OPINIÃO

O mal estar nos dias de hoje

08/07/2015 18:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02
Axel Taferner/500px
Thank you for visiting! My photos here are "Copyright © Axel Taferner" but posted under a Creative Commons Attribution NonCommercial ShareAlike license. If you plan on using my pictures, please attribute them as "Axel Taferner". If you use them online, please link the attribution text and/or the image to my website (www.n0t.net/). If you want to be exceptionally awesome, I'd love for you to let me know, either by e-mail or in the comments, when you make use of my photos. I get a kick out of seeing them in the wild. Thanks, and enjoy! Website • Facebook Page • Twitter • Tumblr • Google+ Page

Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.

J. Krishnamurti

Um dos livros mais poderosos que já li é O Mal-Estar na Civilização. Recomendo muito.

Assim como ocorre com os indivíduos, de acordo com a obra de Freud, sociedades e culturas também adoecem.

Do meu ponto de vista, se levarmos em conta a qualidade da nossa experiência interna de nós mesmos, da vida e do mundo, estamos muito pior do que nos tempos de Freud.

O que aconteceu com a gente?

Um diagnóstico sombrio

Antes, uma ressalva: somos frutos do nosso tempo. É difícil, para cada um de nós, enxergar até onde vai a loucura do mundo. Nós somos a loucura do mundo.

Mesmo assim, falando de dentro da loucura, arrisco umas reflexões.

O primeiro ponto é que as coisas mudaram e mudam rápido demais. E o ser humano, por natureza, tem um tempo de elaboração emocional muito mais lento. Quando a gente começa a entender, já mudou de novo. Experimentamos uma situação crônica de desadaptação, como se, constantemente apressados, chegássemos ao presente sempre atrasados demais.

Vivemos desalojados de nós mesmos.

A marcha vertiginosa das mudanças está associada muito intimamente ao avanço sem precedentes, nas últimas décadas, no campo da Tecnologia. Produzimos, consumimos e desejamos cada vez mais tecnologia, em ritmo alucinante.

O mundo da Tecnologia compreende o conjunto de ferramentas que criamos para aumentar nosso poder de obter o que nos parece desejável.

Ao mesmo tempo, retomando Marshall McLuhan, os seres humanos criam ferramentas, materiais e simbólicas, para mudar o mundo e as ferramentas recriam os seres humanos. Nossas ferramentas nos transformam.

O lado Sombra da Tecnologia, no mundo interno, é a hipertrofia do utilitarismo e da razão instrumental. Com frequência, o esforço de "dobrar" a realidade em nome da satisfação compulsiva de impulsos e da sensação de poder é indiferente ao cuidado com o humano.

Nos tempos atuais, a sedução da tecnologia nos conduz cada vez para mais longe de nós mesmos, do que sussurram nossos corações e do que pulsam nossos instintos.

Tornamo-nos ao mesmo tempo artífices e reféns de um mundo de racionalismo frio, desejos insaciáveis, simulacros e simulação.

Um mundo descarnado.

Labirintos de Solidão

Não à toa o historiador americano Christopher Lasch associou a subjetividade contemporânea à emergência de uma Cultura do Narcisismo.

Imagine viver preso/a no interior de uma câmara de espelhos -- ou de selfies, para atualizar a metáfora, cada um com os seus gadgets. Um verdadeiro labirinto de solidão e desespero.

Tenho impressão de que as pessoas vêm desistindo daquilo que as faz mais humanas - a angústia de buscar o caminho para o afeto genuíno, a descoberta da própria verdade, o árduo processo de crescimento interior, o encontro autêntico com o outro, a superação diante da dor e a realização de suas aspirações mais profundas.

Como mosquitos atraídos por uma lâmpada, vivem hipnotizadas pelas promessas de gozo sem fim da tecnologia e atrás de dinheiro para consumir.

É como se somente pelo poder de consumir tudo, o mundo todo, se necessário, mas sobretudo o que a tecnologia oferece, e apenas pela duração daquele breve momento, sentíssemos que existimos. Por isso, como adolescentes que cortam a própria pele, consumimos com sofreguidão.

Mas o modo compulsivo como nos relacionamos com a tecnologia, de par com o consumo desenfreado, vem nos tornando cada vez mais fragmentados, angustiados - famintos-- individualistas e solitários.

Trocamos o que nos faz sentir humanos, vivos e reais por uma modalidade de gozo que condiciona nossa vida interior a um funcionamento maquínico. Queremos sempre mais.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman sentencia: vivemos tempos líquidos.

Como a corrente de água descendo um rio, tudo muda o tempo todo; nosso tempo se esvai em meio a objetos e relações virtuais, incapazes de nos fazer sentir que a vida vale a pena; a proximidade humana nos assusta; temos dificuldade de nos engajar -- seja com pessoas e causas, seja com projetos que preencham nossas vidas de sentido e significado.

Rejeitamos compromissos porque não queremos renunciar a nenhuma possibilidade de gozo que porventura se apresente.

Nas palavras dele:

No mundo líquido moderno, de fato, a solidez das coisas, tanto quanto a solidez das relações humanas, vem sendo interpretada como uma ameaça: qualquer juramento de fidelidade, compromissos a longo prazo, prenunciam um futuro sobrecarregado de vínculos que limitam a liberdade de movimento e reduzem a capacidade de agarrar no vôo as novas e ainda desconhecidas oportunidades. A perspectiva de assumir uma coisa pelo resto da vida é absolutamente repugnante e assustadora. E dado que inclusive as coisas mais desejadas envelhecem rapidamente, não é de espantar se elas logo perdem o brilho e se transformam, em pouco tempo, de distintivo de honra em marca de vergonha.

Cada vez mais mergulhados no mundo virtual, nossa interioridade torna-se, ela própria, rarefeita.

Estamos doentes.

continua...

Publicado originalmente no Medium.