OPINIÃO

Ainda precisamos do Exército para resolver nossas crises políticas?

30/03/2016 16:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Ueslei Marcelino / Reuters
A soldier holds a gas mask during a event by members of the Brazilian Army, Navy and Air Force presenting Defence and Security personnel and equipment that will be used during the 2014 World Cup in Brasilia, June 8, 2014. REUTERS/Ueslei Marcelino (BRAZIL - Tags: SPORT SOCCER WORLD CUP MILITARY)

A democracia no Brasil é uma árvore de raízes curtas. Somos um país histórica e fundamentalmente antidemocrático.

Somos a terra dos únicos Imperadores das Américas (1822-1889), somos a terra da democracia de faz-de-conta das elites agrárias (1889-1930), da Ditadura de inspiração fascista amolecida pelos ventos dos trópicos (1930-1945), da Ditadura militar que fazia teatrinhos eleitorais e permitia a existência de uma oposição (1964-1985)

Somos um país criativo em termos de tiranias.

A Nova República começou em 1985, mas, se pensarmos bem, tanto Sarney (1985-1990) como Collor (1990-1992) eram homens carnalmente ligados ao antigo regime, aos partidos antidemocráticos. Sarney fora presidente da ARENA e do PDS. Collor começou sua vida política na ARENA e foi membro do PDS até 1985.

O primeiro presidente eleito no país que não fora criado pelos partidos do totalitarismo foi FHC em 1994. E, ainda assim, só governou com o apoio do PFL, a ala anti-malufista do PDS.

A Nova República, portanto, é coisa novíssima.

Estamos agora atravessando sua pior crise política, associada a uma severa crise econômica. E a questão que me intriga é, será que seremos capazes de resolvê-las em a intervenção do Exército?

Pode ser coisa de paranoico, mas, historicamente, sempre que o Brasil esteve em crise e, principalmente, com a sociedade claramente dividida, o Exército desempenhou sempre o papel de "árbitro".

A República em 1889 contou com a participação decisiva do Exército. Não por acaso nossos dois primeiros presidentes foram Marechais (Deodoro e Floriano).

Quando os civis começaram a governar o Brasil, em 1894 a partir de Prudente de Morais, as coisas andaram calmas por um tempo.

Mas em 1930, por conta da grave crise econômica iniciada no final de 1929, e da divisão da sociedade e dos estados brasileiros, novamente o Exército foi decisivo na imposição do governo Vargas, que se arrastaria até 1945.

Em 1930 havia uma divisão entre as classes sociais no país. De um lado a República de mentira das elites agrárias regionais contra a República moderna desejada por tenentes, pelas classes médias urbanas, por elementos da burguesia industrial.

Em 1930 havia também uma divisão entre os estados. O acordo de cavalheiros entre SP e MG fora rompido, o que juntou força ao descontentamento de estados politicamente algo marginalizados, mas política e economicamente fortes, como o RS.

Houve temores de uma guerra civil, com as tropas rebeldes caminhando para o RJ a partir do Sul, de Minas e do Nordeste.

O Exército se uniu e pôs fim ao governo Washington Luís.

O Exército também teve papel fundamental na transição do Estado Novo para a Terceira República (1945-1964).

Não por acaso, o primeiro presidente do Brasil do período era um General: Eurico Gaspar Dutra, que fora Ministro da Guerra de Getúlio Vargas e figura central no golpe do Estado Novo em 1937.

No início dos anos 1960 o país voltou a ter sérias convulsões. Havia uma crise econômica e uma crise política em marcha.

Após o fim do governo JK o país estava endividado, com a inflação em alta e a produção em queda.

Com a renúncia de Jânio Quadros em 1961, uma severa crise política se instalou, agravando ainda mais a crise econômica.

Com Jango no poder, o país se dividiu.

De um lado os apoiadores do presidente: sindicatos, ligas camponeses, socialistas, comunistas, setores rebeldes das forças armadas. Enfim, do seu lado a "esquerda".

Contra Jango, as donas de casa, a Igreja, as classes médias, os latifundiários, os empresários, o governo americano. Enfim, a "direita".

Cada um desses grupos queria demonstrar mais poder, mobilizar mais gente e colocar fogo no país.

De um lado o Comício da Central do Brasil, do outro, a Marcha da Família.

O país estava dividido e o Exército entrou em cena novamente, decidindo qual lado da contenda seria o vitorioso: ele mesmo.

A Nova República ainda não conhecia uma crise econômica combinada com uma profunda divisão da sociedade brasileira, como vemos agora.

Nas crises políticas e econômicas do governo Sarney, a sociedade estava unida no desejo da manutenção da democracia (ou no temor da volta da Ditadura), do respeito à nova Constituição e cada grupo tinha esperanças justificadas de vencer as eleições de 1989.

Quando da queda de Collor, também houve consenso. Todos os grupos relevantes se voltaram contra o presidente. Da UNE dirigida pelo PCdoB, passando pela bancada de esquerda no Congresso, chegando até a FIESP, a Rede Globo, etc. Todos queriam se livrar de Collor.

Agora a situação é diferente.

Estamos vivendo uma divisão parecida com a de 1964.

Uma multidão tem tomado as ruas do país vestida de verde e amarelo, desejando o desaparecimento total de qualquer vestígio do petismo no país. Assim como em 64 se queria apagar qualquer vestígio varguista ou proto-comunista.

De outro lado, porém, os grupos pró-governo e/ou contrários ao "golpe", mostram também ter poder de fogo. Controlam sindicatos, movimentos sociais, têm grandes bancadas no Congresso, apoio de parte da imprensa, etc.

A "direita" sonha com a prisão de Lula, o principal líder da esquerda brasileira desde o fim da Ditadura.

A esquerda ameaça colocar fogo nas ruas. As declarações de Boulos - que promete "incendiar o país" no caso de "golpe" e até mesmo as ameças do Senador Humberto Costa contra um suposto governo Temer - "Vossa Excelência é o próximo a cair", são ameaças explícitas a qualquer governo que se instale no país.

"Não haverá golpe, haverá luta" (dizem) e havendo "golpe", haverá briga de foice no escuro (prometem).

Ou seja, é a primeira vez em que a divisão da sociedade brasileira aparece com perfeita nitidez e violência durante a Nova República, divisão com potenciais perturbadores da ordem e das regras.

Será que atingimos um grau de maturidade institucional que nos permitirá resolver essa crise sem a intervenção do Exército? Sem rompimento da ordem democrática (fechamento do Congresso, um governo de ocasião, por exemplo), ou sem a elaboração de uma nova Constituição?

Se sim, será uma prova de vigor da democracia brasileira.

Se não, não será nenhuma novidade em nossa história política.

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