OPINIÃO

Com a 'doutrinação' de Bolsonaro, Escola Sem Partido se tornou refém de sua própria convicção

Uma das contradições fundamentais da cruzada conservadora desse projeto é exatamente a fragilidade do conceito de doutrinação.

14/08/2017 22:33 -03 | Atualizado 14/08/2017 22:33 -03
Ueslei Marcelino / Reuters
O deputado Jair Bolsonaro foi super homenageado em uma escola militar.

Tem sido muito didático acompanhar os comentários na página do Facebook do movimento Escola Sem Partido a respeito do episódio "escandaloso de doutrinação político-partidária" ocorrido em um colégio militar. Na ocasião, os alunos foram induzidos a entoar uma espécie de hino, saudando Jair Bolsonaro como a "salvação da nação".

O post veio em caixa alta:

Chama a atenção, de imediato, um ato falho importante: a "doutrinação" em favor de Bolsonaro, um dos notórios apoiadores políticos deste movimento, causou "pasmo" à organização. Pareceu uma surpresa.

No viés ideológico do Escola Sem Partido, os casos de "doutrinação" recorrentemente apontados (em geral, falas pontuais de professores e professoras gravados em sala de aula) são atribuídos exclusivamente aos posicionamentos de esquerda.

Observando os conteúdos compartilhados e identificando os princípios ideológicos, partidos e representantes políticos que apoiam o movimento, fica evidente que seu discurso está longe de ser neutro, democrático ou apartidário. Ele tem lado e cumpre o objetivo de constranger e intimidar professores que realizam um contraponto crítico progressista e liberal nas escolas.

O objetivo dessa intimidação é disputar, no campo do ensino, a supremacia de sua própria ideologia, de caráter eminentemente reacionária e conservadora. Não surpreende que logo em seguida ao "pasmo" diante da "doutrinação" em favor de Bolsonaro, o Escola Sem Partido tenha republicado vários outros posts de casos em que o próprio Bolsonaro havia sido criticado por professores "esquerdistas" em sala de aula.

Mas esse post, um ponto fora da curva na trajetória do Escola Sem Partido, provocou um rebuliço na imaginação dos seguidores da página, uma comunidade unida por uma nítida afinidade ideológica. Parte deles se empenhou prontamente para justificar aquele episódio e argumentou que, precisamente por se tratar de uma instituição militar, aquilo não deveria ser considerado uma "doutrinação", mas uma "homenagem".

Para muitos deles, a ação de ordenar que estudantes entoassem em um único coro que "Bolsonaro é o salvador da nação" não é uma atividade incoerente com a natureza militarista da escola. Outros, por sua vez, preferiram parabenizar o Escola Sem Partido, garantindo que, apesar de serem eventuais eleitores de Bolsonaro em 2018, também eram contrários a qualquer "doutrinação".

O ponto em questão, que indica uma das contradições fundamentais da cruzada conservadora do Escola Sem Partido, é exatamente a fragilidade do conceito de doutrinação. E como sabemos, a consequência mais perigosa da institucionalização de um conceito cujas ambiguidades ainda não foram resolvidas é a arbitrariedade: "doutrinação" se torna aquilo que eu imagino que seja.

Nos comentários daquele post, nem mesmo entre os partidários do Escola Sem Partido houve alguma concordância a respeito dos limites que separam uma homenagem, uma reflexão crítica e uma "doutrinação" em uma escola. Ou seja, os próprios defensores não se mostram capazes de discernir o contorno de seu "conceito".

Diante dessa convicção tão errática, que sustenta todo aquele ativismo político, quase qualquer coisa pode ser interpretada como doutrinação, dependendo da boa ou da má vontade do sujeito que vai deter o poder de definir. Por isso, em última instância, o próprio movimento caminha para se tornar a vítima derradeira da imprecisão dessa convicção voluntariosa que ajuda a disseminar.

Sugiro um breve exercício, alternando um espírito de boa vontade e de má vontade deliberada, para demonstrar as vulnerabilidades de uma normativa alicerçada nesta convicção tão imprecisa:

Homenagear um militar em uma escola militar é doutrinação?

Vincular uma crítica política ao contexto contemporâneo para exemplificar um conteúdo em sala de aula é doutrinação?

Incentivar os alunos a protestar contra o descaso dos poderes públicos pela sua própria escola é doutrinação?

Silenciar os alunos e ordenar que eles simplesmente aceitem as péssimas condições de sua escola e de sua educação é doutrinação?

Relacionar um conteúdo da disciplina com a realidade social dos alunos é doutrinação?

Optar por ampliar os estudos de História da África em relação aos estudos de História medieval, ou o contrário, é doutrinação?

Induzir os alunos a rezar o pai-nosso todos os dias é doutrinação?

Um aluno cuja família professa o candomblé ou a umbanda pode acusar o professor cristão de doutrinação?

Alunos ateus podem denunciar professores que expõem abertamente o seu cristianismo?

A doutrinação ocorre só quando é incorporada recorrentemente nas práticas da escola, ou qualquer comentário pontual em sala de aula também é doutrinação?

Se um professor for denunciado por uma família de esquerda pelo ato de direcionar toda a disciplina para a exclusiva formação técnica, deixando de lado a formação ética e cidadã, podemos considerar que o aluno é vítima de doutrinação neoliberal?

Talvez você tenha respondido alguma das questões com sim ou não. O "conceito" de "doutrinação" é ambíguo, impreciso e, por isso, insisto, arbitrário. Por isso, qualquer conteúdo que contrarie um interesse ideológico, religioso, moral, político e partidário de um dos alunos ou de suas famílias, à esquerda ou à direita, pode ser arbitrariamente acusado de "doutrinação", dependendo do viés do julgador.

Quando a norma é vaga, "vence" quem tem mais força para intimidar. Sabemos que os partidários do Escola Sem Partido não gostam de ser chamados de fascistas. Mas sabemos também que a imprecisão do conceito e a ameaça constante de intimidação aos transgressores é o expediente clássico para propagar a paranoia e a autocensura a fim de legitimar autoritarismos.

Provavelmente por isso, os professores, que são a parte mais frágil de todo o sistema ideológico que perpassa a escola, sejam os alvos preferenciais da intimidação desse movimento político conservador.

A ideologia está presente nas mais diversas dimensões da escola. Das políticas do Estado aos interesses corporativos; da arquitetura interna aos monumentos e placas de homenagem, quadros, avisos, uniformes, sinais sonoros, disposição das carteiras e inúmeros outros elementos que comunicam mensagens ideológicas aos alunos.

Os professores e professoras, em seu trabalho diário, são a parcela mais exposta e suscetível à intimidação. Mas ao desconsiderar, talvez por desconhecimento, que a ideologia é mais eficiente quando se mantém oculta, o movimento se propõe a constranger precisamente aqueles que falam.

Quem fala expõe suas críticas, revela as suas posições e, portanto, possibilita, na prática, o desvendamento das ideologias. Ao constranger a liberdade política do professor, essa cruzada pelo silenciamento tende, na verdade, a intensificar a força da ideologia na educação.

Todas as escolas possuem seus projetos político-pedagógicos que, por definição, devem ser formulados por toda a comunidade escolar, incluindo gestores, professores, técnicos, alunos e suas famílias e comunidades.

A forma democrática para garantir a pluralidade e o respeito mútuo, assim como favorecer o aprendizado, estimular a criatividade e garantir a educação capaz de responder aos inúmeros desafios dos nossos tempos, portanto, não é a afixação de um cartaz constrangedor nas salas de aulas. Mas é o estimulo à participação política direta dessa comunidade nos assuntos da escola.

E para isso, todos que integram a comunidade escolar devem ter assegurados o direito de se posicionar, de apontar as contradições, propor soluções e expor as suas diferenças políticas em uma atmosfera permanente de diálogo e de tolerância.

Ao desperdiçar essa energia descomunal para incitar certa parcela conservadora da sociedade contra os professores, os defensores do Escola Sem Partido têm prejudicado enormemente a busca pelas soluções dos problemas reais da educação no Brasil.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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