OPINIÃO

Sadismo e incivilidade no caso do ladrão tatuado na testa

Defendo a dureza nas penas àqueles que desobedecem as leis. Mas defendo tratar o ser humano como ser humano, e não como animal.

17/06/2017 15:12 -03 | Atualizado 17/06/2017 15:12 -03

reprodução facebook

A palavra estigma vem do verbo grego arcaico στίγ, que significa perfurar, picar, marcar uma superfície. O στίγμα representa a marca distintiva resultante desta prática. Os gregos frequentemente utilizavam este recurso visual marcando criminosos, escravos e traidores com cortes ou queimaduras para que a sociedade evitasse tais pessoas, principalmente em ambientes públicos.

Na semana que passou, um adolescente tentou roubar uma bicicleta e foi pego por dois rapazes que, em represália, tatuaram "eu sou ladrão e vacilão" em sua testa. A tatuagem feita no menino revive assim um hábito de mais de 2.000 anos atrás.

Poderíamos nos enveredar por uma discussão sobre a impunidade no Brasil e a necessidade que alguns têm de fazer justiça com as próprias mãos. Ou falarmos sobre maioridade penal, já que o "ladrão" era menor de idade. Ou discutirmos sobre a violência de maneira geral, inclusive contra quem pratica um crime. Mas quando vi o que fizeram com o menino, três coisas me chamaram a atenção.

A primeira é o sadismo. A família do tatuador alega que este agiu por impulso. Mas alto lá: impulso é algo momentâneo. Um paroxismo do qual a pessoa se arrepende (aqueles que têm escrúpulos) nos segundos seguintes ao ato. Em uma ação impulsiva não haveria tempo de tatuar quase 20 letras na testa de alguém e ainda por cima filmar o ato e espalhar por aí através de aplicativos de mensagens e redes sociais. O que aconteceu foi resultado da liberação sádica do tatuador e do sujeito que estava filmando (voyeurismo?). Tanto que foram presos por tortura em conseqüência à irrupção perversa que tiveram.

A segunda é a recorrência de tais atitudes. O que ocorreu não é diferente dos vídeos que circulam por aí de ladrões sendo espancados, pessoas apedrejando cabeças, linchamentos, etc. O que ocorreu não é diferente das brigas de torcidas, onde pessoas são mortas a pauladas nos estádios ou em encontros marcados propositalmente para "resolverem as diferenças".

O que ocorreu, por fim, não é diferente do assassinato de Dandara, travesti espancada até a morte em Fortaleza. Não só de Dandara, mas de tantas outras pessoas, inocentes ou não, que sofrem com a impiedade do ser humano. Todos os eventos devidamente registrados e circulados para alimentar a fome de uma plateia perversa. Violência e sadismo

E por fim a última questão: incivilidade. A sociedade e as leis existem para que cada ser humano contenha seus impulsos mais animalescos em prol da vida em comum. O barramento da satisfação egoísta dos próprios impulsos para possibilitar a coexistência com outros. Se não houver esta contenção, viramos todos animais selvagens. Bárbaros. Damos vazão a impulsos violentos, como o sadismo.

E é o que vimos nesta semana. É o que vemos, infelizmente com frequência, no noticiário. Não só com o ladrão de bicicletas, mas com inúmeras outras pessoas. Isso nos aponta para um senso enfraquecido de civilidade. Na Grécia antiga, do começo do texto, havia apenas 21.000 cidadãos para 400.000 escravos. Ou seja, poucos desfrutavam da democracia e da civilidade (assim como no Brasil?). Já os escravos eram marcados, pois não tinham o status de cidadão. Estão a tratar os ladrões da mesma forma como os gregos tratavam os escravos.

Aquele de resposta rápida pode logo dizer que estou a defender o larápio. É evidente que não. A crítica é à maneira tosca e desumana como foi punido. Defendo a dureza nas penas àqueles que desobedecem as leis. Mas defendo tratar o ser humano como ser humano, e não como animal.

Infelizmente gestos como esses nos provam que somos capazes de involuir e retroceder mais de 2.000 anos no tempo. Enquanto uns defendem valores nobres para uma sociedade igualitária e justa, sem corrupção, outros são marcados e estigmatizados como gado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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