OPINIÃO

Adeus Dilma! Foi ruim enquanto durou!

16/03/2016 11:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Enquanto escrevo, acaba de ser confirmada a homologação no STF da delação premiada do senador Delcídio Amaral.

E o governo Dilma começa sua contagem regressiva rumo ao abismo.

Eu - apesar de achar Dilma uma catástrofe desde 2011 - me mantive contra o impeachment. Não me parecia haver uma base jurídica clara, afastar a presidente seria, por isso, uma temeridade.

Agora os elementos me parecem suficientes. A confirmação vinda do ex-líder do governo no Senado de que Dilma sabia, participava e interferia em muitos dos chamados "malfeitos" - esse detestável eufemismo para assaltos cometidos por colarinhos-brancos - coloca uma suspeição insustentável sobre os ombros de nossa mandatária. Ela precisa ser afastada.

Em sua delação o senador envolve quase toda a República em negócios pouco republicanos. Até o finado PFL é citado. Mas salta aos olhos a exposição das entranhas dos últimos 13 da história do país sob o governo petista.

Lula é figura central na peça. O segundo tópico da delação, por exemplo, é intitulado "Lula foi o mandante dos pagamentos à família Cerveró".

Ou seja, o crime que levou Delcídio à prisão teria sido cometido sob o comando do ex-presidente. Cinquenta mil reais teriam sido uma primeira prestação paga pelo silêncio do presidiário.

O quarto tópico da delação trata da "participação de Lula e Palocci na compra do silêncio de Marcos Valério no Mensalão". Nesse caso as somas são astronômicas. A resignação de Valério teria custado 220 milhões de reais.

São nossas coisas, são cosa nostra...

E mais, Delcídio - que ganhou notoriedade como presidente da CPMI dos Bingos - afirmou que houve um acordo entre governo e oposição para que fossem retiradas as menções ao ex-presidente Lula e ao seu filho no relatório final da comissão. Esse acordo escuso salvou o mandato de Lula.

A oposição teria aceitado o acordo em troca do desaparecimento de evidências constrangedoras contra caciques do PSDB de Minas, que foram os responsáveis pelo ensaio-geral do esquema nacional de corrupção posto em prática pelo PT.

Delcídio também envolve Dilma Rousseff. Em trecho de sua delação afirma que "diferentemente do que afirmou" a presidente "em outras oportunidades, a indicação de Nestor Cerveró para a Diretoria Financeira da BR Distribuidora contou efetivamente com a sua participação".

Em outro, diz que Dilma, "então presidenta do Conselho de Administração da Petrobras, tinha pleno conhecimento de todo o processo de aquisição da Refinaria de Pasadena e de tudo que esse encerrava".

Confirma que dinheiro desviado de obras públicas irrigou as campanhas de 2010 e 2014 da presidente. Que ela e José Eduardo Cardoso teriam tentado interferir nas investigações e resultados da lava-jato.

Desnecessário entrar em todos os detalhes.

Delcídio é o homem-bomba-atômica que acabou por destruir o que restava de esperança nos governistas.

Domingo 500 mil pessoas abarrotaram a Avenida Paulista pedindo a saída da presidente. Noticiou-se que essa teria sido a maior manifestação desde os tempos das Diretas Já.

Há poucos dias houve uma convenção do PMDB, na qual ficou clara a sinalização de que os ratos já abandonam o barco que agora afunda.

Há algumas semanas saiu uma pesquisa de opinião, mostrando a "recuperação" da imagem de Dilma, que seria agora apoiada por 12% da população.

O governo Dilma já acabou e foi ruim enquanto durou.

Em inglês há o termo "dead man walking" que tão bem traduz a situação atual da presidente. Ela está condenada, ela está morta. Mas, por conta de uma questão de agenda, continua a caminhar, esperando ser finalmente amarrada à cadeira elétrica.

Há alguns anos a proposta de colocar Lula como um primeiro-ministro teria grandes chances de sucesso. Lula é uma figura carismática, é um político nato, nasceu para costurar alianças.

Mas o Lula de hoje apequenou-se. Há um risco não desprezível de ele comer bacalhau no domingo de páscoa com seus amigos na Papuda.

Hoje, a união de Lula e Dilma seria só um melancólico abraço de afogados.

Lula como Ministro soa como uma confissão de culpa (e de medo de Moro) e da perda completa de controle de Dilma sobre seus aliados.

Nós que vivemos na planície, não sabemos o que se conversa pelos subterrâneos da Praça dos Três Poderes. Mas podemos especular.

Um rompimento da ordem democrática parece impossível (valei-me meu São Montesquieu!).

Uma nova eleição é improvável. Não há como deixar a presidência do País nas mãos de Cunha nem por um segundo. E uma eleição realizada às pressas nesse clima de guerra conflagrada poderia ter resultados imprevisíveis e detestáveis.

Por isso desconfio que estão avançadas as conversas para um governo de transição sob a liderança figurativa de Michel Temer. Participariam desse gabinete de crise virtualmente todos os partidos, exceto o PT e sua versão nanica, o PCdoB.

E assim empurraríamos com a barriga nossos problemas até 2018.

E, convenhamos, empurrar problemas com a barriga e dar soluções meia-boca para questões complexas, tal qual o samba a prontidão e outras bossas, são nossas coisas, são coisas nossas.

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