OPINIÃO

O que o caso do garoto do Habib's nos mostra

Adolescente de 13 anos é mais uma vítima da agressividade, da intolerância, da invisibilidade, do preconceito e do problema da dependência química.

08/03/2017 10:59 BRT | Atualizado 09/03/2017 20:05 BRT
Reprodução
Morte de adolescente aconteceu na unidade do Habib's na Avenida Itaberaba, na zona norte de São Paulo.

Após ter sido noticiada a morte de um garoto de 13 anos em frente ao Habib's, depois de uma confusão envolvendo funcionários da lanchonete, as opiniões se dividiram.

O fato ocorreu no último dia 26 de fevereiro e até o início desta semana não se sabia a causa da morte. As hipóteses principais eram intoxicação por drogas (que foi confirmada terça-feira) e alguma lesão gerada por agressão física. Essa incerteza apenas serviu para atear fogo na fogueira das polarizadas discussões sobre o caso.

Sob suspeita de que o menino estivesse intoxicado por drogas e causando arruaça, uns diziam coisas como "é isso mesmo! Nóia tem que morrer mesmo!" e bradavam gritos de guerra aos usuários de drogas. Por outro lado havia aqueles que propagavam boicote à rede de comidas árabes, clamando por justiça.

O que primeiro salta aos olhos é a agressividade e a intolerância.

Sabe-se que muitos crimes são cometidos sob efeito de drogas e que o uso de drogas ilícitas, pelo que o próprio nome diz, está associado à criminalidade.

Parece que o menino muniu-se de um pedaço de pau e estava ameaçando depredar carros de clientes. Bom, o mesmo deveria ser preso, ir para a Fundação Casa (se funciona ou não é outra história...), pagar pelo que fez, ou pelo que ia fazer, enfim. Mas não merecia morrer. Em hipótese alguma.

Em segundo lugar, um menor de idade morrer de tanto usar lança-perfume reforça o problema da dependência química. Se fosse um caso isolado, em um país perfeito onde políticas de combate ao uso de drogas funcionassem, onde uma rede de saúde pública para o tratamento do dependente químico funcionasse, não haveria essa reação de repúdio.

Se houve essa reação, apesar de inadequada e injustificável, é porque há um problema com o uso de drogas. É uma questão cotidiana para todo paulistano; quem não se lembra dos meninos que cheiravam cola no centro de São Paulo? A cola cedeu lugar ao crack, muito mais devastador e mortal.

A dependência química é um problema crônico de saúde pública. Em São Paulo e no Brasil.

Dos distúrbios psiquiátricos, é de longe o mais estigmatizado, ainda mais quando falamos de cenários onde casos não tratados são a regra, e não a exceção.

Assim, a terceira questão diz respeito ao estigma; a falta de tratamento reforça o preconceito. Pois a pessoa intoxicada pode mais facilmente tomar atitudes inconsequentes.

Aquele viciado em crack e cocaína, em estágios avançados da doença, pode roubar coisas para sustentar o vício. As histórias de gente de posses que vivia bem e que agora está na cracolândia vivendo para a droga são inúmeras.

Um contingente grande de dependentes químicos, políticas de saúde pública ineficazes e falta de aparelhos de saúde mental deixam o usuário ao léu, sem tratamento.

Isso tudo acaba por facilitar reações negativas para com o dependente. É mais fácil estereotipar, é mais fácil discriminar; é mais fácil ter raiva, ter preconceito, é mais fácil rejeitá-los.

Pois boa parte deles está por aí, sem tratamento, fazendo besteira. E são eles que acabam pintando a imagem da dependência química.

Quarto problema, e talvez o mais grave: o da invisibilidade. Uns apoiam as medidas duras contra o menor arruaceiro, outros propõem represália à agressão e à atrocidade de um possível homicídio.

Todos estão interessados em saber o conteúdo do vídeo, se de fato houve ou não agressão. Mas poucos se dão conta de que um menor de pouco mais de 13 anos morreu na rua, em plena luz do dia, por ter usado muita droga.

Ele permanece invisível. Parece que estamos anestesiados a esse fato. Já estamos acostumados.

Como citado antes, a invisibilidade desses menores é uma tradição herdada dos cheiradores de cola de sapateiro. Esses meninos não apareceram do dia para a noite. Eles estão aí já há muito tempo.

As políticas de saúde pública eleitoreiras e pouco eficazes, mais destinadas à mídia do que ao problema real, tratam esses menores como invisíveis. A cronicidade desse problema os deixa mais invisíveis.

Por último, até mesmo o boicote ao restaurante, a meu ver precipitado e um pouco arbitrário, mostra certo grau de intolerância. Parece que estamos tão cansados com a intolerância que começamos a ser intolerantes também.

Enfim, não há uma cultura da rede de lanchonetes de achincalhar pedintes e moradores de ruas. Entendo que tenha sido um fato isolado, de responsabilidade dos funcionários envolvidos ou até mesmo do gerente da loja... Agora, a rede toda?

Fica a impressão de que o balde está cheio, prestes a transbordar. Chega de violência, chega de agressão, de injustiça.

Sim, chega; mas também não vamos combater isso com medidas injustas. É a intolerância que gera agressão. É a intolerância que gera a polarização nos debates.

Fato é que, mesmo o menino tendo morrido de overdose, isso não exime os funcionários do crime de uma suposta agressão corporal a um menor de idade. Se o fizeram, terão de pagar caro por isso, sem sombra de dúvida. Mas para isso teremos de aguardar o julgamento dos fatos.

Registro aqui meus sentimentos à família do menino, mais uma vítima da agressividade, da intolerância, da invisibilidade, do preconceito e do problema da dependência química.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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