OPINIÃO

As denúncias de Alberto Youssef e o viés de confirmação dos colunistas políticos

08/09/2015 12:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

Na Psicologia há um conceito chamado "viés de confirmação", que diz respeito à tendência que as pessoas têm de procurar e interpretar informações de tal maneira que elas corroborem suas crenças.

Um exemplo: um marxista fanático é incapaz de assistir a um episódio de Bob Esponja sem ver ali alguma dimensão da luta de classes, da doutrinação ideológica da burguesia, e, portanto, da correção de sua crença.

Já um direitista raivoso, por sua vez, não consegue ouvir uma música do Balão Mágico sem notar ali ardilosos expedientes gramscistas da luta ideológica pela hegemonia e da destruição do capitalismo.

E não há força na terra que os demova de enxergar a correção de suas teses em qualquer fato passado, presente ou futuro.

No nosso colunismo político o "viés de confirmação" ultrapassa o nível do absurdo.

Em depoimento no Congresso, o doleiro Alberto Youssef ao ser indagado se confirmava sua denúncia de que o ex-candidato a presidente do PSDB, Aécio Neves, recebera dinheiro desviado de Furnas, disse: "eu confirmo, por conta do que eu escutava do deputado José Janene, que era meu compadre e eu era o operador dele".

A parte esquerda da internet entrou em festa. Veio-me à mente uma imagem que marcou minha infância: a de Galvão Bueno abraçado com Pelé gritando "É tetra! É tetra!".

Viram aí, os nossos "esquerdinhas", a prova cabal e definitiva de que Aécio e o PSDB são bandidos.

Achei curioso, pois eu me lembrava que esse mesmo pessoal há pouco tempo desqualificava todas as acusações feitas por Youssef contra o PT.

E lá fui eu buscar o que minha memória esqueceu.

Ricardo Melo, colunista da Folha de São Paulo (cuja alma é mais petista que Lula e Dirceu juntas), afirmava em setembro do ano passado:

Youssef é velho de guerra tanto em delitos como em delação premiada. Já fez uma em 2004, na época da CPI do Banestado, quando se comprometeu a nunca mais sair da linha. O tamanho de sua confiabilidade aparece em sua situação atual. Está preso de novo. Quem diz é o Ministério Público: "Mesmo tendo feito termo de colaboração com a Justiça (...), voltou a delinquir, indicando que transformou o crime em verdadeiro meio de vida. (...) É num sujeito com tal reputação que oposicionistas apostam suas fichas.

("Vazamento premiado e o fator Youssef", FSP, 29/09/2014)

Esse texto foi reproduzido em todos os recônditos da internet petista.

Jânio de Freitas, também colunista da Folha (e cuja alma é mais petista que a Lula, Dirceu e Ricardo Melo juntas), escreveu em outubro do ano passado:

"Dado apenas como doleiro, Alberto Youssef é mentiroso profissional. (...) Sua atual busca de delação premiada, em troca de liberdade apesar de criminoso confesso e comprovado, não é a primeira. Voltou a ser preso, há seis meses, porque, desfrutando de liberdade concedida pela Justiça como prêmio por antigas delações, dedicou-se aos mesmos crimes que se comprometera a não repetir. A delação premiada e o acordo com um juiz foram ambos mentirosos."

("Os enganados e o mentiroso", FSP 26/10/2014)

Já a parte direita da internet, que sempre reverbera todas as denúncias feitas pelos delatores da lava-jato, padeceu neste episódio de um silêncio sepulcral, de endoidar feiras enclausuradas.

Reinaldo Azevedo, por exemplo, (cujo amor por FHC, Serra e Alckmin é a última grande história do tema que falta ser contada pela literatura ocidental), não gastou uma mísera linha com o assunto.

Augusto Nunes tampouco versou sobre o caso. Merval Pereira e Dora Kramer, idem. Uma lástima!

Mas esses mesmos colunistas não perdem tempo em julgar, condenar e executar todos os petistas e aliados citados nos depoimentos de Youssef.

Resumindo a postura dos dois lados da contenda: acusações contra os teus são provas irrefutáveis, acusações contra os meus são mentiras que não merecem atenção.

E estão todos cegos de tanto enxergar o óbvio que lhes apetece.

Essa é uma das tantas evidências que me mostram que o colunismo que tende à militância é ruim, ainda que forneça a possibilidade de uma carreira promissora.

Os que citei aqui estão entre as figuras mais influentes do país. São, no sentido mais perfeito do termo, formadores da opinião política de uma multidão.

Mas para atingir esse patamar, parece que o preço é abdicar da liberdade de pensamento, é preciso passar a enxergar só o que interessa, dizer o que querem que seja dito, converter os já convertidos e de buscar irritar os adversários. E só.

Machado de Assis já ensinava na sua Teoria do Medalhão: "Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade etc".

Trouxa de quem não aprendeu.

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