OPINIÃO

Por que a extrema-direita está crescendo?

A razão deste crescimento encontra diversos fatores causais, inclusive na psicologia social.

16/08/2017 18:33 -03 | Atualizado 16/08/2017 18:33 -03
Huffpost
Algumas características individuais estão ligadas à intolerância ideológica e política, como rigidez psicológica, pouca aceitação frente a ambiguidades, e autoritarismo.

Muitos olham o violento embate entre extremistas em Charlottesville como um fenômeno isolado, exclusivo dos Estados Unidos. A manifestação de grupos de extrema-direita seguida de investidas por parte de grupos contrários teve uma vítima fatal e dezenas de feridos.

O evento foi visto como mais um fenômeno relacionado à era Trump, tendo também fortes raízes nas cicatrizes que a guerra civil americana deixou na região desde o século XIX. Mas quando olhamos o quadro geral, vemos que o aumento dos movimentos de extrema-direita não é exclusivo daquele país.

Ele ocorre globalmente, inclusive no Brasil. Exemplos disso são os movimentos nacionalistas xenófobos na Europa, que se intensificaram após a crise migratória; e a ascensão do prestígio de partidos e candidatos de extrema-direita aqui no Brasil, depois do início da grave crise político-econômica pela qual estamos passando.

Questionamo-nos então por que tais movimentos, que frequentemente são ideologias de ódio, estão se propagando pelo mundo com tanta facilidade. A razão deste crescimento da extrema-direita encontra diversos fatores causais. E também na psicologia social podemos encontrar explicações para o fato.

Jarret Crawford e Jane Pilanski, do departamento de psicologia do The College of New Jersey, descrevem que algumas características individuais estão ligadas à intolerância ideológica e política, como rigidez psicológica, pouca aceitação frente a ambiguidades, e autoritarismo. No entanto, o fator que mais está associado à intolerância é a ameaça normativa. Isto é, a ameaça à coesão social e à ordem.

Segundo os autores, a motivação ideológica e política é orientada por duas dimensões: a primeira é uma dimensão caracterizada por conservadorismo social e tradicionalismo versus liberdade individual e autonomia. Já a segunda dimensão caracteriza-se por conservadorismo econômico, dominância de grupo e poder, versus igualitarismo.

O autoritarismo de uma direita extremista seria uma manifestação da primeira dimensão, e a orientação para dominação social estaria na segunda dimensão. Encontram-se em dimensões diferentes, tendo raízes psicológicas distintas. No entanto, estão bastante interligados.

O autoritarismo de extrema-direita deriva da crença de que o mundo é perigoso, cheio de ameaças para o indivíduo e para o grupo. Há uma experiência de perigo por parte do meio em que se vive. Para contrapor um mundo visto como caótico e ameaçador, faz-se a exigência por regras. E este apreço exagerado por normas é o celeiro do autoritarismo.

Já a dominância social deriva da crença de que a sociedade é uma selva competitiva. Nesta selva, haveria uma luta constante entre grupos por dominância e superioridade. Fomentam tais crenças a predisposição à obstinação e a experiência de competitividade no ambiente em que se vive (o que é corriqueiro nas sociedades ocidentais).

Diversos modelos estatísticos de equação estruturada mostram uma forte ligação entre os dois fatores, o autoritarismo de extrema-direita e tendência para a dominância social. A combinação de ambos leva ao fomento do ódio e da intolerância.

Assim, temos que uma ameaça à coesão social e à ordem, aliada a uma percepção de um mundo visto como ameaçador e competitivo, dão impulso a ideologias intolerantes de extrema-direita. É por isso que, tanto na crise migratória na Europa, quanto nos Estados Unidos de um presidente tido como maluco e sob ameaça de uma guerra nuclear com a Coréia do Norte, quanto no Brasil de uma gravíssima crise político-econômica, observamos a ascensão de uma extrema-direita fascista e raivosa. Ideologias de regras exageradas e de intolerância surgem para tentar contrapor o caos.

Além disso, sociólogos como Gerhard Falk, que estudam os processos de preconceito e discriminação, dizem que as sociedades em geral sempre tendem a discriminar determinado grupo de indivíduos. Para se fortalecer como grupo, um dos mecanismos utilizados é eleger um outro grupo externo (os outsiders) e descarregar sentimentos de ódio e desprezo nele. Ou seja, sentimentos ruins direcionados para alvos fora do grupo fortalecem o senso de união de seus integrantes.

Este processo de preconceito e discriminação acontece em todos os grupos. Desde o micro familiar (aqueles tidos como "ovelhas negras" da família), passando por grupos maiores como os de alunos em uma escola (bullying) ou torcidas de futebol, até macrogrupos como aqueles liderados por uma ideologia comum (partidos neo-nazistas, por exemplo). A fragilização do grupo o torna mais preconceituoso como uma maneira de recuperar sua coesão.

Assim, em momentos nos quais há uma fragilização maior da sociedade, é comum vermos o crescimento de movimentos de extrema-direita como resposta. Para que se recupere o senso de união de uma comunidade, alguns setores lamentavelmente fazem uso de recursos de ódio contra minorias. É por isso que vemos aumentar a xenofobia e a homofobia, por exemplo. Neste cenário, as ideologias extremistas encontram solo fértil para seu crescimento.

Em suma, enquanto tivermos uma sociedade sem coesão, com um fraco senso de ligação entre seus integrantes, observaremos, com cada vez mais frequência, o aumento de grupos intolerantes. Principalmente em momentos onde esta sociedade é tensionada, como nas crises econômicas e políticas.

Contribuem para a fraca coesão social o predomínio de atributos como competitividade inexorável, individualismo, egolatria, falta de altruísmo e indiferença ao próximo. Valores que infelizmente estão arraigados em nossa sociedade, e que são difíceis de mudar.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

LEIA MAIS:

- Não é só a depressão que leva ao suicídio

- A mentira está sistematizada na política brasileira

Os protestos contra decreto de Trump sobre imigrantes