OPINIÃO

O preconceito que cresce a cada dia no Brasil

Estranho pensar que no "país do carnaval", onde valores como a liberdade e a flexibilização das regras são defendidos, possa haver tanta discriminação.

30/11/2017 11:25 -02 | Atualizado 30/11/2017 11:25 -02
Raphael Dias via Getty Images
Na semana passada, a atriz Taís Araújo recebeu críticas por denunciar o racismo sofrido por seu filho.

Lembra quando você ia todo contente falar para a sua mãe "Feliz Dia das Mães" e ela te olhava, com um misto de agradecimento e pesar, e falava que Dia das Mães deveria ser todos os dias? Talvez sim, devesse. Pois se estamos aqui, é graças a elas. Evidentemente é impossível celebrarmos diariamente o dia delas, então uma data específica no ano acaba simbolizando o sentimento de gratidão que devemos carregar conosco diuturnamente, nos outros 364 dias.

O mesmo deveria acontecer com o Dia da Consciência Negra. Devíamos nos lembrar, todos os dias, que infelizmente ainda somos um país muito preconceituoso. E esse desconforto deveria nos acompanhar por todos os dias do ano. Pois não basta lutarmos contra o preconceito durante um só dia no ano. Também porque é justamente nos pequenos chistes do dia a dia que percebemos o quanto ele ainda permeia nossa sociedade. Todos os dias.

O evento emblemático mais recente foi o de William Waack, que em um comentário despretensioso (?), fora das luzes das câmeras, proferiu uma das tradicionais expressões racistas de nossa língua. Podia ter falado muitas outras. Em tom de brincadeira, com raiva, inconformado, ou não, pouco importa a motivação. O que importa é que dali escorregou um conceito que sub-repticiamente (ou não) está presente de forma disseminada em toda nossa sociedade, o da diferença racial.

Vi muitos o defenderem. Caça às bruxas. Que bruxas? Guerreiros do politicamente correto fazendo vítimas. Será? Se ninguém tivesse filmado o comentário de âmbito quase privado nada teria acontecido. Li depoimentos de que Waack não discriminava. Discriminação diz respeito ao ato. O preconceito, às ideias. Alguém pode manter um íntimo extremamente preconceituoso, com ideias mortíferas de ódio racial, e na superfície comportar-se de maneira igualitária.

Não deixa de ser errado, do mesmo jeito. Mas ter somente preconceito é menos errado do que ter preconceito e discriminar. Aí talvez entre uma crítica com algum (atenção, apenas algum) sentido sobre a patrulha do politicamente correto. Não dá para monitorar a vida privada e os pensamentos das pessoas, e dizer o que é certo e o que é errado. Que não se pode pensar isso ou aquilo das pessoas.

Talvez em uma distopia de Orwell, possamos imaginar pensamentos sendo monitorados. Fazemos isso com nossos filhos, "não pensa isso de sicrano", "não fala isso de beltrano". Agora com adultos, não. Enfim, podemos apenas punir atitudes.

Mas Waack foi flagrado em atitude na qual sarcasticamente emitiu juízo preconceituoso. Aí não tem mais volta. Imaginem se a emissora o mantém no jornal? Tal ato seria lido como conivência a ideias preconceituosas. O ocorrido simboliza o preconceito que permeia a sociedade e que vaza a todo instante por meio de comentários, piadas, expressões de nossa língua utilizadas corriqueiramente.

Diria o cético que não dá para generalizar a atitude do jornalista para a população como um todo. Evidente, por isso ele apenas simboliza. Para vermos o que simboliza é só olharmos para os números. Segundo o IBGE, negros e pardos ganham em média 55% do rendimento dos brancos; 33% apenas são empregadores.

Negros representam 54% da população brasileira, mas sua participação no grupo dos mais pobres é de 75%. Entre o 1% mais rico, apenas 17,4% são negros. Em 2014, a parcela da população negra trabalhando na informalidade era de 48,4%, enquanto que a da população branca era de 35,3%.

De 2003 a 2014, o número de pessoas brancas mortas por armas de fogo caiu 26,1%. Em contrapartida o de pessoas negras aumentou 46,9%. A taxa de analfabetismo é duas vezes maior entre negros. Existem estatísticas aos montes, os dados são fartos, basta procurar. A arcaica estrutura da casa-grande e senzala, que se perpetua, permeia a sociedade e resiste ao longo dos séculos.

Mas o preconceito não para por aí. Vamos pensar na filósofa Judith Butler, agredida no aeroporto de Congonhas por defender o combate ao preconceito sexual. Vamos lembrar os inúmeros casos de homofobia que pipocam frequentemente no noticiário. Vamos pensar nos doentes mentais e em outras diversas minorias hostilizadas e discriminadas.

Estranho pensar que, no país que se autoproclama o "país do carnaval", onde valores como a liberdade e a flexibilização das regras são defendidos, possa haver tanto preconceito. Tanta rigidez de pensamento.

Um grande passo para mudar o panorama é reconhecermos que o preconceito está por toda parte. Existe não só contra os negros, mas contra todas as minorias. É nosso dever carregarmos e nos lembrarmos disso a todo instante.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

Exposição "Pourquoi Pas?"