OPINIÃO

5 passos para amar a sua sexualidade

1. Conviva com outros gays, lésbicas, bissexuais e pessoas sem preconceito. 😍

21/02/2017 21:49 -03 | Atualizado 27/02/2017 17:35 -03
FatCamera via Getty Images
"A verdade é que sair do armário não é tão simples, apesar de necessário."

Você se dá conta que tem atração por pessoas do mesmo sexo. E então começam a surgir variadas sensações. Para mim as mais fortes foram estranheza e deslocamento.

Vivemos em ambientes em que ver gays ou lésbicas se beijando ou simplesmente dando as mãos ainda é uma cena "rara". E é daí que vem a estranheza. Parece algo tão fora do comum que iniciar essa autodescoberta pode ser gritantemente desconfortável. E esse desconforto surge principalmente pelo medo do que os outros vão falar e pensar.

Quem vive na cidade de São Paulo já começa a ver mais casais despreocupados com os olhares alheios. Outras cidades, como Rio de Janeiro, também já passaram a treinar seus olhos para pessoas decididas a mostrar o amor publicamente. Mas em cidades menores, essa cena pode nunca ter sido vista por muitas pessoas – é difícil desbravar um ambiente que inicialmente será hostil.

A verdade é que sair do armário não é tão simples, apesar de necessário. Exige coragem para enfrentar não só o mundo, mas muitas vezes a família e os amigos. Você poderá ser excluído de alguns círculos sociais e até expulso de casa.

E o deslocamento vai existir, porque em uma roda de amigos, por exemplo, quase sempre estarão falando sobre casais heterossexuais. No começo, foi difícil falar de uma mulher, quando todas as minhas amigas estavam compartilhando experiências sobre homens.

Cada pessoa terá o seu processo de autodescoberta, mas acredito que alguns pontos são importantíssimos para essa busca. Foram eles que me ajudaram a começar a falar naturalmente sobre minha identidade sexual. Eis pelo menos cinco deles.

1. Conviva com outros gays, lésbicas, bissexuais e pessoas sem preconceito

Faz toda a diferença conviver com pessoas com quem você possa se identificar. Frequente bares e ambientes LGBTs para se deparar com pessoas que passaram pelas mesmas situações. Elas poderão contar suas histórias de vida e compartilhar experiências riquíssimas. E sim, eles farão você se sentir muito, mas muito melhor. Sem dúvida, minhas amigas lésbicas foram cruciais para iniciar o meu processo de aceitação. Era tanta naturalidade ao contar que tinham beijado uma mulher que, aos poucos, fui conseguindo me soltar.

Não é tão simples quanto parece. Mesmo com amigas lésbicas, ainda tinha receio de contar sobre meus desejos mais profundos. O "empurrão" definitivo foi o beijo de um amiga. Aos poucos, fui me libertando.

2. Conte apenas quando puder lidar com reações negativas

Não se apresse em contar às pessoas se não estiver confortável. Enquanto você não se aceitar e não limar o preconceito interno, se forçará a passar por situações traumáticas e frustrantes. Demorei muito a conseguir falar publicamente quem eu era. Por dois ou três anos, preferi o meu anonimato no blog e em algumas reportagens. Por alguns anos, também não comentava absolutamente nada no trabalho sobre ser casada com uma mulher. Eu não queria me expor, pois sabia que enfrentaria comentários e situações complicadas.

Quando realmente me senti preparada, escrevi minha história na revista ÉPOCA. Recebi muitas mensagens lindas, mas outras nada motivadoras. Muitos comentários no Facebook da publicação foram cruéis, mas eu não sofri – já estava totalmente preparada para o que estava por vir. A internet pode ser tão ou mais cruel que o "mundo real". Estar ciente da ignorância e do preconceito é importantíssimo para conseguir seguir em frente. É importante entender que nem todos irão aceitar (e nem respeitar). E você não precisa ser necessariamente gay, lésbica ou bissexual para que isso aconteça. Definitivamente alguém sempre vai criticar você por qualquer coisa – às vezes algumas que você nem imagina.

3. Fale sobre seus sentimentos para pessoas de confiança

Falar o que sente é uma dos maiores tesouros dessa autodescoberta. Converse com seu psicólogo, amigos e todas as pessoas em quem você confia. Se não tiver ninguém para contar, pule para o passo número 1. Quando eu não conseguia falar tão abertamente recorri à internet para desabafar até com desconhecidos. O meu medo era gigantesco e até na internet tinha dificuldades. Eu não conseguia nem falar o meu primeiro nome em chats para lésbicas e bissexuais. Achava que alguém iria me descobrir e eu passaria vergonha diante dos meus amigos e colegas.

Quanto mais exercitei contar a minha história, mais fácil foi ficando. Converse sobre o assunto o quanto puder. Não pare, não pare, não pare. Uma hora você vai conseguir contar a sua história muito, mas muito naturalmente. Isso tira um peso inimaginável.

4. Participe de eventos e rodas de conversas

As minhas grandes inspirações vieram de palestras e rodas de conversas sobre os temas mais diversos: ativistas lésbicas, gays, bissexuais, teoria Queer e todos os assuntos da comunidade LGBT. É emocionante constatar que muitas pessoas estão estudando a sexualidade para compartilhar descobertas incríveis e reconfortantes. Ter acesso a teorias e pensamentos bem construídos, a partir de pesquisas e ricos debates, nos elevam a um outro patamar.

Há mutos eventos voltados para o público LGBT. O BlogSoubi vai começar a mapear todos eles e publicar mensalmente. Você vai se surpreender com a riqueza de assuntos e compartilhamento de experiências.

O BlogSoubi também pretende promover esse ano algumas rodas de conversa em São Paulo e outras regiões. Para sugerir espaços, por favor, entrem em contato.

5. Viva um grande amor (ou não)

Vai valer muito mais a pena se você se permitir viver a sua sexualidade plenamente. Não adianta matar a curiosidade e se esconder em relações que não lhe preencham verdadeiramente. Ainda recebo muitos relatos de homens e mulheres insatisfeitos com suas relações atuais. Um exemplo é o dessa lésbica, casada há 25 anos com homem. "Acabei me casando mais por conveniência do que por paixão. Para ter um pouco de prazer, fecho os olhos e me imagino transando com uma mulher", disse ela ao BlogSouBi.

Livrar-se das amarras que nos prendem a mentiras é um dos maiores passos que podemos dar. Encontrar um grande amor nessa caminhada seria maravilhoso. Mas não deve ser o maior objetivo para começar a amar quem você é. Como bem disse Clarisse Lispector: "Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo."

Mergulhar em si mesmo e conhecer a sua plenitude trará um amor a si próprio inimaginável. É assim que você vai começar a amar cada parte de quem você é. E quando conseguir, transmita esse amor a todos à sua volta. É um pouco do que estou tentando fazer.

Esse texto foi postado originalmente no BlogSouBi

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