OPINIÃO

O passado nunca foi tão atual quanto hoje

Esquerda e direita brasileiras estão comprometidas com um pensamento retrógrado.

11/10/2017 15:37 -03 | Atualizado 11/10/2017 18:01 -03
Adriano Machado / Reuters
Acreditava que aquela velha direita autoritária, militarista, conservadora, golpista, anti-povo, que prevaleceu em outros momentos de nossa história, era algo do museu dos pensamentos.

Parece cada vez mais claro que a ideia de que a humanidade esteja condenada ao progresso é só mais um vício mecanicista do século XIX, uma fé das religiões seculares.

Adam Smith (1776) tinha uma visão otimista em relação ao futuro do bem-estar material da humanidade. David Ricardo (1817) acreditava que o comércio internacional forjaria o desenvolvimento econômico e a paz entre as nações. Fukuyama (1989) acreditava que o mundo caminhava inexoravelmente para o domínio das liberdades políticas e econômicas.

Eu compartilho desse otimismo do liberalismo. Acredito que é possível, em um futuro não muito distante – em termos históricos –, que a fome e a miséria sejam vagas lembranças, que as guerras se tornem de tal forma moralmente condenáveis que desapareçam, que a liberdade seja um valor universal inquestionável.

Os marxistas são pessimistas em relação ao futuro do capitalismo, mas creem que sua morte, por mais dolorosa e trágica que possam ser as circunstâncias, significará a construção de um novo mundo. Um mundo em que a fome, a miséria, a pobreza e as desigualdades pornográficas sejam passado. Um mundo sem fronteiras, sem a opressão das classes, dos Estados, no qual as guerras perderão totalmente sua razão de ser.

Essa minha fé me levava a crer que o debate político caminhava para o futuro. Acreditava que estava por surgir uma direita liberal adepta inconteste das liberdades, do progressismo no que diz respeito aos comportamentos, que defenderia a meritocracia baseada na igualdade de oportunidades.

Acreditava que aquela velha direita autoritária, militarista, conservadora, golpista, anti-povo, que prevaleceu em outros momentos de nossa história, era algo do museu dos pensamentos. O espantalho do "comunismo", que justificou os golpes de 1937 e 1964, seria algo do passado, risível nos dias de hoje. Que a censura fosse lembrada apenas uma mácula de nosso passado, quando éramos ainda algo ignorantes.

Acreditava que o fanatismo religioso cederia diante dos avanços das ciências, que a Igreja que apoiara o golpe de 1964 tornara-se um baluarte de várias bandeiras progressistas. Que as "marchas da família" seriam curiosidades históricas.

O Movimento Brasil Livre (MBL) nasceu no bojo do espalhamento e fortalecimento do pensamento liberal entre nossa juventude. Nasceu fazendo uso das novas ferramentas de comunicação, driblando os mecanismos tradicionais, as organizações partidárias leninistas dos partidos políticos (de direita e esquerda). Eram jovens, fãs de Power Rangers, de modo que lhe perdoava algumas idiotices aqui e acolá (como qualquer ser vivo comete idiotices de maneira recorrente).

Mas que nada!

O MBL – e os "jovens" liberais brasileiros, por analogia – abraçou o lixo mais putrefato do conservadorismo bolsonárico e olaviano que existe na praça.

Vejo hoje "liberais" que nunca foram pudicos defendendo a censura e a difamação em nome de uma certa "liberdade de mercado". É a acrobacia intelectual que permite retirar a liberdade em nome da liberdade, num "duplipensar" que faz 2017 soar como 1984.

Quem vê, em um quadro que retrata o fato ordinário na história humana de relações sexuais entre homens e animais, uma apologia à zoofilia só pode ser um jumento temeroso de ser violado.

Quem vê apologia à pedofilia em quadros que retratam crianças está simplesmente manifestando o que existe nos recônditos de seu inconsciente, tal qual num teste de Rorschach, em que um borrão se transforma na besta-fera.

Aliás, o quadro da "criança viada" – projeto no qual pessoas da comunidade LGBT enviavam suas fotos de criança para um site, como uma forma de exorcizar as humilhações sofridas desde pequenas por serem "viadas" – é de uma doçura ímpar.

Liberal que barra uma exposição baseando-se no artigo 208 do Código Penal de 1940 não é liberal. Tampouco pode criticar a CLT ou qualquer outra legislação por conta de sua idade ou por ter sido criada em períodos ditatoriais.

Além disso, o artigo fala em "vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso". Um quadro de Jesus não é, necessariamente, um objeto de culto religioso. Algum católico se ajoelharia diante daquela imagem e pediria proteção a Deus por intermédio daquele objeto? Algum católico pegaria uma hóstia escrita "vagina" e a engoliria por se tratar do corpo de Cristo?

Uma pintura de um cachorro não é um cachorro. "Ceci c'est ne pas une pipe".

Saem agora notícias do general da ativa do Exército, o general Mourão, que defende publicamente a possibilidade de um golpe militar. Nem um pio do MBL, nem uma ação desse governo ridículo contra isso. Sinto-me como se tivesse cochilado e acordado em 1963.

(E um golpe militar no Brasil não é impossível, dado que nada o é. Pensem no que aconteceu com a Turquia, que de país progressista, com uma democracia secular estabelecida e com um pé na União Europeia, tornou-se uma ditadura desavergonhada. O Brasil não é melhor que a Turquia).

O atraso, porém, não é monopólio da direita.

A nossa esquerda também insiste em abraçar o passado. Insiste em louvar Maduro, não superou ainda o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética de 1956, não superou ainda o "Que fazer?" de Lenin.

Continua a subestimar a importância das "liberdades burguesas".

Um partido como o PT – que nasceu como símbolo da esquerda pós-soviética no Brasil – manifestar apoio ao governo podre de Maduro é de revirar o estômago.

Um partido e uma militância que insistem na tese da "conspiração de direita" para encobrir seus crimes, se comportam como os stalinistas de 1970. É a negação, da negação, da negação.

Mas chega. O diagnóstico é esse: o passado nunca foi tão atual como hoje no Brasil.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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