OPINIÃO

O que o caso de Fabio Assunção nos ensina sobre o preconceito e dependência química

A dependência química é um distúrbio e precisa ser tratada como tal.

29/06/2017 14:07 -03 | Atualizado 29/06/2017 14:07 -03
Divulgação
O ator Fábio Assunção foi preso na sexta-feira (23) após confusão em uma festa de São João, no interior de Pernambuco.

As doenças mentais frequentemente são alvo de preconceito. Olhando a literatura científica sobre o assunto, vê-se que dois são os transtornos com maior índice de discriminação: a esquizofrenia e, em primeiro lugar, o uso de substâncias.

Há alguns dias, o ator Fábio Assunção foi filmado por câmeras de celulares em episódio onde foi preso por desacato a autoridade. Claramente alterado, desafiava pessoas, gritava, ameaçava brigar, e quebrou o vidro da viatura que o levou à delegacia.

Como consequência, a Globo exigiu que o ator se tratasse da dependência química e do alcoolismo. Além disso, retirou suas imagens das chamadas de uma série em que atuou, com medo de recriminação à série por associação à sua imagem.

Com efeito, o repúdio ao ator se espalhou pelas redes sociais após o incidente. Fábio Assunção já falou publicamente de seu problema por diversas vezes, a doença não é segredo para ninguém, mas o caso deste final de semana é emblemático para a questão do estigma. Qual a razão de o vício em drogas estar tão associado a preconceito e recriminação? A questão é complexa. Mas citemos três dos muitos fatores.

Recaídas são frequentes

O tratamento da dependência química é difícil, e costuma se dizer que recaídas são comuns. As drogas envolvem prazer. E abrir mão de um prazer é difícil para qualquer ser humano.

Afora o componente psicodinâmico, há a questão da abstinência. As drogas mexem biologicamente com nosso circuito cerebral de recompensa. Na abstinência, além da ansiedade e angústia, dependendo da droga, há sintomas físicos como mal-estar, sudorese, taquicardia, etc.

Segurar a fissura por drogas é difícil e requer persistência, força de vontade e treinamento por parte do paciente. Com a recaída, voltam os sintomas e a pessoa se intoxica. Sintomático ou intoxicado pelo uso da substância, acaba gerando uma imagem ruim e estereotipada de quem sofre com a dependência.

O uso de drogas envolve uma questão moral

Primeiramente porque, tirando o álcool, são drogas ilícitas. Então, a comercialização de drogas é contra a lei.

O segundo fato é que o uso de álcool e outras drogas está associado à criminalidade. Há estudos que mostram que o uso de drogas na adolescência predispõe o indivíduo a atos delinquentes mais tarde, além de predispor à dependência. Muitos perdem a cabeça sob o efeito de entorpecentes e furtam, roubam, matam. Ou usam a droga simplesmente para ter coragem para fazer estas coisas.

A prevalência de distúrbios de uso de substâncias na população carcerária é muitas vezes maior do que aquela da população geral. Mas crime é uma coisa, e transtorno de uso de substâncias é outra. Por mais que possa haver uma relação, atitudes criminosas têm de ser separadas da dependência química. Não são a mesma coisa, e cada qual deve ser abordada com o que se exige para cada uma.

Fábio cometeu o crime de desacato e precisa ser julgado, mas tem também um distúrbio que precisa ser tratado. Afinal, quantos alcoólatras não são simplesmente achados dormindo por aí nos finais de festa? Na verdade, a maioria são estes e não os que bebem e cometem crimes.

Muitas vezes os pacientes não querem se tratar

Abrir mão do prazer da droga não é fácil, como posto anteriormente. E reconhecer que este prazer é problemático também é difícil. É muito comum que as pessoas não reconheçam que têm um problema com drogas. "Quando quiser eu paro", "só uso de vez em quando", "tenho controle do uso" são chavões frequentes de quem tem o transtorno, mas não admite.

O fato de não se reconhecer doente contribui para uma concepção corrente (do paciente e da sociedade) de que a pessoa usa porque quer, e não porque é uma doença. Aqui está uma complicação. Sim, muitos usam porque querem. Mas muitos também têm um uso disfuncional e não conseguem parar de usar. No entanto, exclui-se esta concepção e toma-se o todo pela ideia da escolha.

Tira-se a doença da jogada e coloca-se a questão como uma opção individual. Se não se tivesse conhecimento do problema de Fabio, não seria taxado como "o drogadão da Globo", como dito no vídeo. Ele paga pela fama também, pois se ninguém o conhecesse, o vídeo possivelmente geraria comentários muito diferentes: "bah, mais um bebum dando vexame, e daí".

Enfim, não se trata aqui de julgar o ator. Mas sim de percebermos como é fácil descarregar o preconceito quando assistimos ao episódio. E de entendermos também porque a dependência química é o distúrbio psiquiátrico mais discriminado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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