OPINIÃO

O último tango em Brasília

A simbiose espúria entre um empresariado que precisa das graças do governo e de políticos que precisam do dinheiro dos empresários tornou o roubo a regra do nosso sistema político.

18/05/2017 16:24 -03 | Atualizado 18/05/2017 16:48 -03
Paulo Whitaker / Reuters
Articulista classifica elite política brasileira de "organismo podre".

A elite política e econômica do Brasil é hoje um organismo podre. O mau cheiro empesteia o ambiente, o chorume escorre por entre as banhas desse ente disforme. Cada nova remexida em seu corpo revela novas úlceras, novas máculas. Não há mais salvação. A melhor solução seria a eutanásia.

Tentar determinar o instante de início desse processo de decomposição é um exercício vazio.

Mas parece inquestionável que um marco importante dessa reta final de decomposição da Nova República foi a denúncia de Roberto Jefferson à Folha de São Paulo em junho de 2005.

Algo que começou com uma filmagem de um peixe-pequeno dos Correios embolsando um punhado de reais, tornou-se um gigantesco escândalo político, que por muito pouco não custou o mandato de Lula.

Àquela época, um Lula visivelmente acuado fez um pronunciamento no qual afirmava: "eu me sinto traído, traído por práticas inaceitáveis, das quais nunca tive conhecimento".

Parecia o fim.

Mas Lula sobreviveu. A economia, especialmente a partir de 2004, ia e continuou indo bem. Não existiam todas as condições necessárias para o afastamento.

Lula tornou-se um fenômeno; saiu do governo entregando um crescimento do PIB de 7,53% e com mais de 80% de aprovação popular.

Nunca mais ele repetira o discurso e a personagem daquele melancólico pronunciamento de 2005.

Mas ainda que Lula tenha escapado da guilhotina política e judicial, o processo do mensalão continuou. Ceifou-se a vida política de estrelas de primeira grandeza do petismo: Palocci, Dirceu, Genoino, João Paulo Cunha.

Foi então que Lula soprou a vida política nas ventas de sua boneca de barro: Dilma Rousseff.

Ainda que faltasse qualquer traço de carisma e competência em Dilma, a inércia fez que seu primeiro mandato tivesse um desempenho econômico razoavelmente satisfatório entre 2011 e 2013, quando o PIB cresceu em média 3% a.a.

Tudo se modificou em 2014. A economia começou a entrar em colapso, registrando um crescimento de 0,5%. E em março daquele ano, teve início a Operação Lava Jato.

O que começou com a prisão de um doleiro reincidente desenvolveu-se num escândalo que tragou toda a elite política do país; numa espiral descendente que tragou Dilma e, muito provavelmente, irá tragar Michel Temer.

Pela Lava Jato fomos informados que o cargo de ministro da Fazenda foi rebaixado ao de um cobrador de propinas. Pelo menos é isso que sugerem as denúncias contra Palocci e Guido Mantega.

Pela Lava Jato fomos informados que PT, PSDB, PMDB, PSB, DEM, PP, PR, PSD, PDT, PTB, PCdoB, SD e PSC – entre outros – são todos acusados de recebimentos de propina de empresas com contratos públicos.

Pela Lava Jato fomos informados que pesam denúncias contra todos os nossos ex-presidentes vivos: Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma. E contra Temer, nosso vir a ser ex.

Os últimos três candidatos do PSDB carregam o peso de acusações similares: Serra, Alckmin e Aécio. Sendo que este último terá como destino provável a cadeia.

Gravado pedindo R$ 2 milhões para o Joesley da JBS, os quais foram recebidos e aplicados em empresa do senador Zezé Perrela. Perrela é famoso por ter tido um funcionário que utilizava – secretamente, é óbvio – seu helicóptero para transportar enormes quantidades de cocaína.

Outros que foram desmascarados foram Anthony Garotinho – ex-governador do Rio de Janeiro e 3º colocado nas eleições de 2002 –, Sérgio Cabral – ex-governador do Rio e tido no passado como potencial candidato à Presidência –, Eduardo Campos – ex-governador de Pernambuco.

No Congresso Nacional, tem-se atualmente 24 senadores e 39 deputados sendo investigados pela Lava-Jato, inclusive os atuais presidentes das duas casas, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira. Como também o eterno presidente do Senado, Renan Calheiros. E com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, atualmente preso.

A Lava Jato levou também para a cadeia os bilionários Marcelo Odebrecht (do setor de construção civil), André Esteves (do setor financeiro) e Eike Batista (do setor de mineração).

A simbiose espúria entre um empresariado que precisa das graças do governo e de políticos que precisam do dinheiro dos empresários tornou o roubo a regra do nosso sistema político.

Naturalizou-se de tal forma essa relação, que a classe política se sente indignada com sua criminalização.

- Como assim é crime usar caixa-dois em campanha?

- Como assim é ilegal pedir uma porcentagem das obras públicas?

- Como assim é ilegal pedir dinheiro em troca de aprovação de leis e medidas provisórias?

Não há mais salvação.

É muito provável que Temer seja afastado.

Há, primeiro, a possibilidade de cassação da chapa Dilma-Temer pela Justiça. Essa pode parecer uma medida rápida e indolor, mas não o seria. Temer sangraria, e o Brasil ficaria paralisado enquanto coubessem recursos contra essa decisão judicial.

Caso isso não ocorra, é possível que as pressões das ruas se tornem insustentáveis, notadamente com a possibilidade de aliados oportunistas abandonarem o barco, pensando nas eleições que se aproximam. Nesse caso, também, o País se veria paralisado e conflagrado por um longo intervalo de tempo. A crise persistiria.

Ou, ainda, Temer poderia ter a dignidade de renunciar. Mas esse é o cenário mais improvável.

Afastando-se Temer de maneira definitiva, a resposta regimental seria que o cargo fosse ocupado interinamente pelo presidente da Câmara (o sr. Rodrigo Maia), até que se realizem eleições indiretas. Seriam nossos nobres deputados e senadores os que escolheriam o próximo presidente.

Isso seria uma solução para nossa interminável crise? Certamente não.

Os sistemas políticos não caem com o próprio peso, mas a Nova República parece estar desmoronando. Não se vê saída dentro das atuais regras do jogo.

Talvez não haja mais saída.

Talvez "a única coisa a fazer é tocar um tango argentino".

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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