OPINIÃO

O fim da História chega à América Latina (mas já está de partida)

Da Venezuela à Argentina, os países da América Latina enfrentam crises e turbulências sociais e políticas.

15/09/2017 18:36 -03 | Atualizado 15/09/2017 18:36 -03
AFP/Getty Images
Não há criatura com mais de uma sinapse que possa usar a Venezuela de Maduro como modelo para uma qualquer sociedade.

O liberalismo, como corrente política e econômica, começa a maturar no final do século XVIII. Entre 1776 e 1789, publica-se A Riqueza das Nações de Adam Smith, o texto fundamental do liberalismo econômico. Dá-se início ao processo de independência e constitucionalização dos Estados Unidos e de revolução na França.

Ao final das Guerras Napoleônicas, em 1815, a Inglaterra emerge como a grande potência econômica e militar do mundo. O liberalismo político se espalha, por exemplo, pela América Latina, com o desencadeamento dos processos de independências. Mesmo o Brasil, que seguiu como Império, viu sua primeira Constituição ser outorgada em 1824.

O período que vai de 1815 até 1914 é o "século" inglês. Da metade do século XVIII até às vésperas da Primeira Guerra Mundial (1910-1914), o mundo viveu uma grande época de liberdade de circulação de bens, capitais e trabalhadores. Era o auge da ordem liberal.

Um liberalismo elitista (com baixíssima participação eleitoral) é desenhado sobre a visão de David Ricardo sobre as vantagens comparativas.

Ainda durante a Primeira Guerra Mundial surgiria o primeiro grande desafio ao liberalismo: o socialismo, implementado na Rússia em 1917.

Nos anos 1920 surge o segundo, o fascismo.

A crise da ordem liberal se acentua sobremaneira a partir da crise de 1929. O liberalismo parecia morto. Ainda mais agora com o fascismo na sua pior manifestação tendo chegado ao poder na Alemanha em 1933.

Durante a Segunda Guerra Mundial, liberais e comunistas se aliaram em torno de um inimigo comum, e o fascismo foi varrido dos países centrais, sobrevivendo apenas nas franjas do sistema.

Começaria, então, o combate mais duradouro: capitalismo versus socialismo.

Essa disputa acabou de modo categórico. Sem a necessidade de disparar um único tiro, o Império Soviético esfacelou-se completamente. Caiu de podre.

Em 1989, a euforia liberal tomou conta de várias mentes pelo mundo. Francis Fukuyama, por exemplo, vaticinou em seu O Fim da História que não havia mais alternativas ao liberalismo. Os vestígios socialistas e fascistas que existiam pelo mundo não serviam mais de exemplo para nenhuma sociedade, era questão de tempos que eles se desenvolvessem em sistemas liberais.

No Brasil, por exemplo, a democracia volta em 1985. E, em 1989, Fernando Collor foi eleito com esse discurso: privatizar, abrir a economia, dar um "choque de capitalismo no Brasil" (essa expressão, em verdade, foi obra do então candidato do PSDB, Mário Covas).

Fernando Henrique, já em 1994, foi eleito prometendo acabar com a Era Vargas.

Nos países vizinhos, o movimento foi semelhante.

Tudo parecia caminhar no melhor dos mundos, até 1999, quando surge Hugo Chávez na Venezuela. Carismático e dono de uma retórica afiada, Chávez foi a esperança para aqueles órfãos do socialismo real, que ainda criam que "um outro mundo" era possível.

Chávez anunciava o socialismo do século XXI, livre dos vícios leninistas. Em vez de ditadura, referendos, eleições, consultas populares.

Enquanto isso, nos demais países, o liberalismo já não tinha o mesmo encanto.

No Brasil, após o péssimo segundo mandato de FHC, Lula é finalmente eleito presidente em 2002. O PT, o partido da esquerda pós-ditadura, chegava ao poder.

Na Argentina, após a hecatombe do ano 2000, e de um mandado tampão de Duhalde, Nestor Kirchner toma posse em 2003. Um dos tantos representantes do peronismo de esquerda naquele país.

Em 2006, a Bolívia elege Evo Morales. Em um país governado sempre por homens brancos, era chegada a hora de um líder descendente de indígenas, um líder dos chamados "cocaleros".

Há ainda os casos de Rafael Correa no Equador, Bachelet no Chile, entre outros.

Não por acaso, o pavor em relação ao "Foro de São Paulo" e do plano da esquerda socialista de dominar o continente levou muito idiota ao estrelato.

Mas a maré parece agora se reverter. A América Latina parece entrar novamente no "fim da história".

A Venezuela caminha para uma guerra civil, para tornar-se um estado falido. O socialismo, mesmo adoçado pelo sol do Caribe, desandou mais uma vez para a brutal ineficiência econômica e repressão política.

Como em todo o fanatismo, há aqueles que culpam fatores exógenos: o socialismo é bom, o problema são os ianques, a CIA, a órbita de Vênus...

Não há criatura com mais de uma sinapse que possa usar a Venezuela de Maduro como modelo para uma qualquer sociedade.

Na Colômbia, os guerrilheiros das FARCs entregam seus fuzis e vestem paletós, aceitando disputar o poder dentro das regras democráticas.

Na Argentina, Macri avança com reformas liberalizantes, da mesma forma que Temer as tenta no Brasil.

Pois bem.

O problema é que privatizações, "flexibilização" de direitos trabalhistas, e outras tantas bandeiras liberais são sistematicamente incapazes de ganhar as eleições por estas bandas.

Macri venceu por muito pouco na Argentina, mesmo depois do natural cansaço após mais uma década dos Kirchner. E sua popularidade não é particularmente extraordinária.

Temer só consegue aplicar suas reformas por não ter disputado eleições, e por gozar de ridículos 5% de aprovação popular. Nossos liberais, parece, são udenistas: só chegam ao poder por golpe ou por sorte.

Se o grande defeito do socialismo é que ele simplesmente não funciona, o grande motivo de sofrimento dos liberais daqui é que os pobres têm essa mania de votar nas eleições.

Enfim.

Aqui na América Latina a história nunca acaba. Mas o fracasso é sempre garantido.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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