OPINIÃO

Um papel que é um desafio

20/03/2015 15:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
djwtwo/Flickr
Thing One, doing one of her favorite things, accompanied by one of her plethora of stuffed pigs. She's been working her way through my copy of <i>Grimm's Complete Fairy Tales</i> for a bit now, so since I had a little time tonight with her while Thing Two was off at Girl Scouts, and she was game for playing model, we set up this shot. This was a bit of an experiment in balancing strobes with room light, and it took me a bit to dial in settings that looked reasonable. First I adjusted things without strobe to get the lamp looking lit, which meant a slower shutter and higher ISO. One strobe is set camera left, above and aiming down, gelled to match tungsten, 1/40 power, 120mm zoom, to enhance the light from the direction of the lamp and light her face. The other strobe is camera right, to fill the shadows a bit and light the face of the book, also gelled for tungsten and firing through a white umbrella, 85mm zoom, 1/50 power. Nikon D7000 w/Nikkor 50mm ƒ/1.8 prime, 1/60s @ ƒ/3.3, ISO400. Strobes as described above, color processing and a bit of cropping in Aperture.

Vocês me perguntam sobre o papel desempenhado pela literatura na sociedade atual do Brasil.

Honestamente creio que minha primeira resposta deve dar ênfase ao fato de que não me parece que seja diferente do papel desempenhado pela literatura de qualquer época em qualquer sociedade - inclusive hoje em dia na França. Por um lado, é um papel de transmissão e continuidade de um legado cultural escrito, associado à abertura de um leque de possibilidades, por meio de uma linguagem que apresenta vários significados e, portanto, pode ser reapropriada de maneiras múltiplas. Por outro lado tem também um papel de ruptura com a objetividade meramente comunicativa, dando passagem a experiências enriquecedoras e variadas - de alteridade, de compreensão e análise, de inconformismo, de imaginação e criação de alternativas que vão além das circunstâncias concretas do presente.

Mas a questão levantada manifesta uma curiosidade específica sobre como se desempenha esse papel em nossos dias e na sociedade brasileira. Isso nos leva a examinar o quadro mais de perto. A sociedade brasileira atual apresenta aspectos bem diferentes da francesa em seu contato com a palavra escrita. Apenas nos últimos 20 anos conseguimos que 98% de nossas crianças em idade escolar estejam na escola - e mesmo assim, com uma qualidade de educação precária que ainda deixa muito a desejar.

Antes disso, apenas uma minoria sabia ler e escrever. Isso significa que grande parte da população - aí compreendidos muitos professores - é constituída por pessoas oriundas da primeira geração alfabetizada e escolarizada do País. Um País que, aliás, tinha fortíssima tradição de literatura oral e que, no século XX, desenvolveu uma rede de televisão onipresente, de alta qualidade técnica e criadora de conteúdos próprios influentes. Ao saltar diretamente da tradição oral para a cultura de massas, sem fazer escala na Galáxia de Gutenberg, temos um quadro muito diferente do da França, como se vê.

Então, o papel desempenhado pela literatura na sociedade atual brasileira passa por dois filtros -- o da escola e o da comunicação de massa. Talvez por isso, um dos campos que mais se destaca pela excelência na criação literária brasileira seja a literatura infantil, que, apesar do gueto da língua portuguesa, nos últimos 30 anos acumula prêmios internacionais (como o Hans Christian Andersen, o Astrid Lindgren, os do instituto Jean Piaget e Fondation espace-Enfants de Genève, o Casa de las Américas, o Iberoamericano), entre outros.

Além disso, tem números de venda fantásticos - em grande parte devido a compras para bibliotecas e escolas, em programas criados no governo de Fernando Henrique Cardoso e mantidos nos de Lula e Dilma Roussef.

Outro campo é constituído por todos os gêneros híbridos que avizinhem a ficção do jornalismo ou do audiovisual, seja porque são criados por jornalistas que trazem uma linguagem imediata e fragmentária em sua recriação do ambiente urbano, seja por se apoiarem em blogs às vezes abertos ao hipertexto, seja por trazerem roteiros cinematográficos ou televisivos quase prontos.

Esses gêneros e mais a ficção, a poesia e o teatro trazem a seus leitores um retrato muito variado da sociedade brasileira e refletem sua diversidade, como nunca se vira em nossa história - até mesmo pelo simples fato de que a escrita agora está ao alcance de muito mais gente, pela alfabetização e pela possibilidade de divulgação de textos online. Por outro lado, como grande parte desses novos leitores é constituída por recém-chegados às letras, sem uma vivência de intimidade com o texto escrito, por vezes alguns autores correm o risco de tender a uma simplificação excessiva e paternalista, sem muita ambiguidade ou pluralidade de sentidos, que não desafia o leitor a recriar um texto seu enquanto lê.

Esse risco é compensado pelo outro lado da moeda: há também uma forte tendência ao experimentalismo e uma grande liberdade, que marcam a literatura brasileira contemporânea. Mas de qualquer forma, o simples fato de haver uma escrita que reflete a diversidade, as contradições e as misturas da sociedade brasileira desempenha ainda outro papel importante, ao conferir a essa sociedade uma consciência de pertencimento coletivo e integração frente a extremismos particularistas, reforçando ao mesmo tempo o reconhecimento do semelhante e o diálogo com o diferente. Isso é próprio de toda criação artística em geral, mas se acentua no caso da literatura, porque ela se faz de palavras que são de todos no cotidiano. Assim, por meio da linguagem, faz compartilhar experiências de vida próximas à realidade concreta, ainda que capazes de incorporar o sonho, a utopia ou o delírio.

De certa forma, se pode dizer que a educação precária, ao mesmo tempo que é a desvantagem maior que a sociedade brasileira enfrenta para que a literatura possa bem desempenhar sua função acabou também dando maior importância a esse papel. Ao brotar da sociedade por meio da memória e da observação, a literatura é uma arte que, pela palavra, tem o potencial de trazer à realidade uma transformação poderosa. Nela, por sua própria natureza, os fatos, ao serem narrados, se convertem numa representação.

A expansão do espaço e a fluência do tempo em que eles ocorrem passam a ser limitadas na literatura por artifícios narrativos, ou ordenados por meio de construções estéticas que organizam a vida e se rebelam contra ela, embora nela tenha raízes e alimento. Tudo isso força o indivíduo a sair de si mesmo, a deixar de ser apenas quem é e incorporar muitos outros, acolhendo parcelas maiores e diferentes da sociedade. Essa compreensão do outro é fundamental para o exercício da cidadania e a experiência da democracia. Sobretudo quando se dá através da expansão dos horizontes sociais da fala, do refinamento da expressão e compreensão de sutilezas conotativas, de um comovedor processo de desenvolvimento intelectual que neste momento histórico é o desafio que a literatura está enfrentando no Brasil, com a possibilidade real de atingir um número maior de leitores. Um desafio comovente e uma oportunidade fascinante.

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