OPINIÃO

O Facebook durante a Primeira Guerra Mundial

29/08/2014 15:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02
Getty Images

Quem nunca ficou desanimado com a espécie humana só de olhar sua timeline no Facebook? Preconceito, opinionismo ignorante, demagogia, boataria alimentada a má-fé e falta de noção - uma barbárie que, distraídos, podemos achar que é própria destes tempos 2.0. Acontece, é bom lembrar, que não: sempre fomos violentos, cínicos e irresponsáveis com o verbo. E talvez com padrões parecidos com os que, hoje, as redes sociais escancaram.

Em boa parte, dá para enxergar esses padrões em "A Beleza e a Dor - Uma História Íntima da Primeira Guerra Mundial" (Companhia das Letras, 520 páginas, R$ 62), em que o historiador sueco Peter Englund conta uma história do conflito tomando como base os registros - cartas e diários - de 19 pessoas comuns, de vários países, no front ou longe dele.

O resultado, fascinante, expõe como a humanidade se virou para aprender o significado, a real dimensão, de uma guerra mundial, muito mais complexa e mortífera do que qualquer outra do passado. E dá também, acessoriamente, pra gente imaginar o que seria dessas testemunhas se elas tivessem um smartphone na mão ao longo daqueles anos turbulentos. Exemplos?

1. Em agosto de 1914, a timeline da menina alemã Elfried Kuhr, de 12 anos, fica cheia de "notícias" sobres agentes russos e franceses na Alemanha: uns quiseram matar o príncipe herdeiro em Berlim, outros tentaram contaminar com cólera um reservatório de água, explodir uma ponte e uma fábrica de aviões nas cercanias da sua cidade... Não passavam de rumores - e as pessoas repassam, comentam e ainda dão detalhes e opiniões abalizadas.

2. No mesmo mês de agosto, no dia 20, o Japão dá um ultimato à Alemanha, exigindo que o país retire todos os navios de guerra da Ásia e que a colônia alemã de Tsingtao seja devolvida aos japoneses. O marinheiro alemão Richard Stumpf, de 22 anos, posta a notícia (desta vez, real) no seu perfil e comenta:

"Só mesmo esses asiáticos amarelos de olhos puxados seriam capazes de vir com essa reivindicação absurda"

3. Nos primeiros meses da guerra, um meme alemão circula nas redes:

"Cada tiro, um russo; cada estocada, um francês; cada chute, um inglês; cada estrondo, um japonês" kkkkkkkkk morri

4. Eufórica com a guerra, Florence Farmborough, inglesa de 27 anos que trabalha como governanta na Rússia, se oferece para ser enfermeira no front. Explicando, posta:

"Eu queria vê-la, queria ver a morte"

Ela começa em um hospital militar em Moscou, com pouca ação. Durante três semanas, ninguém morre. Até que, numa manhã, é informada da morte de um cavalariço, Vassíli. Excitada, vai à capela funerária, fotografa a cena e a compartilha com a legenda:

"A morte é muito solitária e imóvel"

Várias curtidas e mensagens de solidariedade se seguem.

5. Em 28 de setembro de 1914, o soldado dinamarquês Kresten Andresen posta:

"Um sino silencia. E outro. E mais outro. Os sinos estão cada vez mais silenciosos, cada vez mais fracos, quase sumindo. Morte, onde está a sua vítima? Inferno, onde está a sua vitória?"

Recebe 3574 curtidas, com 389 compartilhamentos. Entre os comentários, alguém diz que versos bons são esses, "muito melhores que esse tal de Rilke de que tanto falam".

6. Em outubro de 1914, as redes sociais dão conta de vários triunfos alemães. Os portais informam os números de prisioneiros de guerra são assombrosos - o que fazer com tantos? Na área de comentários, opiniões não faltam. A professora Ella Gumprecht curte a notícia, compartilha e arrisca:

"Por que não fuzilam todos de uma vez?"

7. Com 21 anos, Alfred Pallard deixa seu trabalho de auxiliar de escritório em uma firma de seguros em Londres e segue para um quartel do Exército a fim de se alistar. Três meses depois, recebe seu rifle. Na sua timeline, posta a foto da arma e escreve:

"Aê, estou armado. Esta arma foi feita para matar. Quero matar!"

8. Em novembro de 1914, em Bordeaux, circula uma corrente de orações. Deve-se copiar as orações recebidas e enviá-las para outras nove pessoas por inbox, do contrário...

"...ocorrerá uma tragédia pessoal ou com algum ente querido mais próximo"

Mas nem tudo é desgraça, há várias outras passagens que depõem a favor do ser humano. Como se vê pelas datas, os trechos acima são do começo do conflito - e é interessante ver que, conforme o horror da guerra avança, a falta de noção declina e o decoro cresce. E, curiosamente, como a egotrip cede lugar ao interesse pelo outro. É uma esperança e tanto pra nossa vida no Facebook.

A esses exemplos positivos, volto no próximo post.

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