OPINIÃO

Os dilemas morais e econômicos de Pedro Barusco na Petrobras

22/07/2015 15:50 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/Estadão Conteúdo

O salário máximo que um funcionário público federal pode receber é atualmente de 33,7 mil reais.

Valor bastante razoável.

Sonho para mais 99% dos brasileiros que ganham menos do que isso. Não exagero. Em 2012, para se estar entre o 1% mais rico do país, era preciso ganhar algo como 19 mil reais por mês.

As pessoas sempre querem consumir mais. Nunca estamos satisfeitos como que temos.

Se tenho um fusca, sonho em ter uma Ferrari. Se tenho uma Ferrari, sonho em ter outra Ferrari e uma Lamborghini.

Os economistas do séc. XIX acreditavam que apenas um tipo de mercadoria não se encaixava nessa definição: a comida. Afinal, pensavam, os desejos do estômago têm limites. Por mais rico que eu seja, eu não posso comer uma tonelada de caviar em um mês.

Mas com a epidemia de obesidade que vemos hoje, percebemos que mesmo os alimentos estão sujeitos a essa regra.

A ambição de cada pessoa só é limitada, em termos estritamente econômicos, pelo seu amor ao ócio.

Um exemplo: imagine um emprego no qual você ganharia 30 mil reais por mês, para trabalhar das 5 da manhã até as 10 da noite, tendo apenas 2 dias de férias no ano.

Você aceitaria?

Talvez sim, talvez não. Tudo depende do quanto você ganha hoje e do quanto você valoriza o tempo livre.

Mas imagine que você é um funcionário público que ganha 30 mil reais por mês trabalhando na Petrobras, e alguém te oferece um suborno de 75 milhões de dólares.

Você aceitaria?

Essa foi a quantia que Pedro Barusco revelou ter recebido ao longo de seus anos naquela empresa. No câmbio de 3x1 isso dá 225 milhões de reais.

Seriam necessários 7.500 meses de trabalho - ganhando 30 mil - para chegar nesse valor, o que significaria 625 anos de trabalho, sem gastar um real. Bastava, portanto, ter começado a juntar dinheiro no cofrinho no ano 1390 para chegar a 2015 com esse montante.

O homem da teoria econômica não teria qualquer dúvida, botaria o dinheiro no bolso.

Há apenas uma outra força interna capaz de fazer a pessoa recusar essa oferta. É aquilo que chamamos "ética".

A ética não faz parte da teoria econômica. É assunto para filósofos.

Mas se há filósofos que falam de Economia...

Uma primeira fonte de código de conduta é a religião.

Está lá nos 10 mandamentos de Moisés: não furtarás.

Mas veja bem.

Roubar todo o dinheiro de um homem é furtar. Roubar uma manga do seu quintal também o é.

No primeiro caso eu destruo a vida dele e dos seus descendentes. No segundo caso, é como se nada tivesse acontecido à vítima.

Então todo "furto" é igualmente ruim?

Quem são os furtados pelos desvios na Petrobras?

Se você disser "o povo", posso argumentar: se Barusco recebeu 250 milhões de reais, isso é como se cada brasileiro desse pouco mais de 1 real para ele.

Um real é o preço de uma manga.

Ninguém tem a vida destruída pelo fato de ter perdido um real, não é mesmo?

Outra força que nos insta à moralidade é a opinião da comunidade.

A honra de um homem deveria ser seu bem mais precioso. Mas como já dizia Marx, quando o dinheiro aparece, tudo passa a ter um preço, inclusive a honra.

O que é melhor: ser honrado e ver os filhos passando dificuldades, ou ser um conhecido ladrão cujos filhos estudaram em Harvard?

Uma terceira força seria a da lei.

Ser preso deve ser desagradável.

Mas imagine: você viveu como um rei entre os 30 e os 70 anos. Foi capaz de aproveitar o que de melhor há no mundo. Comeu as melhores comidas, viveu nas melhores casas, deitou-se com as mais belas mulheres (ou homens), conheceu os melhores lugares do mundo. Proveu a mais refinada cultura aos seus filhos.

E o preço disso tudo seria o de passar 10 anos na cadeia.

Você aceitaria?

Jorge Luis Borges em um conto intitulado Deutsches réquiem , no qual ele escreve uma espécie de confissão/memórias de um nazista chamado - Otto Dietrich zur Linde - prestes a ser condenado. Otto fala em determinada altura do texto do seu amor por Schopenhauer, Brahms e Shakespeare e então diz:

"Sepa quien se detiene maravillado, trémulo de ternura y de gratitud, ante cualquier lugar de la obra de esos felices, que yo también me detuve ahí, yo el abominable"

O que Borges faz é, simplesmente, nos lembrar que mesmo um nazista era também um homem.

PS - Para evitar qualquer mal-entendido: não estou aqui defendendo nem minimizando as culpas dos envolvidos em casos de corrupção. Estou apenas filosofando (ou divagando).

VEJA TAMBÉM:

Entenda a Operação Lava Jato