OPINIÃO

Grécia: às vésperas de uma mudança histórica

06/01/2015 16:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A Grécia está às vésperas de uma mudança histórica. O Syriza não é mais somente uma esperança para Grécia e para a população do país. Também é uma expectativa de mudança de curso para toda a Europa. Porque o continente não vai sair da crise sem uma mudança de suas políticas. Uma vitória do Syriza nas eleições de 25 de janeiro vai dar impulso às forças de mudança. Porque o beco sem saída da Grécia é o beco sem saída da Europa de hoje.

Em 25 de janeiro a população grega será chamada a fazer história com seu voto e a abrir um caminho de mudança e esperança para os povos de toda a Europa, condenando as políticas fracassadas de austeridade e provando que, quando a população tem o desejo e a ousadia, quando supera o medo, as coisas podem mudar.

As expectativas de mudança política na Grécia já começaram a mudar as coisas na Europa. 2015 não é 2012.

O Syriza não é um monstro ou uma grande ameaça à Europa, mas a voz da razão. É o despertador que vai tirar a Europa de sua letargia e de seu sonambulismo. É por isso que o Syriza não pode mais ser tratado como uma ameaça, como ocorreu em 2012, mas sim como um clamor por mudanças. Por todos?

Não por todos. Uma pequena minoria, centrada na liderança conservadora do governo alemão e em parte da imprensa populista, insiste no conto da carochinha da "saída grega".

Assim como o senhor Samaras, na Grécia, eles não convencem mais ninguém. O povo grego viveu seu governo e sabe diferenciar as mentiras das verdades.

Samaras não oferece outro programa além da continuidade da plataforma de austeridade. Ele e outros se comprometeram a implementar mais cortes de salários e pensões e a aumentar os impostos, tudo parte do plano de redução de renda e sobretaxação que já dura seis anos. Ele pede aos cidadãos gregos que votem nele para que ele implemente mais dessas políticas. É justamente por causa do compromisso de Samaras com a austeridade que ele afirma que a rejeição de sua plataforma fracassada e destrutiva seria uma ação supostamente unilateral.

Ele está essencialmente escondendo que a Grécia, como integrante da zona do euro, está comprometida com as metas e não com os meios políticos pelos quais essas metas são cumpridas.

Por esta razão, e diferentemente do Nea Dimokratia, o partido no poder, o Syriza se compromete com a população grega a implementar o Programa Tessalonicense, um plano de ação específico, equilibrado e fiscalmente responsável a partir do primeiro dia de governo, a despeito de nossas negociações com nossos credores.

Com ações direcionadas para conter a crise humanitária. Com justiça fiscal, para que a oligarquia financeira que permaneceu intocada pelos quatro anos de crise finalmente tenha de pagar. Com um plano para reiniciar a economia, combater os níveis de desemprego sem precedentes e voltar ao crescimento.

Com amplas reformas no modus operandi do Estado e do setor público, porque nosso objetivo não é voltar a 2009, mas sim mudar tudo o que levou o país à beira da falência econômica e moral.

Clientelismo, um Estado hostil a seus cidadãos; evasão fiscal; elisão fiscal; dinheiro "sujo"; contrabando de combustível e cigarros; estes são apenas alguns aspectos de um sistema de poder que governou o país durante muitos anos. Esse sistema levou o país ao desespero e continua a governar em nome da emergência nacional e do medo da crise.

Na realidade, entretanto, esse medo não é da crise e sim da mudança. O medo e a culpa do establishment que levaram a população grega a uma tragédia sem precedentes.

Se os responsáveis por tudo isso sabem algo sobre as antigas tragédias gregas, têm todos os motivos para temer, pois depois da arrogância vêm o castigo e a catarse!

Mas a população da Grécia e da Europa não tem nada a temer. Porque o Syriza não quer o colapso do euro, mas sim seu resgate. E salvar o euro é impossível para os países-membros quando o déficit público está fora do controle.

O problema do déficit não é só grego, mas europeu. E a Europa está devendo uma discussão profunda, além de respostas sustentáveis, para este problema.

O Syriza e a esquerda europeia argumentam que, no sistema atual, deve haver um perdão da maior parte do déficit público nominal e uma moratória dos pagamentos. Além disso, o serviço da dívida restante tem de estar condicionado a uma cláusula de crescimento, para que os parcos recursos remanescentes sejam usados para colocar a economia em movimento.

Defendemos condições de pagamento das dívidas que não levem o país a uma recessão sufocante e não levem a população ao desespero e à pobreza.

Com sua posição de que a dívida grega é sustentável, Samaras faz mal à Grécia. Ele não apenas baixa o sarrafo da negociação - se recusa a negociar, ponto. Se admitirmos que a dívida é sustentável e as políticas de austeridade são um "caso de sucesso", o que vamos negociar?

Hoje podemos discernir duas estratégias diametralmente opostas sobre o futuro da Europa. De um lado temos a visão do sr. Schäuble, segundo a qual devemos seguir implementando as leis e princípios acordados, funcionem eles ou não. Do outro, temos a estratégia "do que for necessário" - o que foi dito pela primeira vez pelo presidente do Banco Central Europeu - para salvar o euro. Na realidade, a iminente eleição grega são uma mistura dessas duas estratégias.

Acredito que a segunda alternativa vá prevalecer, por um motivo extra. Porque a Grécia é o país de Sófocles, que, com "Antígona", nos ensinou que há momentos em que a lei suprema é a justiça.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Huffington Post Grécia e traduzido do inglês.

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