OPINIÃO

A ex-presidente Dilma Rousseff

20/04/2016 11:29 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian President Dilma Rousseff speaks during a press conference at Planalto Palace in Brasilia on April 18, 2016. President Rousseff said Monday that she is 'outraged' by a vote in Congress to authorize impeachment proceedings against her and vowed to keep fighting. / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

No dia 17 de abril de 2016, chegou ao fim o governo Dilma.

Quando 367 membros da Câmara - 72% do total - aceitaram o pedido de impeachment, duas coisas ficaram claras.

A primeira, é que Dilma Rousseffcertamente será afastada do cargo - ainda que ao menos temporariamente - dentro de muito pouco tempo.

Para que o afastamento temporário (de até 180 dias) se concretize, bastam os votos da maioria simples do Senado. Neste cenário, Dilma terá que se defender sem o auxílio de seu maior aliado: a caneta.

Caneta, aliás, passaria para as mãos de Michel Temer.

A segunda coisa é a seguinte: mesmo que - em caso de um milagre absoluto - o governo consiga barrar a aprovação final do impeachment no Senado, a gestão Dilma é morta e enterrada.

Na hipótese remota de o governo conseguir se arrastar até 2018, o que se veria seria um espetáculo triste e degradante, feito a surra de 7x1 que levamos da Alemanha.

Um governo que sequer é capaz de angariar 1/3 dos votos da Câmara para barrar um pedido de impeachment, quer governar como? Que leis, reformas e medidas um governo tão fragilizado conseguirá aprovar?

Aliás, desde as eleições de 2014 o governo Dilma não faz outra coisa senão tentar sobreviver. Ela já não governa no sentido preciso do termo. Ela gerencia o caos, como um malabarista que exagerou na quantidade de pratos que colocou para rodar em cima de varetas.

Dilma - que até agora não fez qualquer autocrítica - fala em fazer um "pacto" caso sobreviva.

Risível, ridículo e inacreditável.

Nem mesmo Satanás em pessoa toparia fazer um pacto com ela em tal cenário.

Alguém realmente acredita que ela se sentará à mesa com Michel Temer, Paulo Skaf e Paulinho da Força - por exemplo - e dirá, como no brega antigo: "Me dá um beijo. O que passou, passou. Tristeza nunca mais"?

Se Dilma já era difícil no trato quando cercada de puxa-sacos, imagine agora, cheia de mágoas e com marcas de punhaladas nas costas e na testa.

Antes de incorporar a estadista, é muito mais provável que ela encarne o Charles Bronson de "Desejo de Matar".

E mais, quem em sã consciência acredita que os do outro lado estarão dispostos a perdoar?

Uma pessoa normal, quando se percebe profundamente indesejada em um lugar, não precisa ser posta para fora. Seu sentimento de autoestima a guia até a porta de saída.

Dilma conta com a simpatia de 10% da população e menos de 27% da Câmara.

Fosse, portanto, uma pessoa normal, a presidente já estaria preparando seu discurso de despedida.

Mas políticos não são pessoas normais. Pessoas normais não são políticos.

O político só tem um objetivo: conquistar e se perpetuar no poder. E, para isso, estão todos dispostos a fazer qualquer coisa.

E Dilma, ainda que lhe faltem outras características de um político completo, possui esse traço.

Imaginar que ela irá renunciar, pois, é ilusão. Lutará até o fim.

Mas ainda que essa imagem de uma Presidente guerreira possa render camisetas e adesivos para militância, na prática, a coisa pode ser bem menos épica.

Que fará Dilma - que tantas bobagens já fez - com a caneta da presidência na mão e o instinto de sobrevivência na mente?

Quanto gastará em dinheiro público para tentar comprar os senadores, de forma a evitar o afastamento temporário?

A consciência dos homens tem preço, o qual flutua por conta de fatores de oferta e demanda, como o de qualquer outra mercadoria.

Com o governo em decomposição, o preço dos canalhas sobe exponencialmente.

As malas de dinheiro - tão tradicionais no Brasil quanto a feijoada e os especiais de fim de ano de Roberto Carlos - terão que ficar gordas, obesas mórbidas.

Mas ainda assim, isso pode ser insuficiente.

Deve parecer agora aos congressistas muito mais vantajoso receber um pequeno agrado em um futuro governo Temer, a receber um grande afago de um atual governo contaminado pela peste negra da decadência.

Dilma está condenada. O seu pronunciamento foi profundamente melancólico. Via-se ali uma pessoa abatida e derrotada.

Agora só resta a ela se agarrar a tese do "golpe" - construindo uma narrativa imaginária muito mais nobre que a real - e esperar a chegada de seu carrasco.

Ela ainda não o vê, mas já ouve seus passos ao longe.

O governo Dilma, quem diria, é morto.

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