OPINIÃO

Economia e ideologia: o exemplo da indústria naval

08/12/2014 12:09 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
Stewart Sutton via Getty Images

Ideologia é um desses conceitos que suportam uma infinidade de definições. Segundo o sociólogo americano Daniel Bell (1919-2011) ideologia pode ser definida como um "'an action-oriented system of beliefs". Ou ainda, em uma definição menos rigorosa, trata-se de um prisma prévio que o indivíduo possui e que influencia o modo como ele observa e entende a realidade.

Os economistas em geral gostamos de aparecer perante aos leigos como possuidores de um saber rigoroso, científico, tal qual aquele possuído por físicos, médicos, engenheiros, etc. Mas acontece que a Economia não é e nunca será uma ciência exata. Em Economia não há testes de laboratório (ainda que alguns economistas estejam tentando), não há possibilidade de se realizar os chamados "experimentos cruciais" - isto é, aqueles que provam definitivamente que uma teoria é correta ou não - os dados muitas vezes não existem ou são de qualidade ruim, o sistema econômico não é um sistema fechado, repetitivo, previsível. Enfim, a Economia, para o embaraço de muitos economistas, está muito mais próxima da Sociologia do que da Física.

Podemos dividir a Economia (e os economistas, obviamente) em três espectros ideológicos: o marxista, o "nacionalista" e o liberal. Notem que chamo esses grupos de 'espectros', o que significa que há uma rica fauna no interior de cada um deles, assim como há áreas de contato entre um e outro bloco.

Essa divisão ideológica se manifesta muito claramente quando discutimos, por exemplo, o papel do Estado no processo de desenvolvimento econômico e a forma de inserção do país no comércio internacional. E essa dimensão ideológica ganha contornos mais nítidos em épocas de polarização política, como recentemente nas eleições presidenciais. Afinal, a política econômica é muitas vezes mais política do que econômica.

Aos meus alunos eu sempre conto a seguinte história. Em um dos debates da eleição de 2002 o então candidato Lula se disse inconformado com o fato de a Petrobrás usar seus recursos para comprar navios na Coreia do Sul, gerando emprego e renda para coreanos, em vez de produzi-los no Brasil.

Pergunta: qual das duas opções é melhor para o Brasil? Cenário 1: a Petrobrás usa seus recursos para comprar navios produzidos na Coreia que são de melhor qualidade e mais baratos. Cenário 2: a Petrobrás produz o navio no Brasil, mesmo sabendo que esse navio será de qualidade inferior e de custo maior do que aquele produzido na Coreia?

Para um liberal, 'eficiência' é sempre a palavra-chave. Se a Petrobrás comprar os navios coreanos ela gastará menos do que produzindo internamente, o que significa que ela terá mais dinheiro para reinvestir, para ampliar sua capacidade de produção, para gastar com o desenvolvimento de melhores máquinas, equipamentos, métodos produtivos, para remunerar seus acionistas, etc.

Assim como na sociedade há divisão e especialização do trabalho e isso é bom para todos, o mesmo valeria para o comércio internacional. Se cada país produzir aquilo em que tem vantagens competitivas, e se as trocas forem o mais livre possíveis entre eles, todos saem ganhando.

Para os nacionalistas 'riqueza e poder' são os objetivos da política econômica de um país. Para eles, ainda que hoje seja ineficiente produzir navios no Brasil, à medida que mais trabalhadores forem sendo formados, mais empresas atuarem nessa área, maior a quantidade de navios produzidos, pode ser que em alguns anos o Brasil esteja produzindo navios mais baratos e de melhor qualidade do que os coreanos. Ou seja, pode ser que sacrificar a eficiência no curto prazo gere benefícios no longo. Caso isso ocorra, teremos criado um novo setor - e um setor sofisticado - em nossa economia. Teríamos maior independência em relação aos demais países, seríamos então um país mais rico e mais poderoso. Para o nacionalista, se o Brasil tivesse seguido o receituário liberal de especialização, estaríamos ainda hoje produzindo apenas café. Afinal, teria sido mais barato comprar carros no EUA do que começar a produzí-los no Brasil dos anos 1950.

À parte das questões teóricas, pergunta-se: e qual foi o resultado efetivo dessa política da Petrobrás?

Bom...

Os liberais estavam certos. O navio João Cândido, o primeiro construído no polo naval de Pernambuco e símbolo da retomada da nossa indústria naval, custou R$ 500 mi e quando - após várias mudanças no cronograma - foi entregue em 2010 precisou voltar para o estaleiro, por conta de falhas em sua construção, só entrando em operação em 2012. Melhor teria sido comprar dos coreanos. E por conta dessa política 'nacionalista' - entre outros fatores - a Petrobrás que em 2010 era a 12ª maior empresa do mundo em termos de valor de mercado, é hoje a 120ª. Uma queda vertiginosa.

Porém...

Os 'nacionalistas' também estavam certos. Até fevereiro deste ano, a Petrobrás já havia lançado 10 navios petroleiros. A retomada da indústria naval brasileira é inegável, já somos o quarto maior produtor naval do mundo, atrás apenas de China, Coreia do Sul e Japão. De 2 mil funcionários ocupados por volta do ano 2000, há hoje 78 mil trabalhadores no setor. Os cursos técnicos lançados pelo governo para preparar a mão de obra já qualificaram mais de 90 mil pessoas. A Universidade Federal de Pernambuco, por exemplo, passou a ofertar em 2011 o curso específico de graduação em engenharia naval.

E, afinal, quem está com a razão? É óbvio que há uma infinidade de detalhes nessa história que não estão contempladas nesse texto (há dezenas de variáveis afetando essas observações), mas acho esse um exemplo interessante para iniciar o debate.

PS.: Para os que se interessam por questões mais pragmáticas sobre a indústria naval, vale a pena ler o livro "Ressurgimento da Indústria Naval no Brasil (2000-2013)" lançado recentemente pelo IPEA.

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