OPINIÃO

A racionalidade do comportamento 'extravagante' de Bolsonaro e Feliciano

10/12/2014 12:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
Ruy Barbosa Pinto via Getty Images

A democracia é o menos pior dos sistemas políticos já desenvolvidos pelos homens. Frase batida, mas verdadeira. É preciso ser muito idiota para preferir uma ditadura a uma democracia. Liberdade de imprensa, de opinião, de reunião, "um homem um voto", poderes independentes...

Como alguém pode querer abdicar disso?

Um grave defeito da democracia, porém, é que também os idiotas estão aptos a votar e a ter representantes.

No Brasil temos eleições do tipo majoritárias - aquelas nas quais leva quem tiver a maioria absoluta dos votos, como nas votações para Prefeito, Governador, Senador e Presidente - e as proporcionais - aquelas nas quais não é preciso ter maioria para garantir a vitória, como no caso dos vereadores, deputados estaduais e federais.

O comportamento do candidato em cada uma dessas eleições é diferente.

Nas eleições majoritárias é preciso ser moderado, pois é necessário agradar ao cidadão mediano, aquele que não é de esquerda nem de direita. Aquele que pouco se importa com o Foro de São Paulo ou com a "Imprensa Golpista". A democracia brasileira desde 1994 consolidou a disputa de dois grandes partidos: o PT que é o preferido daqueles mais à esquerda do espectro político, e o PSDB, que ocupa o lugar mais à direita. Se o PT ou o PSDB lançarem um chimpanzé como candidato a presidente em 2018 eu aposto toda minha fortuna imaginária que o referido primata terá pelo menos 30% dos votos. Mas isso não é suficiente. Para ganhar as eleições o PT precisou moderar seu discurso para agradar não os 30% que votam nele em qualquer um dos casos, mas sim para conquistar aquela faixa dos eleitores indiferentes a ele e ao PSDB. E o PSDB só voltará ao poder quando agradar não apenas aos anti-petistas (nessas eleições chegou-se perto desse cenário).

Esse resultado - uma versão grosseira do teorema do eleitor mediano - é o que explica o discurso insosso dos candidatos a presidente, o cuidado de só falar aquilo que foi aprovado pelo marqueteiro após uma longa pesquisa com o público-alvo. Assim como para vender sabonetes é preciso falar o que o consumidor quer ouvir, o mesmo vale para os candidatos, esses sabonetes que fazem plástica e clareamento dentário às vésperas das eleições.

Nas eleições proporcionais, por outro lado, o comportamento é diferente. Se você é alguém previamente famoso seu discurso pode ser moderado. De resto, só resta apostar em um nicho. O candidato que é "a favor da saúde, da segurança e da educação" não consegue capturar a atenção de ninguém. É preciso ser o candidato da "legalização da maconha", "da redução da maioridade penal", "contra o casamento gay", "a favor do casamento gay", "a favor da pena de morte" e assim por diante.

Bolsonaro, autor de frases como a recente "só não te estupro porque você não merece", jamais será eleito presidente do Brasil, governador ou prefeito do Rio de Janeiro. E ele sabe bem disso, mas seu discurso controverso (é preciso cuidado nas adjetivações) é o suficiente para agradar a uma estranha faixa do eleitorado fluminense, a qual irá garantir sempre o seu lugar na Câmara dos Deputado. Um belo emprego, diga-se.

(Antes de prosseguir, mais algumas frases do Deputado. "Isso nem passa pela minha cabeça, eu dei uma boa educação, fui pai presente, não corro este risco" - ao ser questionado sobre a possibilidade de ter um filho gay. "Eu não entraria em um avião pilotado por um cotista nem aceitaria ser operado por um médico cotista" - ao analisar com profundidade a problemática das cotas nas universidades públicas. "Dilma Rousseff, pare de mentir. Se gosta de homossexual, assume. Se o teu negócio é amor com homossexual, assuma" - disse Bolsonaro em um momento Marta/Gilberto).

Outro exemplo de radicalismo que funciona vem do Pastor Feliciano. Tive o desprazer de ver um vídeo com os "melhores" momentos de sua pregação religiosa. Ele afirma coisas como: 1 - um homem que falou mal dele foi castigado por Deus e desenvolveu câncer na garganta, 2 - pelo fato de os Mamonas Assassinas terem "colocado palavrões na boca das crianças" Deus fez com que eles morressem, 3 - John Lennon disse que os Beatles eram mais famosos que Jesus, e por isso Deus - esse serial killer - resolveu matá-lo com 3 tiros ("um pelo pai, outro pelo filho e um pelo espírito santo"). Para o Deputado Deus não é amor, Deus é um sniper. Isso sem falar na sua defesa da "cura" gay, pela proibição da adoção de crianças por casais homossexuais, na sugestão que os africanos são amaldiçoados... E quem, em pleno uso de suas faculdades mentais, entrega seu voto a uma figura como Feliciano? Resposta: muita gente, infelizmente.

E quanto mais os grupos de defesa dos homossexuais, dos ateus, dos negros, da esquerda elegem Bolsonaro e Felicianos como seus maiores inimigos, mais e mais radicais conservadores se orgulham e votam neles. Foi o que aconteceu com Feliciano, passou do baixo clero a deputado mais votado em São Paulo. O mesmo ocorre quando os grupos conservadores elegem Jean Wyllys ou Maria do Rosário como exemplos máximos da conspiração comunista-gayzista-abortista-maconheira. Isso só faz com que eles ganhem mais e mais respeito entre os seus. Wyllys saiu de 13 mil votos para 144 mil votos entre uma eleição e outra.

Então, sempre que você ouvir um deputado falando alguma sandice, se resigne. Os pouco dotados de bom senso representam uma fração considerável da população de qualquer país em qualquer instante do tempo e terão seus representantes na Câmara graças a democracia. Mas não desanime. Os radicais pouco interessam, apesar do barulho que fazem e dos holofotes que atraem. Devemos observá-los e cuidar para que não se propaguem, mas deveríamos também ignorá-los, pois eles se alimentam de controvérsias rasteiras.

Mas vejam só, eu sugiro que os ignoremos, depois de escrever um texto sobre eles. Sorrateiras figuras.

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