OPINIÃO

Venezuela: A crônica de mais um fracasso do socialismo

21/06/2016 14:03 -03 | Atualizado 21/06/2016 14:03 -03
LUIS ROBAYO via Getty Images
A graffiti depicting late Venezuelan president Hugo Chavez (L) and XIX Cetury hero Simon Bolivar on a wall in the vivinity of a polling station in the low-income Petare neighborhood during Venezuela's legislative election in Caracas, on December 6, 2015. Venezuelans voted Sunday in tense elections that could see the opposition seize legislative power from the socialist government and risk sparking violence in the oil-rich, cash-poor nation. AFP PHOTO/ LUIS ROBAYO / AFP / LUIS ROBAYO (Photo credit should read LUIS ROBAYO/AFP/Getty Images)

Karl Marx foi um dos grandes gênios que a humanidade já produziu. Ponto. Assim como ainda hoje a humanidade lê e estuda Aristóteles, daqui mil anos ainda se lerá e se discutirão as ideias de Marx.

Na economia, amplamente dominada pela ideologia liberal, o marxismo é bastante marginalizado. E isso não é uma boa notícia. O Capital (1867) é uma obra-prima do pensamento social. Marx era um erudito no sentido profundo do termo. Dominava tudo de economia, sociologia, política, história, filosofia, etc.

O marxismo é um instrumento poderoso - ainda que imperfeito, como qualquer ideologia das Ciências Humanas - para compreender o mundo.

Mas aqui é preciso notar um detalhe. O marxismo é genial quando analisa o mundo como ele é. Mas, em geral, quando tenta tratar de como o mundo deveria ser, sua relevância converge rapidamente para zero.

Marx nunca escreveu um manual sobre como seria a sociedade socialista. Esse exercício de futurologia para ele, aliás, era coisa dos utópicos.

Sem uma teoria muito bem definida sobre como construir o socialismo, os comunistas que chegaram ao poder tiveram que usar muito de sua imaginação.

E a história mostrou que o socialismo econômico - isto é, a substituição do regime de propriedade privada e livre iniciativa pela estatização e o planejamento absoluto das decisões econômicas - é um fracasso absoluto no longo prazo.

Para os que duvidam, eu sugiro que busquem uma comparação dos dados econômicos das duas Alemanhas em 1989, quando da queda do muro. A diferença fala por si só.

Os liberais já previam o fracasso desse tipo de experimento.

O Estado possui o monopólio da força e por isso é uma entidade a ser vigiada constantemente pela sociedade civil.

Se além do monopólio da força, o Estado também possui o monopólio da produção de riqueza, não há força capaz de controlar seus instintos dominadores.

O estalinismo não é um desvio do socialismo, ele é o resultado necessário de um regime em que o Estado possui todo o poder. Não é por acaso que todos os regimes socialistas desembocaram em ditaduras, inclusive em dinastias, como na Coreia do Norte e em Cuba.

Mas a humanidade é inclinada à fé.

Em 1999, quando Hugo Chávez chegou ao poder através de um processo democrático, ele afirmava estar construindo o "socialismo do século XXI". Não foram os poucos os que se entusiasmaram com aquele experimento social.

Na Venezuela, ao contrário dos países soviéticos, o Estado não acabou com a propriedade privada. Isso não foi necessário. Metade do PIB da Venezuela está atrelado à exportação de petróleo. Mais de 95% das receitas de exportação. Ao controlar a estatal do setor - a PDVSA - Chávez dominava virtualmente toda a economia do país.

E ao controlar quase toda a economia, ele acumulou poderes políticos em igual escala. O Estado venezuelano era Hugo Chávez, Hugo Chávez era o Estado venezuelano.

Em 1999, quando assume o poder, o preço do barril do petróleo estava em 11 dólares. Iniciou-se então uma trajetória de alta que só foi interrompida em 2008, com a eclosão da crise americana. Àquela época o preço estava em 121 dólares.

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A Venezuela, nesse processo, havia enriquecido (em aparência) brutalmente.

Com os dólares obtidos com o petróleo, Chávez reequipou o Exército, fez grandes programas sociais, subsidiou alimentos e tarifas pela Venezuela.

Por isso era o pai dos pobres. Por isso vencia todas as eleições possíveis e imagináveis (e, quando não vencia, mudava as regras para vencê-las, como de praxe nas ditaduras que se disfarçam de democracia).

Entre 2008 e 2009, por conta da recessão global, o preço do petróleo despencou para 40 dólares. Foram momentos difíceis para Chávez, mas já em 2011 o preço voltava a ficar acima dos 100 dólares.

A partir do segundo semestre de 2014, já com Nícolas Maduro no poder, o preço do petróleo volta a desabar. Saindo do patamar de 106 dólares no segundo trimestre daquele ano, para 48 dólares no final do ano passado.

A queda no preço do petróleo significa o colapso da economia venezuelana, o esgotamento das suas reservas de dólares e a inviabilidade dos programas populistas.

Com a queda nas receitas, o governo passou a ter déficits orçamentários crescentes. Para cobrir esses déficits, decidiu imprimir moeda, provocando uma inflação que está por volta de 700% neste ano.

Maduro não pode mais subsidiar a compra de alimentos e se vê obrigado a cortar uma série de benefícios à população.

A pobreza tem aumentado brutalmente, assim como as cenas de saques aos supermercados, a fome e a revolta da população. Muitos devem sentir saudades de Chávez, já que naqueles tempos a vida era melhor. Mas a verdade é que a culpa não é de um indivíduo, é de um sistema político e econômico que sempre fracassa e sempre fracassará.

O socialismo do século XXI não tem nada de novo, é apenas um leninismo amolecido pelo populismo latino-americano de um líder carismático. Uma mistura que não corre o menor risco de dar certo.

Devíamos escutar a História. O século XX já nos ensinou: o liberalismo laissez-faire (falecido em 1929) e o socialismo (falecido em 1989) são caminhos fracassados.

É hora de enterrar os cadáveres e seguir em frente.

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