OPINIÃO

O 'Golpe' de 2016 e a Grande Recessão Brasileira

Graças a Dilma Rousseff, o Brasil está atravessando uma nova década perdida. Se houve golpe, é preciso dizer, Dilma também fez parte dele.

13/03/2017 14:41 BRT | Atualizado 13/03/2017 20:34 BRT
EVARISTO SA via Getty Images
Colunista responsabiliza Dilma pela maior crise econômica da História brasileira.

Quando tratar do impeachment de Dilma Rousseff, a historiografia inevitavelmente discutirá as teses sobre a ocorrência ou não de um "golpe parlamentar conservador".

Golpe é tradição brasileira, tal qual a feijoada, folia de reis e fraude em licitação. Ao ler a confissão de Romero Jucá, ao saber que Dilma – até aqui – não apareceu diretamente envolvida nos desvios de recursos, ao descrever a trairagem peemedebista e as referências algo nebulosas ao atual presidente, nosso historiador do futuro terá subsídios para defender tal tese.

Foi golpe? Não sei.

Só tenho plena convicção é que Dilma não teria sido afastada por conta de "pedaladas fiscais", caso o cenário econômico fosse outro.

Se golpe foi, algum historiador do futuro poderá defender a tese de um "golpe preventivo", não tão nobre quanto o do Marechal Lott. No caso de 2016, parece tentou-se impedir a implosão do caquético sistema político brasileiro e dos fundamentos econômicos do País.

Aqui trataremos dessa segunda dimensão.

Do ponto de vista econômico, basta olhar o comportamento do PIB entre 2011 e 2016 para se perceber que Dilma foi responsável por crimes de lesa-pátria.

O que vivemos durante o mandato da "presidenta", incluindo-se aí 2016, é uma tragédia quase sem precedentes em nossa economia. Estamos vivendo a Grande Recessão Brasileira. Com letras maiúsculas e tudo.

Desde os anos 1980, o desempenho econômico brasileiro tem sido medíocre, inclusive após a estabilização da economia em 1994. Na era FHC, a taxa média do crescimento do PIB foi de 2,43% a.a. Nos anos Lula esse número saltou para 4% -- se excluirmos o ano de 2003, a média sobe para 4,5% a.a. Esse foi um breve interregno em nossa marcha da mediocridade.

Entre 2011 e 2016 essa taxa despencou para 0,33% a.a.

De 1948 – quando começa a série oficial do PIB – até 1980, o Brasil não havia registrado sequer um ano de variação negativa do PIB. Mesmo durante a chamada "crise dos anos 1960", o pior desempenho foi o crescimento de 0,6% em 1963.

Será em 1981 que o Brasil registrará a primeira variação negativa do PIB, com uma queda de – 4.3%. No ano seguinte houve uma relativa estagnação, com o PIB crescendo apenas 0,8%. Em 1983, uma nova queda: - 2,9%.

Esse período foi um dos mais cruéis em nossa História econômica, o primeiro ato da "década perdida". Esse processo ocorreu em mundo em ebulição, num contexto internacional marcado pelo segundo choque do petróleo, o aumento explosivo dos juros americanos, da moratória mexicana.

Em 1990 tivemos a maior queda do PIB de nossa História: -4,3%.

Com a inflação chegando aos 80% ao mês em março de 1990, o presidente recém-eleito decretou o confisco de mais de 70% de toda a liquidez do País (isto é, o dinheiro em conta corrente, poupança, aplicações financeiras, etc.).

Essa catástrofe ocorreu, portanto, em um cenário em que a ausência de moeda fez paralisar o consumo e produção, e no qual havia uma enorme incerteza jurídica, derivada do ato autoritário do governo central.

Mas nem Figueiredo nem Collor conseguiram emplacar dois anos consecutivos de queda do PIB, essa honra é exclusiva de Dilma. Em 2015 a retração foi de -3,77%, e de -3,6% em 2016.

O que mais impressionará o observador do futuro é o fato de tal tragédia ter ocorrido em um cenário de relativa tranquilidade na economia global. Dilma conseguiu entregar esses resultados em um cenário interno e externo que em nada se assemelham com aqueles de 1981 ou de 1990.

Dilma foi uma arquiteta meticulosa do fracasso. Da política fiscal, passando pela monetária, pela bancária, pela de fixação de preços públicos, Dilma conseguiu errar em tudo.

A culpa é dela, com a assessoria imprescindível de figuras como Mantega, Tombini e Coutinho.

O outro pilar da tragédia dilmista se ergueu a partir do comportamento cleptomaníaco de nossa elite política. O vício do roubo parece ser um dos elementos que unem esquerda e direita no Brasil. É a única agenda comum que temos, o assalto aos cofres públicos.

A Operação Lava Jato, ao expor as entranhas do funcionamento da Petrobras, das empreiteiras e do financiamento político do Brasil, fez que setores cruciais de nossa economia entrassem em colapso.

Só o setor de petróleo, por exemplo, é diretamente responsável por algo como 13% do PIB brasileiro. Importante lembrar que o colapso da Petrobras não se deve apenas às investigações judiciais, mas também à política de represamento dos preços da gasolina realizada por Dilma e Mantega.

O PIB per capita apresenta uma queda ainda mais acentuada que a do PIB. O brasileiro do início de 2017 está mais pobre que o brasileiro do final de 2010.

Ou seja, graças a Dilma, o Brasil está atravessando uma nova década perdida, em um cenário global e local que em nada se parecem com aquele dos anos 1980.

Tal grandeza de fracasso não é para amadores, não ocorre por acaso. Requer planejamento e execução cuidadosa. Dilma é uma arquiteta do fracasso.

Se houve golpe, é preciso dizer, Dilma também fez parte dele.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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