OPINIÃO

Donald Trump e a política como um espetáculo para idiotas

01/02/2016 11:54 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Republican presidential candidate Donald Trump speaks at a rally Sunday, Jan. 31, 2016, in Council Bluffs, Iowa. (AP Photo/Jae C. Hong)

As notícias sobre as eleições presidenciais nos EUA têm girado em torno de uma figura: o republicano, subcelebridade e multimilionário Donald Trump.

De tão ridícula, sua figura despertava risos em muitos. O Huffpost, por exemplo, se recusou a tratar Trump como um candidato sério, colocando-o na sessão de entretenimento do site.

Há pouco tempo ninguém achava que ele tinha qualquer chance de vencer as primárias, era apenas fogo de palha.

Com a quantidade absurda de insanidades que profere, era questão de tempo para que ele falasse sua asneira final, que faria desmoronar sua candidatura.

Ocorre que isso ainda não aconteceu e ele segue como favorito na disputa republicana.

Trump conseguiu capturar o que há de pior no submundo político dos EUA.

É, por isso mesmo, o candidato favorito dos comentaristas de notícias do site ultra-conservador-nacionalista-cristão e anti-Obama ferrenho, Fox News.

Seu lema é "vamos fazer a América grande de novo" (let's make America great again).

O fato é que os EUA estão, de fato, em decadência relativa há décadas.

Explico.

É certo que eles ainda são a principal potência política, militar, cultural, científica e econômica. Mas é inegável que o país tem perdido importância em termos econômicos.

Em 1960, o PIB americano representava quase 40% do PIB de todo o mundo. Hoje, a economia americana representa algo como 22% do PIB do mundo.

A China, por outro lado, que era virtualmente irrelevante até os anos 1990, hoje representa mais de 12% do PIB global.

Isso não chega a ser um problema em si, e a posição dos EUA nos anos 1960 - com a Europa ainda em reconstrução - não era sustentável.

Mas assim como os americanos temiam perder o domínio global para os japoneses durante a década de 1980, hoje, eles temem a China.

Algumas das pérolas de Trump versam explicitamente sobre a ameaça chinesa.

Sobre a enxurrada de produtos chineses nas prateleiras das lojas americanas, Trump disse que sua política comercial seria dizer aos chineses: "Ouçam seus filhos da p..., nós vamos taxar vocês em 25%" ("Listen you m-----f------, we're going to tax you 25 percent!")

Os conservadores, por algum motivo que me escapa a compreensão, decidiram tomar a negação do aquecimento global como uma bandeira política.

Trump conseguiu unir a tese negacionista com o ataque à China. Dois coelhos com uma cajadada.

"O conceito de aquecimento global foi inventado pelos e para os chineses, de modo a tornar a indústria americana não competitiva"

Outro pavor dos conservadores-nacionalistas é com a "pureza da raça".

Os EUA são provavelmente o país mais cosmopolita do mundo, mas isso não agrada a todos.

A xenofobia clássica do passado recente é contra os mexicanos. Eles são pobres, têm a pele marrom, falam outras línguas, têm outros hábitos, outros costumes. E eles roubam nossos trabalhos (They took our jobs!- como se diz em South Park).

Esse sentimento é particularmente forte entre os brancos pobres, já que os mexicanos - e outros imigrantes com baixa qualificação - são seus concorrentes diretos por postos de trabalhos.

Para agradar os rednecks e conter a suposta invasão mexicana, Trump sugeriu:

"Eu construirei um grande, grande muro em nossa fronteira sul, e eu farei o México pagar pelo muro. Guardem minhas palavras"

E com aquela velha postura de superioridade do homem branco sobre os "selvagens", que ao domá-los não faz senão um favor de levar a eles o progresso e a civilização, disse: "O muro irá subir e o México começará a se comportar"

Mas sua mais insana referência aos mexicanos foi quando disse:

"Eles [os mexicanos que vão para os EUA] são estupradores... e alguns, creio eu, são boas pessoas".

Circula também a ideia insana de deportar aqueles indivíduos que nasceram nos EUA - e, por isso, são cidadãos americanos - mas cujos país estão ilegalmente no país.

O pavor mais recente de parcela da população americana é contra os "muçulmanos". E, obviamente, Trump não iria deixar esse medo passar em branco.

Disse o milionário: "Eles não virão para esse país se eu for presidente. E se Obama trouxe alguns deles para cá, eles irão embora".

Ou seja, o discurso do principal candidato do Partido Republicano para a questão do terrorismo é a de proibir a entrada e impor a saída de todas os muçulmanos!

Imagine um mundo no qual o botão do arsenal nuclear americano está ao alcance dessa detestável figura.

Ser reacionário é não só ser um inimigo das mudanças, mas ter o desejo de que as coisas voltem a ser como antes. O problema, já diria o amigo Heráclito de Éfeso, é que tudo está em constante mudança. Os reacionários querem é conter a correnteza usando as mãos, querem viver em um mundo que não existe mais.

Mas a política para essas massas é feita de espetáculo, não de razão.

Muitos temem as mudanças, muitos querem sangue.

O "Trumpianismo" nos Estados Unidos e o "Bolsonarismo" no Brasil são manifestações desse triste zeitgeist, desses tempos do discurso político calcado na polêmica, no espetáculo, no ódio e no apelo aos instintos desagradáveis de uma grande parcela da população do país.

É a política como um espetáculo para idiotas.

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