OPINIÃO

Ser e gostar de 'Lolita' nunca foi tão pop

13/08/2015 19:24 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução

"(...) Ela tinha um nenúfar em seus cachos e era tão graciosa como uma mulher. Com ternura os mamilos dela floresceram, e lembrei-me a Primavera da minha vida na terra."

A descrição de uma menina sexualmente atraente, feita pelo escritor russo Vladimir Nabokov, no poema Lilith, em 1928, que teria inspirado o clássico Lolita, publicado por ele anos depois, nunca esteve tão atual no Brasil, mesmo em meio à moda de corpos sarados, tatuados e siliconados. 

O interesse de homens por meninas bem mais jovens, as chamadas ninfetas, sempre fez parte do imaginário masculino e consequentemente inspiração para o mundo das artes. Em pleno século XXI, contudo, ganhou contornos mais populares

Mesmo insinuando algumas vezes incesto e certa dose de pedofilia (que fique claro que sou contra pedofilia), a postura parece não ser considerada algo mais tão absurdo. E escondido. Ao contrário: ser e gostar de Lolita nunca foi tão pop.

Exemplos estão na ficção, a tirar pelas várias novelas que remetem ao tema (a mais recente, Verdades Secretas, mergulha totalmente na trama de Nobokov), na música, com as chamadas "novinhas" do cenário funk, nas revistas de moda e, como não poderia faltar, nos filmes pornôs - segundo estatísticas dos sites, as páginas das ninfetas são as mais acessadas. A ponto de ter subcategorias: colegiais, taradas, enteadas (para citar as menos pesadas). A popularidade pode ser medida inclusive pelo universo de mulheres que hoje opta pela depilação íntima total, no intuito de "parecer com uma ninfeta" e, então, satisfazer o desejo masculino.

Bem diferente do cenário dos precursores do tema. O livro Lolita, que conta a história de um professor de meia-idade obsessivamente apaixonado por sua enteada, uma menina de 12 anos, e seus desdobramentos trágicos, foi rejeitado por quatro editoras norte-americanas que o consideravam indecente e pornográfico. Lolita só veio a ser publicado na França, em 1955. E apesar de Nabokov ter uma longa carreira como escritor em língua russa, foi originalmente escrito em inglês. 

nabokov lolita

Já a adaptação feita para o cinema por Stanley Kubrik, em 1962 - existe outro filme de Adrian Lyne, mais recente - teve que ser reescrita. Ele tentou diminuir o impacto ao aumentar a idade da personagem e escolheu uma atriz na idade adulta para o papel, Sue Lyon. Mesmo assim, a Lolita de Kubrick não deixou de provocar reações.

A escolha também teria desagradado Nabokov, que entendia como ninfeta - a palavra ninfeta surgiu com o romance, partir do termo mitológico ninfas, para classificar o estereótipo de menina adolescente sexualmente hiperdesenvolvida e sedutora - garotas entre 9 e 14 anos. Para o autor, esses são os extremos das idades para classificá-las. Ou seja, 9 anos era considerada quase muito nova, e 14 anos, quase muito velha.

As ninfetas popularizadas hoje também usam do artifício de Kubrick para serem aceitas pela sociedade e evitar acusações de estímulo à pedofilia - estão entre 16 e 18 anos, idade na qual são vistas dentro da chamada "maioridade sexual" (ainda que perante a lei sejam menores de idade).

Num universo no qual as meninas se desenvolvem sexualmente cada vez mais cedo, as Lolitas tendem a se proliferar. A minha, na época, foi ao estilo Kubrick, aos 15 anos. E sem os contornos trágicos do romance de Nabokov. Mas com a malícia típica de uma ninfeta.

O que nem o tempo nem a ficção conseguiram desvendar são os motivos de tamanho fascínio. Simples fantasia ou depravação? Não cabe a este espaço julgar, ainda mais sendo algo tão subjetivo. No caso do personagem do romance de Nabokov, o trauma por ter perdido uma paixão na infância foi a explicação.

Eu poderia arriscar uma lista de motivos, mas vou deixar vocês pensando no tema. 

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