OPINIÃO

A Dialética de Lula Condenado

O presidente que era uma estrela global teria se vendido por um apartamento no Guarujá? Eis a crônica de um país de segunda classe.

17/07/2017 19:48 -03 | Atualizado 17/07/2017 19:48 -03
Paulo Whitaker / Reuters
O destino de Lula enseja duas possibilidades de caminho para a sociedade brasileira.

Sou devoto fiel da Igreja da Dialética dos Últimos Dias.

Acredito que tudo neste mundo, que existiu, existe e existirá, padece do mesmo mal: o de ter um princípio, um meio e um fim.

Já dizia o profeta Heráclito, lá pelas bandas de Éfeso, há 2,5 mil anos: ninguém pode se banhar duas vezes no mesmo rio.

Tudo está em permanente e inexorável transformação.

Outro dogma desta crença é que essas mesmas coisas que existiram, existem e existirão, vagueiam por aí carregadas até a tampa de contradições.

Essa digressão teológica chinfrim serve para expressar minha tese sobre a recente condenação do ex-presidente Lula. Tem-se aí a materialização simbólica de importantes transformações de nossa sociedade, em um evento com aspectos positivos e negativos.

O lado positivo.

Graças a uma burocracia estatal qualificada e com ampla margem de independência, desenrola-se diante de nós uma mudança talvez profunda de nosso organismo social.

Há não muitas décadas, grande parte do funcionalismo público era ainda formada por não concursados. E mesmo aqueles que o eram estavam muito mais sujeitos a pressões políticas de toda sorte.

Tivesse surgido algum tempo atrás, um juiz de primeira instância como Sérgio Moro, ao insistir em investigações envolvendo figurões, teria um triste destino. Seria demovido de modo não ortodoxo, subornado, removido para uma comarca nos confins do País, ou morto.

Hoje, um juiz de primeira instância tem a liberdade de investigar e condenar um ex-presidente.

Vimos e vemos bilionários sendo presos, como André Esteves e Marcelo Odebrecht. Vemos senadores, como Delcídio do Amaral, tomarem o mesmo destino. Vemos Sérgio Cabral e Geddel Vieira Lima de cabeça raspada, olhar vazio, camiseta branca e olhos pregados no chão.

E tudo isso ocorre graças à profissionalização e independência da burocracia estatal. Isso é o País se civilizando.

Talvez estejamos a testemunhar da morte do desinfeliz do homem cordial.

Viveremos em um país no qual os políticos, empreiteiros e banqueiros tenham medo de roubar? Nos quais as regras e leis se aplicam a todos?

Talvez.

Sou ignorante em matéria de leis. Falta-me qualquer expertise para dizer se Lula foi condenado com ou sem provas, se sua pena foi justa ou injusta. Em sendo culpado, que ele seja punido na justa medida da lei. Se não, que seja inocentado o mais rápido possível.

O lado negativo da condenação de Lula é também sua simbologia. Tanto do apodrecimento dos alicerces dessa velha Nova República, como do esfacelamento da imagem do Brasil.

Nos anos Lula o Brasil mudou de patamar na arena internacional. A princípio, talvez pelo simples exotismo da figura do operário tornado presidente. Mas Lula dedicou-se aos assuntos exteriores e se tornou amplamente conhecido em todo o mundo.

Aproveitando-se de uma economia estabilizada e do forte crescimento no preço e na demanda por nossos produtos agrícolas, vimos em seu mandato uma combinação rara nestas terras: crescimento econômico e redução da desigualdade de renda.

O Brasil surgia como potência em ascensão, a bola da vez. O futuro, daquele velho adágio sobre nosso País, parecia ao alcance da vista. A Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016) representariam a coroação dessa mudança de patamar do País.

Qual o quê...

Hoje o Brasil transformou-se numa República das Bananas.

O presidente que era uma estrela global teria se vendido por um apartamento no Guarujá? Eis a crônica de um país de segunda classe.

Há ainda as acusações de golpe parlamentar, governo "de um grande acordo nacional, com Supremo, com tudo". Um governo sem nenhuma mulher ministra. Um presidente paraquedista e radioativo, dos quais todos os líderes internacionais fogem e, agora, sob acusações e dependendo de uma tropa de choque asquerosa para manter-se no cargo.

O Brasil adiou o futuro mais uma vez, por conta da falta de estrutura para sediar tal evento.

Fomos rebaixados para a série C do concerto das nações.

Nossa democracia, nossa Nova República, que parecia ter se solidificado a partir da disputa PT vs. PSDB, no compromisso comum com a estabilidade econômica e redução das desigualdades, na transição pacífica e respeitosa entre presidentes, agora desaba.

Um primeiro golpe importante foi o mensalão, descoberto em 2005.

Foi aí que os potenciais sucessores de Lula foram dizimados. José Dirceu e José Genoino, por exemplo, tornaram-se zumbis políticos, frequentadores do sistema carcerário nacional.

Foi então que Lula resolveu apelar para um poste. Uma triste figura sem carisma, sem o dom da oratória, arrogante com os subalternos e que nunca disputara uma eleição sequer.

Foi aí que veio o dilúvio. A água que Lula dizia ter transformado em vinho, Dilma transformou em vinagre.

E quem hoje, nas fileiras do PT, tem condições de se apresentar como um candidato realmente competitivo? Quem são as novas lideranças do partido que governou estas terras por 14 anos? Gleisi? Lindbergh? Jesus!

Aécio Neves, presidente nacional, candidato do PSDB nas últimas eleições (e quase eleito presidente), foi pego "pedindo um empréstimo" de R$ 2 mi para Joesley. As gravações mostram uma personagem sem escrúpulos, que deixaria Maquiavel ruborizado.

O PSDB retomará o revezamento aborrecido de Serra-Alckmim-Aécio? Apelará ao "coxinhismo" raso de Doria?

Seremos governados por destemperados do naipe de "Bozonaro" ou "Cirão da Massa Encefálica Perturbada"? Ganhará Marina, "a silenciosa"?

São Hegel das Causas Indecifráveis sabe se dessa contradição de uma sociedade que se moderniza e de um sistema político que apodrece, nascerá a glória ou a perdição.

Oremos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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