OPINIÃO

Trump acertou ao atacar a Síria

Bombardeio não põe fim ao conflito no país, mas sinaliza para um mundo em que há punição para os ditadores que usam armas químicas contra seu povo.

11/04/2017 15:02 -03 | Atualizado 12/04/2017 20:32 -03
Carlos Barria / Reuters
Colunista avalia que Donald Trump tomou decisão acertada com bombardeio na Síria.

O uso de armas químicas remonta à Primeira Guerra Mundial, quando em 1915, os alemães utilizaram pela primeira vez o gás de cloro contra soldados franceses. Cinco mil pessoas morreram nesse ataque inaugural.

Essa inovação nefasta desencadeou uma corrida armamentista entre os países envolvidos, na busca pelo controle e desenvolvimento de novas formas de produzir mortes em escala fordista. Técnica que atingiria seu máximo nas fábricas de cadáveres da Alemanha nazista, nas quais o Zyklon B – na mente doentia dos seguidores de Hitler - servia como o agente acelerador do processo darwinista de seleção natural.

Foram também os alemães, em 1937, que desenvolveram o gás sarin. O que deveria ser um simples inseticida tornou-se uma controversa arma de guerra. Sem cor e sem cheiro, o sarin tem efeitos aterradores sobre o corpo humano. Provoca sudorese, vômito, o indivíduo começa a salivar, perde-se o controle da bexiga e do intestino. As convulsões e a paralisia se transformam em morte em 10 minutos.

Já em 1925, ainda nos tempos da Liga das Nações – a predecessora da ONU – um acordo em Genebra buscou proibir a utilização de armas químicas e biológicas. Outros acordos posteriores vieram regulamentar ainda mais a questão, sendo o mais famoso a Convenção sobre Armas Químicas, assinada em 1993.

A Síria é signatária deles, inclusive o de 1925.

Apesar dessa proibição, essas armas foram utilizadas em diversas ocasiões.

Um episódio recente famoso foi o uso de gás mostarda e sarin durante a Guerra do Golfo. Em 1985, Saddam Hussein as utilizou na sua luta contra o Irã. Em 1988, no chamado "massacre de Halabja", o alvo foi a população curda do próprio Iraque.

Sendo àquela época um aliado do governo americano, Saddam contou com a colaboração das gestões Ronald Regan (1981-1989) e George H. W. Bush (1989-1993), os quais autorizaram a venda de itens como produtos químicos venenosos, armas biológicas como anthrax e o agente da peste bubônica para o Iraque.

Essa imoralidade se justificava pela necessidade de garantir a vitória iraquiana contra o regime iraniano, uma ferida aberta antiamericana no Oriente Médio.

Saddam saiu impune.

Em 2013, o regime sírio lançou um ataque com gás sarin nos arredores de Damasco. Estima-se que 1.500 pessoas morreram, das quais 400 eram crianças.

À época, Obama afirmara que o regime sírio havia ultrapassado a "linha vermelha". O presidente americano ameaçou intervir no conflito, mas um acordo entre Obama e Bashar Al-Assad, triangulado por Moscou, evitou que a ameaça se concretizasse. A Síria se comprometia a se desfazer de seus estoques de armas químicas, não mais as utilizando no conflito.

Agora, em 2017, Bashar Al-Assad mostrou por "a + b" que o acordo desenhado por Obama foi uma farsa, um fracasso, uma vergonha.

A inação dos Estados Unidos diante desse vergonhoso crime de guerra – da mesma forma que o mundo havia silenciado no episódio de Saddam – era um convite para que o evento se repetisse.

Assad parecia não mais temer uma retaliação americana. O discurso isolacionista de Donald Trump parecia um bom indicativo que a nova administração tampouco se envolveria no conflito. Assad sentiu-se livre para acabar com a guerra civil utilizado os meios mais odiosos.

Um erro de cálculo grave, ainda que justificado pelo comportamento estratégico de alguém que burla as regras e não é punido.

Ignorando o Conselho de Segurança da ONU – onde a Rússia vetaria um ataque ao seu aliado – e ignorando o Congresso americano – onde o debate político poderia paralisar as ações –, Trump bombardeou uma base área do regime de Assad.

Um bombardeio que não põe fim ao conflito, não fere de morte Assad, não permite que a oposição sonhe com uma vitória, mas sinaliza para um mundo em que há punição para os ditadores que usarem armas químicas contra sua população.

Independentemente das causas profundas que levaram Trump a agir – baixa popularidade, enviar um recado para a China e para a Coreia do Norte, tirar os holofotes sobre a investigação de sua campanha com a inteligência russa –, é preciso admitir que ele acertou ao atacar a Síria.

Até os governantes odiosos estão sujeitos ao acerto.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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