OPINIÃO

Zika, microcefalia e aborto: É correto impedir uma mãe de escolher ter ou não esse filho?

10/02/2016 11:31 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Daniele da Silva, who is seven months pregnant, poses for a photo as she sits inside her home in a slum of Recife, Brazil, Friday, Feb. 5, 2016. Da Silva said she had Chikungunya a couple of months ago and her ultrasound scan and other exams of her baby are normal. Like Chikungunya, mosquitos are a vector for the Zika virus, which is suspected to be linked with occurrences of microcephaly in new born babies, but no link has been proven yet. (AP Photo/Felipe Dana)

O Brasil é um país altamente religioso. Em pesquisa recente, 79% dos entrevistados do país se declaram como pessoas religiosas, 16% disseram que não o são, enquanto apenas 2% se declaram ateus.

Desses autodeclarados crentes, a grande maioria é formada por cristãos.

Para esse subgrupo, o aborto é um pecado gravíssimo sob quaisquer circunstâncias. Não por acaso, o Brasil é um dos países com a legislação mais retrógrada sobre o aborto. Permite-se apenas em caso de estupro e risco de vida para a mãe.

Ainda assim, há críticas a esse "excesso" de liberdade.

Em 2009, em Pernambuco, uma criança de 9 anos foi estuprada pelo padrasto. Acabou grávida de gêmeos. Realizado o aborto, o Arcebispo local excomungou a criança e a equipe médica que realizou o procedimento. Já o estuprador, nas palavras do religioso, não merecia o mesmo castigo. Cometera um pecado menor.

Em uma rápida pesquisa pela Bíblia Católica, verifiquei a ocorrência do termo "aborto" em seis ocasiões. Aos que se interessarem, elas ocorrem nas seguintes passagens: Números (12:11-12), Jó (3:16), Eclesiastes (4:2-3 e 6:3-5).

Em nenhuma dessas passagens há uma condenação clara e específica ao aborto. A crítica cristã a esse procedimento é derivada da interpretação de outras passagens, como a que Jeremias (1:5) diz que Deus nos conhece antes mesmo da concepção e que somos consagrados antes mesmo de nascer.

Deus não disse nada sobre o aborto. Mas esse mesmo Deus matou Onã. Motivo? Ele praticava o coito interrompido como forma de não engravidar a mulher de seu irmão. Está lá em Gênesis (38:8-10).

Deus é mesmo um mistério...

Essa é uma das coisas que mais me enfadam nas igrejas e nos líderes cristãos que temos por aí, em volta (e dentro) do Congresso feito urubus em volta de uma carcaça: a hipocrisia, a leitura seletiva da Bíblia.

Mas essa hipocrisia está presente em toda a sociedade.

Lembro de uma vez em que estava dando aula para uma turma de mais de 40 pessoas, formada quase só por mulheres. Era um curso noturno em uma faculdade particular simples de São Paulo, eram todas ali mulheres feitas.

Minhas perguntas:

"Quem concorda com o aborto independentemente do motivo?".

Meia dúzia levantou a mão.

"Quem aqui conhece uma pessoa - parente ou amiga - que praticou aborto?".

Quase todas levantaram as mãos.

"Quantas de vocês acham que essa pessoa que abortou deveria ser presa como assassina?".

Acho que ninguém levantou a mão.

Esse microcosmo parece uma boa amostra da população.

O tema do aborto voltou com força agora por conta da epidemia de zika e a microcefalia por ela causada. Microcefalia que - pelo que dizem os médicos - é mais severa que a "tradicional". A criança com essa condição não só terá dificuldades motoras e intelectuais, como será cega e surda.

Então, por conta da incompetência do Estado em erradicar o mosquito transmissor, a mãe não pode ter a opção de escolher pelo aborto?

O que essas mulheres receberão do Estado? Respondo: um salário mínimo via assistência social e um sistema de saúde pública de merda.

É correto impedir uma mãe de escolher ter ou não esse filho?

E a cruz nesses casos quase sempre cai nas costas das mulheres. Já são amplas as notícias de homens que estão abandonando suas parceiras por conta das crianças com microcefalia.

E mesmo os que ainda permanecem com suas companheiras, muitos irão abandoná-las em breve. Quantos casamentos sobreviverão a uma rotina tão pesada quanto a que essas mulheres terão que enfrentar?

A esses homens, valendo lei, caberá a transferência mensal de dinheiro a título de pensão alimentícia. Já para mulher caberá todo o resto.

Alguns andam por aí a comparar a liberdade de aborto nesses casos com a eugenia nazista.

Isso, para mim, é o cúmulo da escrotidão humana.

Nenhuma mulher está pedindo para colocar os filhos recém-nascidos em uma câmara de gás. Discute-se, apenas, o direito de se abortar o feto no caso desse problema ser identificado.

Mas aí o argumento volta para a questão religiosa: a vida de embrião vale tanto quanto a de uma pessoa já nascida?

Podemos voltar ao velho exemplo de sempre: imagine que você está em um laboratório em chamas.

De um lado há uma criança de um ano e de outro há 5 milhões de óvulos fecundados. Você só pode salvar um dos dois, qual você escolheria?

Se a vida do embrião realmente vale o mesmo que o de uma pessoa nascida, então você deixará a criança ser carbonizada e sairá do hipotético laboratório carregando um tonel de nitrogênio líquido.

Lembro de uma vez assistir a um esquete do programa Saturday Night Live no qual a humorista dizia o seguinte:

"Se os homens pudessem ficar grávidos, clínicas de aborto seriam como lojas do Starbucks. Haveria duas em cada quarteirão e quatro em cada aeroporto"

Ridendo castigat mores, (Com o riso se castigam os costumes, em latim).

Quem dirá que isso é mentira?

Quem dirá que as mulheres têm realmente voz ativa na questão do aborto no Brasil, quando menos de 10% dos legisladores da Câmara são mulheres? Quem dirá que o aborto é realmente proibido no Brasil?

Eu sei quem: os "descomedores" de regras de sempre.

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