OPINIÃO

Debate: Uma Catalunha independente seria melhor? Sim

19/09/2014 18:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Creio que em uma Catalunha independente a vida será mais normal. Nós, catalães, não nos consideramos melhores que qualquer outro coletivo humano, mas tampouco inferiores. A maioria dos catalães não queremos montar nenhum império nem conquistar ninguém; simplesmente desejamos ser muito parecidos com os portugueses, os dinamarqueses ou os espanhóis. Ou seja, ser soberanos e decidir sobre nossas escolas, hospitais, eleições, leis, administrações, sem que tudo nos chegue ditado ou interferido por povos vizinhos.

Um Estado próprio nos permitirá deixar de ser menores de idade políticos. Assumiremos nossas responsabilidades coletivas, e não haverá qualquer motivo de peso, além dos próprios erros, para nos queixarmos de agravos financeiros, da discriminação linguística ou descumprimento de direitos coletivos. Seremos livres para decidir por nós mesmos, para decidir que país queremos, inclusive para decidir em que escolhemos nos equivocar. Será o fim de culpar por tudo o poder espanhol, esse "maldito governo!" que influiu em nosso espírito durante três décadas. A Catalunha vai amadurecer.

Não se trata de um capricho, nem de montar um enredo para concorrer no festival da televisão. Trata-se de dispor de nossos próprios recursos para destiná-los ao que decidirmos, coletiva e livremente. Trata-se de ter um exército pequeno, ou nenhum, se optarmos por reorientar o dinheiro de todos para melhorar a pesquisa, a excelência e a competitividade. Trata-se de decidir se optamos por resgatar os grandes bancos sistêmicos ou por estimular as pequenas caixas de poupanças e redes cooperativas. Trata-se de dar poder ao Parlamento catalão para que resoluções como a doação em pagamento não sejam declarações vazias por falta de competências.

Tenho a impressão também de que as relações com a Espanha vão melhorar. A língua espanhola não poderá mais ser considerada uma imposição, e sim uma escolha livre de um idioma do qual gostamos e que nos convém. Os intercâmbios econômicos serão mais livres entre iguais, condições que desde Adam Smith são vistas como estímulos ao comércio. Talvez a única maneira de que melhorem as relações de todo tipo é reconhecendo que a chave de um futuro melhor para todos está no respeito mútuo e no debate entre iguais.

A democracia também será reforçada no caminho que leva à independência, já que só vemos um caminho possível para chegar a ela: o que passa pelas urnas. O cumprimento do princípio de autodeterminação constituirá um êxito coletivo para os catalães, seja qual for o resultado. E também o será, inclusive mais, para a maioria dos espanhóis. Porque se opor-se à vontade democrática dos catalães pode desgastar a própria democracia espanhola, o contrário, ou seja, defender a livre vontade dos catalães, irá consagrar e reforçar de forma excepcional a democracia espanhola.

Em algo se notará de forma radical uma melhora: no fim da introspecção incessante. Com uma República Catalã, deixaremos de nos interrogar reiteradamente sobre as vantagens e desvantagens da independência. Esse desfolhar de margaridas acabará, dando lugar a uma normalização da vida nacional, podendo dedicar mais energias a outras tarefas e canalizando todo o nosso potencial criativo para a empresa, as artes e o bem-estar. Como tantos independentistas catalães, aspiro a deixar de militar no campo do independentismo e ingressar nas fileiras da independência serena e reconhecida.

Seremos comparáveis aos países que outrora fizeram parte do reino da Espanha, como Portugal, Chile, Costa Rica e boa parte dos EUA; países que em algum momento pertenceram à coroa espanhola e que resolveram emancipar-se. E ninguém mais lhes pergunta se sua vida melhoraria com a independência. Porque a veem como um estado lógico que não exige justificativa. O que exige uma explicação, em todo caso, é a dependência. E essa se explica muito mal.