OPINIÃO

Topless: mais do que seios à mostra, uma nova atitude perante a mulher e à cidade

16/10/2014 20:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Ana Paula Nogueira

Topless, palavra originária do inglês, significa literalmente "sem a parte de cima", ou seja, com os seios à mostra. O ato surgiu publicamente em 1960, mas conquistou adeptas aqui a partir dos anos 70, quando o naturismo e o movimento hippie ganhou força em terras brasileiras. Em 2000, impulsionado pelo forte turismo, chegou a criar moda nas praias, apesar da constante repressão, mas a pressão da mídia fez com que o então governador da região mais turística do Brasil, o Rio de Janeiro, anunciasse sua liberação em praias de todo o Estado. No entanto, a medida foi apenas mais uma "falácia política da estação" e, sem registro oficial, logo caiu em esquecimento e mais uma vez na falta de regulamentação.

Até que, em pleno verão de 2013, o assunto voltou à tona por conta de um evento intitulado "Toplessaço", criado depois que uma atriz sofreu repressão numa praia carioca, quando praticava topless para a promoção de um trabalho. Apesar das milhares de confirmações de presença numa rede social, o evento teve, de fato, poucas adeptas e virou piada nacional e primeira página de jornais do mundo todo. As convidadas se sentiram acuadas diante de reações agressivas, expressadas pela rede social por parte de homens e até mesmo mulheres.

Por que a cidade que exportou o "fio dental" e ficou conhecida por ditar moda e hábitos ligados à liberdade de costumes - e o País que sempre esteve na esteira das práticas e da democracia das nações mais avançadas - tem postura tão agressiva, e indefinida, frente a um ato visto como natural por muitos países desenvolvidos? A pergunta ficou até hoje no ar, principalmente no que tange aos governantes, que nunca se posicionaram oficialmente, para não perder eleitores.

Daí nasceu o "Toplessinrio", organização que busca não só a adoção da prática do topless nas praias do Rio de Janeiro como também uma revolução nos nossos hábitos, na postura em relação à mulher, aos governantes e à cidade. Não se trata de mais um movimento feminista (e nada contra as feministas) e nem uma guerra de sexos. A proposta é criar ações que imprimam mais naturalidade ao corpo, principalmente o feminino, e tentar minimizar a conotação sexual que é dada a gestos simples, como pegar sol nos seios.

Apesar do assunto parecer fútil, o tema diz muito do nosso comportamento como sociedade, ainda preso a regras morais que funcionam paralelas a um mercado que lucra com o erotismo. O nu no Brasil ainda é visto de maneira pouco natural, mesmo diante das inúmeras revistas sobre o tema e do show de belos corpos de atrizes e passistas no famoso Carnaval. Aceitamos o nu, desde que ele seja "para exportação". Não percebemos, mas a postura reforça o terrível conceito que se criou de País do Turismo Sexual. De fato, oficialmente não podemos nada, mas abrimos concessões onde tudo se pode, essa é a mensagem.

Mesmo diante dos milhões de turistas que desembarcam no Rio de Janeiro, até hoje o tema é controverso e carece de discussão. A norma anunciada pelo secretário de Segurança do então governador Garotinho, Josias Quintal, autorizando o topless, nunca foi publicada no Diário Oficial. E ser conduzido a uma delegacia por atentado ao pudor ao fazer topless vai depender da interpretação subjetiva da lei ou do humor, do momento, da já então criticada polícia fluminense.

Queremos com Toplessinrio tirar não apenas o sutiã dos cariocas - no futuro, quem sabe, dos brasileiros em geral -, mas desnudar a hipocrisia que cobre posturas preconceituosas e hábitos que não combinam com o jeito de ser da cidade considerada a mais alegre, "liberal" (no sentido saudável da palavra) e receptiva do Brasil. E cobrar dos governantes uma postura mais concreta e responsável diante dos seus atos.

topless 2

Toplessinrio foi criado com as seguintes missões:

1 - Incentivar a democracia nas praias cariocas, ao apoiar movimentos e leis ligados à prática do topless e do naturismo, de forma saudável, debatida e responsável, assim como a acessibilidade. Nosso lema é: "A praia, assim como a cidade, é de todos e para todos, seja com ou sem top, de biquíni ou de burca, de havaianas ou de cadeira de rodas.";

2 - Incitar o debate em torno de tabus ligados ao sexo e ao erotismo, principalmente quando os mesmos estão ligados à arte;

3 - Apoiar o combate ao turismo sexual, por meio da disseminação de maior conhecimento sobre o tema e a promoção de discussões para combater o problema;

4 - Extinguir o preconceito a grupos considerados "minoria", seja por cor, classe social, opção sexual, idade ou religião; isso inclui também uma postura menos "ostensiva" por parte da polícia;

5 - Apoiar, seja com doações ou ideias, ações que minimizem o sofrimento de pessoas diretamente atingidas por quaisquer das posturas que combatemos;

6 - Apoiar iniciativas e debates novos para melhorar nossa cidade;

7 - Por fim, procurar estar sempre de peito aberto na busca por uma cidade melhor para viver ou visitar, mais democrática, que torne ainda mais forte o título de Maravilhosa.

Obs: o movimento não tem nenhum fim político, religioso ou de promoção financeira de seus participantes.

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