebe que sobreviver para além dos limites da civilização, na barbárie distópica, torna os vivos cada vez mais parecidos com os mortos. Priva-os daquilo mesmo que caracteriza uma vida humana.

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Como metáfora, a série americana sugere sermos nós próprios os cadáveres que perambulam. É o que resta quando, progressivamente, perdemos as qualidades que nos fazem humanos e sobrevivemos em estado de profundo desamparo. Optamos pela anestesia, pela morte em vida, porque viver torna-se traumático.

No texto anterior, "O Mal Estar nos Dias de Hoje", descrevi a subjetividade atual com base nos escritos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Em função dos avanços sem precedentes no campo da Tecnologia, em um mundo de hiperestimulações, vivemos Tempos Líquidos. Tudo muda o tempo todo, sem refúgio e sem paradas.

Nosso tempo se esvai em meio a objetos e relações virtuais, incapazes de nos fazer sentir vivos, inteiros e reais.

A proximidade humana nos assusta, então evitamos a intimidade.

Temos dificuldade de nos engajar -- seja com pessoas e causas, seja com projetos que preencham nossas vidas de sentido e significado.

Rejeitamos compromissos porque não queremos renunciar a nenhuma possibilidade de gozo que porventura se apresente.

Nossa humanidade sofre em silêncio sob o brilho metálico ofuscante de um mundo tecnológico descarnado e fascinante - como os androides no filme O Exterminador do Futuro. Trocamos o que nos faz sentir verdadeiramente humanos por uma modalidade de gozo que condiciona a vida interior a um funcionamento maquínico, imersos em simulacros e simulações.

Paradoxalmente, habitamos uma Sociedade em Rede, altamente conectada, ao passo que vivemos solitários e desconectados de nós mesmos -- da nossa corporeidade, do que toca nossa alma, de nossas paixões autênticas e questões existenciais profundas. Eis a tragédia dos dias de hoje: passamos pela vida hipnotizados pela tecnologia e pelo consumo, mal arranhando a superfície da existência.

Daí a experiência de desenraizamento, de vivermos desalojados de nós mesmos. Em um mundo líquido, podemos sentir que nossa presença humana escorre pelo tempo sem deixar marcas. "Como lágrimas na chuva", segundo uma antiga profecia.

Pausa para uma das cenas mais marcantes da história do cinema:

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A qualidade da experiência subjetiva no mundo atual é dominada pelo elemento Água, que representa a liquidez.

Quando a gente enxerga as coisas dessa maneira, se dá conta de que, a fim de buscar o equilíbrio e preservar o humano em nós, precisamos de Terra.

Como uma planta levada pela correnteza, estou convencido de que, se desejamos salvar a humanidade em nós, precisamos abrir espaço na vida para experiências de enraizamento.

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Ao despertar do coma em um mundo de zumbis vorazes, em The Walking Dead, Rick parte rumo a Atlanta, à cavalo, em busca da mulher e do filho. Trata-se de uma referência aos filmes de faroeste, mas também, em outro nível, de uma metáfora.

Quando o atual estágio da civilização entra em colapso, tendemos a buscar refúgio em uma etapa anterior. Além de um meio de transporte típico de outros tempos, do ponto de vista simbólico, o cavalo representa um retorno ao corpo e aos instintos, isto é, à dimensão animal em nós. O homem a cavalo sugere, portanto, uma integração.

São caminhos de enraizamento. Se neste mundo líquido, de hiper excitação, o intelecto desenvolveu-se independentemente, sem lastro -- uma vez que o corpo permanece a maior parte do tempo anestesiado sobre cadeiras e diante de telinhas -- podemos buscar experiências que nos ajudem a ancorar a mente no corpo, o intelecto nos instintos.

Reintegrar nosso passado ancestral e reanimar o corpo dormente são condições necessárias para nos sentirmos vivos e inteiros.

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Quando capturado pelo brilho fascinante do mundo do intelecto, da tecnologia e do consumo, como mosquito diante da lâmpada, sinto-me com frequência um morto-vivo. Ou como um robô.

Por outro lado, venho perdendo interesse por leituras árduas que me impressionavam poucos anos atrás, aventuras intelectuais sofisticadas como livros de Foucault, Lacan ou Adorno, e ganhando interesse em experiências e conteúdos mais simples e diretos, que falam ao coração.

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Tenho dado valor a um cara chamado Joseph Campbell, que abre as portas para o universo esquecido dos mitos, símbolos e arquétipos. De sua obra, aprecio sobretudo a Jornada do Herói, um código simbólico que ajuda a compreender o processo de transformação humana na perspectiva de um conhecimento atemporal.

Também me encantam tradições de sabedoria ancestrais, como o Budismo (em seus aspectos menos intelectuais), a Paideia (o caminho de formação dos gregos antigos) e visões de mundo nativas dos povos da Terra, pré-cristãos. Povos que foram - e ainda estão sendo - praticamente dizimados pela busca voraz por mais tecnologia e consumo associadas ao que chamamos de civilização.

Assim tento permanecer humano em meio à subjetividade líquida: procuro ampliar o contato com experiências em que predomina o elemento Terra, capazes de proporcionar contornos humanos à vida interior em tempos de muito brilho e agitação.

E, ao mesmo tempo, de muita solidão e desamparo.

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