OPINIÃO

A vida mais feliz em Super 8

28/03/2014 14:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Quem já tem uma certa idade (e nem precisa ser muita) assistiu ao desaparecimento de um número considerável de mídias feitas para entretenimento e uso doméstico: fita cassete, vinil, VHS, disquete, minidisc, laserdisc, zip drive, filme fotográfico... Sem contar que, num mundo de nuvens e streamings, CD, DVD e até blu-ray estão a caminho da extinção. E embora a maioria de nós não tenha muitas razões para se queixar tecnicamente dos novos tempos, ainda hoje não conseguimos nos descolar dessas antiguidades. Pode-se alegar nostalgia, pode-se acusar modinha retrô. Mas nem uma nem outra se explicam por si.

Feito inteiramente com imagens de filmes Super 8, o clipe que vai acima - Postcards From Italy, da banda americana Beirut - é, ainda que meio antiguinho (2005), o melhor exemplo que conheço de como algumas tecnologias, ainda que suplantadas implacavelmente, podem absorver e reproduzir - com o tempo - um complexo de afetos. E como, por isso, adquirem um valor estético que não pode ser reproduzido nem pela última palavra em inovação hoje e, provavelmente, do futuro também.

Isso se aplica ao cinema em preto-e-branco, ao sépia e púrpura de fotografias antigas, ao som de uma agulha riscando o vinil e, naturalmente, à imperfeição dos filmes Super 8 caseiros e mudos. Ok, são todas coisas antigas, mas a reação que provocam hoje não advêm apenas, e necessariamente, daquela genérica nostalgia, daquele fácil modismo: se fosse assim, as fitas VHS teria o mesmo apelo que vinis ou filmes fotográficos. O que não acontece, óbvio.

Algumas sobrevivem, ao menos no nosso imaginário, porque nos mostram que há maneiras alternativas de experimentar o mundo - maneiras que, mesmo que fisicamente presas ao passado, ainda têm seu apelo. Imagens em alta definição, 3D, som dolby digital e coisas que tais são um sucesso, mas elas não possuem - como nenhuma tecnologia, nova ou velha - o monopólio dos nossos sentidos, das nossas memórias e dos nossos desejos.

Como se fosse uma espécie de resposta do passado à banalização das fotos e dos vídeos feitos à baciada pelos smartphones, o Super 8 tinha, tem, o poder de fazer de cada momento especial. Na edição familiar e na brevidade das cenas, o ser humano parece ser melhor do que realmente é; na luz fria da película, parece se esconder um segredo de felicidade; e nessa espécie de fotografia em movimento, ditada pela economia de uma mídia cara, complicada e de tempo limitado, a vida parece ser melhor para quem está lá dentro.

Tudo "parece", e certamente trata-se de uma percepção ilusória. Mas é claro: o realismo não é tudo, e às vezes esquecemos que as novíssimas tecnologias continuam nos oferecendo a mesma ilusão, só que de outras formas. Há poucas coisas que prezamos mais do que sermos iludidos. E não há nenhum mal nisso.

(Texto originalmente publicado no blog Não me Culpem Pelo Aspecto Sinistro)