OPINIÃO

PIB 2014: a culpa é de Dilma e de Mantega

30/03/2015 16:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Blog do Planalto/Flickr
Presidenta Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante reunião com membros do Fórum Nacional da Indústria. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Saíram na semana passada os números do PIB 2014.

O resultado foi um "crescimento" medíocre de 0,1%. Medíocre, aliás, tem sido o desempenho de nossa economia desde 1994 (pelo lado positivo, entre 1981 e 1993 ele foi "catastrófico")

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O gráfico acima e a tabela abaixo dão uma ideia da nossa história recente. O primeiro governo Dilma foi tão ruim em termos de desempenho médio do PIB quanto o péssimo segundo governo FHC. E isso graças a revisão dos dados do PIB, que elevou a média dela para 2,13. Valendo os dados antigos, o resultado teria sido de terríveis 1,58%.

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FHC 2 foi ruim principalmente por conta do populismo fiscal e cambial praticado por FHC 1. Durante a campanha escondeu-se a crise. Em janeiro de 1999 o Plano Real - em sua concepção original - é encontrado morto em decúbito dorsal.

O primeiro governo Dilma foi horrível por conta de Dilma.

Repetindo FHC, ela fingiu não haver crise durante a campanha. Não conseguiu, porém, sustentar a farsa até o ano seguinte. Em poucas semanas ela anunciava a saída de Mantega e o fim da "Nova Matriz Econômica". Dilma sonhou ser Geisel, mas acordou Figueiredo.

Voltemos um pouco no tempo para entender o presente.

Em 2008, quando estoura a crise americana, o nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) da indústria (média) atingiu o maior nível da série histórica (85,19%). A indústria brasileira estava operando então a pleno vapor.

Com a crise a produção industrial despenca do dia para noite, NUCI atinge 80,23%.

Lula resolveu então praticar uma política fiscal e industrial mais ativa, dando subsídios e benefícios fiscais para a indústria de maneira mais agressiva (redução do IPI, impostos sobre folha de pagamento, etc.)

A política monetária e creditícia também mudou. Lula obrigou os bancos públicos a ampliarem o crédito e reduziu o compulsório dos bancos comerciais, por exemplo.

Tratavam-se de medidas anticíclicas razoáveis - em minha modesta opinião - naquele momento.

Ocorre que esses estímulos deveriam ter sido eliminados no máximo em 2011 e a política econômica deveria ter voltado ao arroz-com-feijão do governo Lula pré-crise (2003-2008).

A época de crescimento "fácil" havia acabado. A oferta agregada atingiu sua porção inelástica, de forma que a expansão da demanda só provocaria - como provocou - aumento dos preços e o crescimento bisonho do PIB.

Era preciso ampliar a oferta, dar segurança e estabilidade para as decisões de investimento privado. Dar racionalidade aos investimentos públicos.

Mas Dilma preferiu o voluntarismo da "Nova Matriz". Julgando-se dona do destino do país, resolveu fazer o que lhe dava na veneta.

O Banco Central, por exemplo, que durante os anos Lula foi uma ilha de independência e lucidez, tornou-se uma triste figura de seu passado. Apequenou-se. Da firmeza de Henrique Meireles, passamos para a passividade Alexandre Tombini.

Um exemplo desse apequenamento que se traduz em perda de credibilidade: a tabela abaixo mostra a inflação esperada para o ano corrente reportada no primeiro relatório Focus de cada ano, a meta oficial e a diferença entre a segunda e a primeira.

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O que observamos é que entre 2006 e 2011, enquanto os agentes econômicos acreditavam no BC, as expectativas giravam em torno de 4,5%. O desvio das expectativas em relação à meta atingiram um máximo de 0,5%.

A partir de 2012, com a credibilidade do BC arruinada, o desvio entre a meta e o esperado torna-se crescente. Se em 2011, primeiro ano de Dilma, o desvio foi de 0%, em 2015 ele é de 2,06%.

A política fiscal também foi um desastre completo. Chegou-se a um tal nível de deterioração institucional que o mercado já não confia nos dados apresentados pelo governo. A criatividade contábil tornou-se regra. Nos aproximamos a escuridão fiscal dos anos 1980. O PL 36 de 2014 desobrigou o governo de cumprir qualquer meta de superávit. A política fiscal, como diria Delúbio, virou "piada de salão".

Esse comportamento irresponsável do governo federal se reflete também nos Estados. Voltamos àquela época em que um governo aumenta os gastos sem ter receitas, deixando a bomba para o governo seguinte. Esse foi o caso do tucano Beto Richa (PR) e do petista Agnelo Queiroz (DF). Puro flash-back dos anos 1980.

O BNDES é outra caixa-preta regada a dinheiro do Tesouro Nacional. O Tesouro capta no mercado dinheiro a taxa Selic (hoje de 12.75% a.a.) e empresta para empresas gigantesca de propriedade de bilionários sortudos a TJLP (5.5% a.a.) a diferença quem paga somos nós. Somos todos sócios sem direito a participação nos lucros das campeãs-nacionais de Luciano Coutinho e Dilma. E o sistema do BNDES tornou-se tão obscuro, que Coutinho tem feito forte lobby para evitar uma CPI sobre o tema. Deve haver motivos para tal.

O Banco de Desenvolvimento que deveria financiar projetos que não interessam à iniciativa privada, está dando crédito a empresas que conseguiriam obtê-lo em qualquer banco nacional ou estrangeiro.

Os Fundos de Pensão começam a mostrar sua face real, como no caso do 'Postalis' dos Correios. Compra-se papel duvidoso e/ou tóxico e a conta fica para os trabalhadores (e, em último caso, para os contribuintes, pois o BC não pode deixar um fundo desses "falir"). Comprar papéis da Venezuela, Argentina, OGX, Banco Cruzeiro do Sul e BVA é muito "azar" ao mesmo tempo.

Já tivemos CPIs sobre Fundo de Pensão. Mas não deram em nada. A hipótese 1 é que não havia nada de errado, a hipótese 2... Bom, melhor deixar pra lá.

E a Petrobrás não preciso nem comentar.

A política de Dilma par ao setor elétrico também não requer comentários. Um vexame.

Exatamente quando a economia precisava de estabilidade para aumentar os investimentos e permitir um crescimento sustentado do PIB, Dilma e Mantega introduziram instabilidade.

A formação bruta de capital fixo como proporção do PIB, que apresentava uma tendência de alta entre 2003 a 2010, passa a cair de modo sistemático desde então.

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Não só estamos crescendo pouco agora, como cresceremos menos do que poderíamos e deveríamos no futuro próximo.

E a culpa é basicamente de Dilma e Mantega.

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