OPINIÃO

O PMDB não carrega defunto

01/04/2016 16:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Valter Campanato/Agência Brasil

O PMDB desembarcou oficialmente da nau furada chamada governo Dilma. É como se diz, macaco velho não carrega defunto.

Desde que Michel Temer divulgou sua carta-lamento, sendo ele o vice-presidente do País e presidente do partido, já era óbvio que esse dia chegaria. Quando Temer sequer compareceu à posse-não-posse do ministro-não-ministro Lula, sabia-se que faltava muito pouco tempo.

A reunião que decidiu a saída do partido da base do governo durou menos de três minutos. Uma missa réquiem composta pelos Ramones.

E quem liderou a reunião? O senador Romero Jucá (PMDB-RR) que é um dos melhores espécimes da fauna pemedebista, foi líder do governo no Senado nas gestões FHC (quando era então filiado ao PSDB), Lula (já no PMDB) e Dilma. Agora, Jucá é porta-voz da oposição no partido.

Uma camarada flexível, como demanda o artigo oculto do estatuto do PMDB.

Sentado à sua - de Jucá - direita, naquele quadro de uma maldita ceia política, estava o colosso da moralidade, o monumento da probidade, o presidente da Câmara dos Deputados, o sr. Eduardo Cunha, outra estrela da ala oposicionista do partido.

Se a ala oposicionista do PMDB é ruim, a situacionista é igualmente tétrica.

O governismo do partido é representado pela detestável figura de Renan Calheiros, chefe todo-poderoso do Senado brasileiro, coronel das Alagoas e figura sobre a qual pesam infinitas acusações (e que ainda assim mantém o olhar altivo, a pose de estadista-pacificador e dá entrevista como último bastião da República, quase um Barão da Praia de Pajuçara).

Renan foi da tropa de assalto (no sentido militar do termo, entenda-se) do governo Collor, ministro da Justiça (!!!) no governo FHC e, agora, bastião do governismo no PMDB.

Isso sem falar na neocomunista latifundiária oportunista, a ministra Kátia Abreu. Só Deus (ou o Diabo) é capaz de explicar sua conversão de ruralista do DEM para soldada do petismo.

O PMDB passa longe de ser um partido político no sentido real do termo. Não tem um programa, não tem unidade, não tem líderes, não tem nada.

Quer dizer, tem número. Inúmeros carreiristas, oportunistas (no sentido de aproveitar as oportunidades, entenda-se) e fisiologistas.

Mas nem sempre foi assim.

O PMDB foi ponta-de-lança pela democracia durante a ditadura militar. Foi o partido de Tancredo Neves, primeiro presidente civil desde Jango. Foi o partido que venceu as eleições de 1986 de lavada, fazendo todos (menos um) governadores de estado, maioria no Congresso e na Constituinte.

Ocorre que esse resultado ocorreu durante a euforia do Cruzado, que só se sustentou até uma semana após as eleições (alguém falou em 'estelionato eleitoral'?).

E isso custou a vida do PMDB (será que o estelionato de 2014 vai custar a vida do PT?)...

O horroroso governo Sarney destroçou o PMDB.

O candidato do partido nas eleições de 1989, Ulysses Guimarães, o sr. Constituinte, teve um desempenho ridículo, obtendo menos de 3% dos votos válidos (se não me falha a memória).

Depois de Ulysses veio Orestes Quércia - então estrela ascendente do partido - que na eleição de 1994 ficou atrás do mitológico Dr. Enéas.

Ou seja, um partido que não existe, que abriu mão de ter candidatos a presidente em nome do poder de barganha que tem por conta do seu tamanho, da massa amorfa de generais e soldados rasos que agrega.

A repetição do jogo eleitoral no País definiu que há dois grandes partidos - digamos - 'ideológicos' no país: PT e PSDB.

São eles que realmente disputam o poder desde 1994.

E o PMDB, como o cachorro magro do poder, vai atrás de quem deixar mais ossos pelo caminho.

Hay gobierno? Soy a favor!, é o mote do partido.

Creio que se Lênin se levantasse de sua tumba e dirigisse uma revolução bolchevique neste país tropical, seria do PMDB o primeiro líder do soviete brazuca.

O partido nunca esteve inteiramente com Dilma, nem a abandonou inteiramente. Há sempre aquelas figuras dispostas a tocar violino durante o naufrágio.

Mas a saída do PMDB da base significa duas coisas.

Primeiro, que já há um forte consenso em torno de um governo de transição liderado por Michel Temer. Não fosse essa uma possibilidade vista como real, não sei se o partido largaria sua boquinha no governo Dilma.

É o comportamento do homem malandro rodriguiano, que só larga a matriz quando a filial está consolidada.

Segundo, que caso o governo Dilma sobreviva ao impeachment, será um peso-morto, um não-governo, tal como foi o governo Sarney pós-Cruzado.

Se Dilma hoje é incapaz de aprovar a volta da CPMF, sem o PMDB não será capaz de aprovar sequer uma moção de apoio à Madre Teresa de Calcutá.

Terá que se apoiar e entregar postos-chave a partidos piores do que o PMDB, como o PR, PP...

Ou seja, a saída do PMDB do governo é mais um capítulo nessa novela que já sabemos o final. Falta pouco para ela acabar.

Mas isso não significa que a novela vindoura será entediante.

Podemos discutir se o PT é bom ou não de governo, mas todo mundo sabe que nenhum partido é tão bom quanto ele em ser oposição.

Humberto Costa e Guilherme Boulos já cantaram a pedra sobre a posição do partido em um governo Temer (ou qualquer governo não petista).

Quem acha que virá a bonança após o afastamento de Dilma está enganado. Pode ser só o começo da tempestade.

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