OPINIÃO

No meu restaurante favorito, o brilho da Dayse não é novidade

12/12/2016 14:18 -02
Divulgação/Amanda Mont'Alvão

Na animação Ratatouille (2007), há uma cena em que o crítico gastronômico Anton Ego experimenta o prato que dá nome ao filme, com o propósito de avaliar o restaurante.

A garfada profissional, porém, evoca nele emoções imprevisíveis: Ego é levado para os cheiros e sabores da infância, reunidos em um ratatouille feito por sua mãe e guardados na memória com a preciosidade dos melhores instantes de uma vida. A experiência, então, é convertida em vivência, e saboreada com entusiasmo pelo crítico.

Vivências assim não são restritas a críticos de gastronomia, ainda que deveriam ser acessíveis a todo mundo, especialmente em um mundo em que a miséria persiste e a alimentação sequer atinge o mínimo. Em diversos cantos do globo, milhares de garfadas anônimas trazem conteúdos deliciosos à memória e fazem laços reforçados em rituais coletivos, como os almoços de sábado com os amigos ou os jantares de domingo com a família. São Paulo é bastante plural na hora de oferecer vivências a partir da alimentação, e boa parte dos meus laços tem um endereço certo, um favorito: O restaurante Feed Food - sim, aquele em que a finalista do MasterChef Profissionais, Dayse Paparoto, é coordenadora da cozinha, ou seja, responsável pela chegada triunfal dos pratos maravilhosos às mesas.

Para começo de conversa, minha avaliação é 100% amadora, pautada por lombrigas encantadas com os sabores brasileiros. Não tenho qualquer tipo de conhecimento gastronômico, apesar de gostar muito de cozinhar, e achei extremamente chique aprender a branquear legumes, mesmo sem saber muito bem o que eu estava fazendo. Fico prestando atenção nas receitas do MasterChef e fazendo quiz mental sobre as 1001 utilidades de um ovo, mas queria mesmo era degustar aqueles pratos todos e imitar as caras de suspense da Paola.

Sei nada profissionalmente, portanto. Mas, como público geral, do tipo que faz um "hmmmmmmmm" empolgado já na primeira garfada e comemora o atendimento atencioso de todos os envolvidos na mágica de um restaurante, me alegro cada vez que posso retornar ao Feed Food e a suas hipnotizantes coxinhas de mandioquinha e caipirinha de compota de figo. Tem sido assim desde 2013.

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Coxinha de massa de mandioquinha servida com molhinho tchururu

Um restaurante favorito tem as manhas de provocar angústia: Você fica na dúvida se permanece fiel à escolha do seu prato predileto e revive aquela felicidade do desejo realizado, ou se arrisca alguma das outras tentações do cardápio, tendo em mente que tudo ali pode ser sensacional - o hambúrguer delicioso com cebola ao tabasco, o filé à base de pimenta ou o risoto de abóbora com queijo da Serra da Canastra? Uma escapatória possível é induzir que os acompanhantes da mesa peçam pratos variados e você possa petiscar a escolha alheia sem compromisso. É prático, mas um tanto quanto folgado.

Recentemente, estive no restaurante e pude dar uma leve stalkeada em minha competidora favorita - opositores dirão que isso é marmelada - enquanto saboreava um noodles crocante de frango ao curry com cenouras, abobrinhas e amêndoas. O "de sempre", com grande satisfação.

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Macarrão crocante "baum demais da conta" since 2013

Finalizado o prato principal, era hora de abrir as comportas do estômago para um doce. O bom é que a mente humana dá uma ludibriada no corpo e faz você acreditar veementemente que ainda dá pra pedir um docinho, mesmo quando tudo que se visualiza é você rolando calçada abaixo depois de tanta comida. O eleito mais uma vez foi o fudge de Ovomaltine, uma espécie de brownie gelado bastante macio servido com uma bola de sorvete de nata e com lascas de amêndoa.

Outro aspecto bastante positivo de um restaurante favorito é que quando você já não consegue estabelecer comunicação verbal porque o olho foi maior que a barriga, os garçons leem seu pensamento e trazem a conta, quase como em uma operação de resgate. Eles oferecem um café, mas são sagazes o suficiente para perceber que limites vão fazer bem àquela situação. E assim, vou embora com aquela sensação de quem precisa voltar e aproveitar ainda mais a permanência no restaurante.

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O fudge de Ovomaltine e sua explosão tchakabum de texturas

O Feed Food é o meu restaurante favorito, a Dayse é arrasadora no comando na cozinha e na simpatia com os frequentadores, e é impressionante como aquele lugar é acolhedor - Jacques sempre nos recebe com um grande sorriso. Ou seja, cá estou eu desfiando uma sequência de elogios e de memórias afetivas. Suponho que esta seja a sensação de cada um de vocês com seu restaurante predileto, com o lugar escolhido para celebrar a vida e levar as pessoas queridas. E é bom que possamos ter cantinhos preferidos, para exercer o deleite, reunir quem amamos e criar lembranças.

Entre o desenvolvimento de um prato, a execução dele e o encantamento do cliente, imagino que haja um caminho em que expectativa e realidade se encontrem sem dificuldade. Em que o novo e o diferente pelo menos sejam degustados antes de serem descartados ou relegados ao preconceito. Em que a multiplicidade de temperos e sabores coexista e se ajunte criativamente, de acordo com o imaginário de cada chef. Em que as diferenças se reúnam em torno da mesa e celebrem suas singularidades. Uma refeição saborosa, quem diria, pode ser o espaço de convivência possível para tudo aquilo que não conseguimos digerir no dia a dia.

Dayse, você sempre esteve de parabéns!

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Desculpa Dayse, não resisti a essa stalkeada básica


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Feed Food, lugar de memórias deliciosas

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