OPINIÃO

As saídas para o atual impasse e os perigos dos desejos de Aécio Neves

19/08/2015 16:28 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Senado Federal/Flickr
Senador Aécio Neves (PSDB-MG) concede entrevista. Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Sou bastante cético em relação à possibilidade de renúncia da presidente Dilma, bem como do sucesso de um processo de impeachment.

Se Dilma renunciasse, as oposições e parte da base governista poderiam implementar sob o nome de Michel Temer um governo de transição. Tal como ocorreu com Itamar Franco. Seria um cenário menos conturbado, ainda que não inteiramente pacífico e inofensivo.

Dilma e o PT, porém, não têm o perfil dos que renunciam. São daqueles que morrem abraçados a seu objeto de desejo.

Sobre o impeachment, o primeiro problema é que não há - até aqui - nenhum fato concreto que ligue Dilma e sua reeleição à alguma irregularidade.

Há o perigo do julgamento das chamadas "pedaladas fiscais" e ronda-lhe o espectro de doações ilegais à campanha.

Mas não há até aqui, repita-se, nada de concreto.

Dizer que essas tecnicidades não importam e que o "impeachment é um processo político e não jurídico", é uma maneira pueril de tergiversar e ignorar a gravidade de um processo desse tipo em um regime presidencialista.

Afastar um presidente, ainda que altamente impopular, sem nenhuma razão legal objetiva, abriria um precedente perigoso em nossa democracia.

Diz-se que o sonho de Aécio Neves é que a chapa Dilma-Temer seja impugnada, de forma que novas eleições sejam convocadas (ou, ainda melhor, que o segundo colocado seja empossado).

Aécio parece crer que este cenário perturbador seria algo bom para ele, afinal, foi por pouco que não se saiu vencedor em 2014, e seu nome aparece em pesquisas de intenção de voto à frente inclusive de Lula.

O poder, como cavalo selado, é algo que não se pode deixar passar. E nisso Aécio tem razão na sua postura afoita.

Mas, como nos alerta o clichê, é preciso ter cuidado com o que se deseja.

Saindo-se vencedor, Aécio herdaria um país em uma situação terrível. Espera-se contração do PIB para 2015 e também para 2016. Isso implicaria num enorme desgaste para um novo governo, pois essa situação é virtualmente impossível de ser modificada.

De pedra, Aécio se transmutaria em vidraça em meio a uma chuva de meteoros.

No caso de uma decisão que anulasse as eleições de 2014, o mercado seriam atingindo por uma avalanche de incerteza. Algo que prejudicaria ainda mais as perspectivas econômicas do país.

Lembremos de 2002.

Mesmo com o PT já domesticado, já tendo governado cidades e estados importantes sem ter ensaiado qualquer bolivarianismo, mesmo com José Alencar como vice, mesmo com a "carta aos brasileiros", mesmo com Meirelles indicado para o BACEN, mesmo com Palocci na Fazenda, o mercado viveu um período de profunda agitação. Variáveis como câmbio, risco-país, expectativas de inflação, por exemplo, só voltaram à normalidade a partir, aproximadamente, de junho de 2003.

Com o anúncio de novas eleições teríamos um cenário similar, mas qualitativamente superior.

Em primeiro lugar, não há nada que garanta a vitória de Aécio ou de outro candidato "amigo do mercado" (market friendly).

E mesmo com Aécio eleito, e tendo anunciado o finado Milton Friedman para a Fazenda, haveria ainda incerteza.

Os mercados são bichos arredios.

Só há uma coisa que o homem burguês teme mais do que perder a vida: perder dinheiro.

Não podemos esquecer, ainda, das questões políticas.

Por mais que o PT esteja desidratado e sua imagem esteja mais do que maculada, ele ainda tem um grande poder de mobilização e uma importante capilaridade na sociedade civil. Imagine como se comportariam, por exemplo, a UNE, a CUT, o MST, o MTST, no caso de um afastamento de Dilma? Eles aceitariam resignados essa decisão judicial?

Cenário pouco verossímil.

Haveria denúncia de golpe, haveria mobilização, haveria confronto, haveria greve, haveria sabotagem. E sabe Deus o que mais.

Todos esses grupos são coesos, têm liderança, são militantes profissionais, e por isso têm uma capacidade de pressão muito maior que a multidão dispersa que sai aos domingos com camisetas da seleção brasileira.

O país se tornaria um barril de pólvora. E essa pólvora dinamitaria ainda mais as frágeis bases econômicas sobre as quais nos sustentamos. Talvez o horizonte da crise se esparramasse para 2017.

E disso tudo os derrotados seríamos nós todos, inclusive um suposto Aécio Neves e o PSDB vitoriosos nas imaginárias eleições.

Não há saída fácil para atual crise, mas o afastamento de afogadilho de Dilma, sem provas concretas de culpa, não seria uma alternativa menos dolorosa.

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