OPINIÃO

Presidente Lula, presidente Bolsonaro e o caos político que ronda o Brasil

É a Nova República caindo de podre, dirão. Mas os regimes políticos não caem sob a pressão de seu próprio peso.

01/05/2017 16:02 -03 | Atualizado 01/05/2017 16:02 -03
Reuters/Fotos Públicas
Pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (30) mostrou o ex-presidente Lula no primeiro lugar faz intenções de voto para as eleições de 2018, seguido pelo deputado federal Jair Bolsonaro.

O Brasil é um país instável. Em nossa breve história republicana, de quase 128 anos, nós tivemos 6 diferentes Constituições – 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988 –, o que dá uma vida média de 21,3 anos para cada Carta.

A chamada "Constituição Cidadã" caminha para a casa dos 30 anos. Com 91 emendas a lhe castigar as carnes, não são poucos os que creem na sua obsolescência. A profissão da moda é a de profeta da morte da Nova República.

E há razões. Dos quatro presidentes eleitos desde 1989 – Collor, FHC, Lula e Dilma –, dois sofreram processo de impeachment, o que dá uma taxa de "mortalidade" de assustadores 50%.

Pior, todos os nossos ex-presidentes vivos foram recentemente citados como articuladores ou beneficiários de esquemas de corrupção para alimentar campanhas eleitorais e luxos pessoais. Incluindo-se aí Michel, nosso futuro ex.

O Congresso também está sob suspeição. Os atuais presidentes das duas casas estão envolvidos em delações. Lembrando que a Câmara até pouco tempo era comandada pelo atual presidiário Eduardo Cunha, e o Senado pelo futuro [alguma coisa] Renan Calheiros.

O roubo é claramente a principal regra do jogo político no país. Desde os tempos de Cabral.

O topo da pirâmide do Judiciário também já não parece gozar de grande prestígio. A turma formada pelo reprovado no concurso de juiz, o defensor de bilionários em perigo e pelo fazedor de acordões para salvar ex-presidentas, está revogando as prisões da Lava-Jato. Irritando o Zé Povão, agraciando os "big shot" da maracutaia nacional.

É a Nova República caindo de podre, dirão. Mas os regimes políticos não caem sob a pressão de seu próprio peso.

Não seja por isso. Nós, o povo brasileiro, estamos dançando um dramático tango na beira do abismo. Brincando de roleta russa com seis balas no tambor.

Pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (30) mostrou o ex-presidente Lula no primeiro lugar faz intenções de voto para as eleições de 2018, seguido pelo deputado federal Jair Bolsonaro.

É certo que pesquisas desse tipo, com tamanha antecedência, não raro nada significam. Entretanto, se acordássemos em 2019 com qualquer uma dessas duas figuras na cadeira presidencial, estaríamos no meio do caos.

Pensemos no caso de Lula.

Parafraseando o que Lacerda dissera sobre Vargas em 1950, grande parte do país acredita que Lula não pode ser candidato; sendo, não pode ser eleito; se eleito; não pode tomar posse.

Grande parte da classe média brasileira prefere viver sob a ditadura do Maníaco do Parque a ter Lula outra vez como presidente.

Imagine como se comportaria aquela multidão vestida com a camisa da seleção brasileira, no caso de um retorno de Lula. Talvez as micaretas da FIESP sejam acompanhadas por uma tropa de assalto, uns green and yellow blocks.

Imagine também como se comportariam os petistas caso tenham novamente o poder em suas mãos. Seria um roteiro de vendeta digna de Charles Bronson.

Viveríamos uma repetição em escala ampliada do processo de mobilização popular que levou o governo Dilma ao fim. Mas agora com o lado vermelho muito melhor organizado e disposto a lutar.

Pensemos agora no caso de Bolsonaro, esse nosso bebê de Rosemary da política nacional, fruto de um medonho cruzamento entre Benito, Médici, Pinochet e Plínio Salgado.

Seria tudo igual, mas com sinal invertido.

O desprezo por sua figura seria capaz de unir setores até mesmo antagônicos de nossa sociedade.

Haveria tensão que só se resolveria com ruptura.

Agora, há alguém capaz de pacificar os ânimos?

Nenhum dos principais candidatos se propôs a isso até agora. Ciro e Dória – que, tal como Bolsonaro, se apresentam como outsiders – investem na polarização. Suas palavras são sempre de extrema agressividade, transformando adversários em inimigos de morte.

Tem Marina, mas Marina não vale. Pois Marina nada ouve, nada vê e nada fala. Marina é o mistério de Fátima, creio.

Enfim, a Nova República pode não estar morta. Mas nós estamos a enterrando mesmo assim.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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