OPINIÃO

O que podemos aprender com a conferência que juntou Dilma Rousseff, Gilmar Mendes e Sérgio Moro

Conferência em Harvard é um convite à racionalidade entre antagonistas políticos.

08/04/2017 18:26 -03 | Atualizado 09/04/2017 16:42 -03
Montagem/Reuters/Getty
Brazil Conference uniu personalidades como Dilma Rousseff, Gilmar Mendes e Sérgio Moro.

Espero que a experiência da Brazil Conference, evento promovido de 7 a 8 de abril pela Universidade de Harvard e pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que conquistou a façanha de reunir antagonistas aparentemente irreconciliáveis do cenário político brasileiro, provoque iniciativas análogas entre a militância inflamada das redes sociais.

Se pelo menos os adversários políticos começassem a discutir a partir dos pontos em que eles realmente divergem – e já há tantos pontos de divergência! – em vez de atribuir aos outros infâmias imaginárias para em seguida combatê-las com histeria desproporcional, já seria um excelente início.

A política sempre contou com essa retórica virulenta, mais interessada em macular, demonizar, deslegitimar e destruir a reputação dos adversários do que realmente pensar a partir das contradições. A história está repleta de exemplos de propagandas ideológicas que empregam mitologias para fabular heróis salvadores, vilões demoníacos e utopias políticas conservadoras e progressistas. Mas desconfio que, nesses tempos de bolhas em redes sociais e igrejinhas políticas cada vez mais fechadas, o abismo de comunicação, amplificado pela guerra de memes e pelos fake news, alcançou novos patamares.

É fácil, cômodo e automático entoar os slogans da manada e pregar para convertidos. Basta se entregar à inércia e à redundância. Mas ninguém é 100% perfeito ou 100% cretino. Reconhecer as virtudes do adversário político, identificar os pontos de concordância e discordância para firmar teias de consensos mínimos entre as diferenças e calibrar melhor o alvo das críticas pode ser o primeiro passo para limpar o excesso de irracionalidade e evitar o desperdício monumental de energia em um país com tantos desafios incompletos.

Não me parece nem ingenuidade nem cinismo dialogar publicamente com um notório adversário em favor de ideias que, por algum motivo, ambos defendem. Isso é apenas civilidade e maturidade democrática. Além disso, deveria ser óbvia a noção de que a disputa deve ser travada no campo das divergências. Essa tendência a imaginar que o objetivo da política é exterminar o adversário só pode ser fruto de falta de leitura de livros de história. Há exemplos suficientes para nos alertar sobre as consequências dessa natureza de disputa.

Esta série de vídeos sobre mitos e mitologias políticas ajuda a compreender o problema.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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