OPINIÃO

A cena da cultura de rua na Baixada Fluminense

25/11/2015 13:37 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Getty Images

É cada vez mais comum a criação e a consolidação de coletivos culturais urbanos, de ocupação de espaços públicos na cidade e de promoção de manifestações culturais locais, enraizadas nas vidas e nos fazeres de todos os promotores de eventos, feiras e outras ações feitas, na maior parte das vezes, com poucos recursos.

É um novo retrato da cultura.

Sem editais, ou com editais que pagam bem pouco, quando pagam em tempo, coletivos se espalham por todo o Rio e mostram sua força criativa.

Na Baixada Fluminense observamos o mesmo fenômeno. Berço de projetos como Movimento Enraizados, Buraco do Getúlio e de autores como Yasmin Thayná e Joana Ribeiro, hoje a Baixada recebe uma nova geração de provocadores. A Goméia e a Cena são exemplos disso.

A Cena, em particular, se propõe a ser um coletivo cultural urbano multi-frentes. No foco, exposições, eventos, vídeos, textos, fotos, tudo que revelar a identidade da Baixada no século 21, ainda muito estigmatizada por uma visão que remete para a violência, tráfico, abuso de policiais e morte.

A Baixada é mais que isso, é a verdadeira periferia do Rio, e Rodrigo Costa e Wilson Rodrigues vão provar isso.

Nascidos e criados na Baixada, eles atuam em Duque de Caxias, município da Região Metropolitana fundado há 71 anos, 15 km distante da capital carioca.

Ali, resgatam as histórias oficiais e populares, como a figura de Tenório Cavalcante, o "Homem da Capa Preta", história que deu origem ao filme homônimo em que José Wilker interpreta Tenório.

Caxias tem de tudo. Valão, evangélicos, rap, break, grafite, samba, frango assado, trem, hip hop, calor, Guaravita, pipa, X-Tudo de podrão.

Caxias é um pedaço incrível do Rio, e eles decidiram mostrar isso, mesmo sem recursos, para o mundo.

Rodrigo e Wilson começaram essa ideia depois de encerrarem um negócio de vestuário e assessórios, com mais um amigo, Thargus. Trabalharam duro para manter a marca Manuia, mas, com o fim das operações, estavam sem dinheiro mas com um incômodo que moveu o sonho.

Trabalharam alguns meses para fazer o primeiro evento e lançar a Cena no último domingo, que foi o "Olhar Cena BXD" na Vila Operária, uma favela em Caxias conhecida por atividades de outros coletivos que integram o MOF, voltado para o grafite.

Durante a ação, fotografaram ciclistas e moradores que participaram do Circuito MTB 2015.

A experiência de registrar sua própria gente foi viciante e libertadora para eles.

"Porque apenas o oprimido poderá, libertando-se a si mesmo, libertar o outro", já diz Paulo Freire.

O dia de trabalho deles foi bastante similar ao que rola no Grajaú com as Carreatas Poéticas de Dona Maria Vilani. O povo, o fazer espontâneo, a alegria do nós por nós.

Sem marcas envolvidas. É tudo no amor.

O grande desafio será encontrar apoiadores para ações maiores.

A Cena é um projeto iniciante, e Rodrigo e Wilson fazem parte da Universidade da Correria, projeto da Zona Norte que visa a criação de negócios em territórios populares.

Em tempos de crise, está mais difícil levantar recursos e encontrar apoiadores.

Mas quem disse que seria fácil?

A Cena, como todos os outros coletivos, seguem fazendo história, trazendo um respiro novo, fazendo a sua parte na revolução.

Salve a Baixada!

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