OPINIÃO

O mito consumista da Black Friday

Não há problema nenhum com o consumo. O problema é quando ele se hipertrofia. E isso tem acontecido com razoável frequência.

24/11/2017 12:52 -02 | Atualizado 24/11/2017 12:52 -02
Benoit Tessier / Reuters
Por aqui, Black Friday já virou Black Fraude para alguns.

A roda precisa girar. Não há como ser diferente. Já tentaram outros esquemas, mas não deram certo; o capitalismo foi o que mais funcionou para o homem. Pelo menos foi o que mais se adaptou ao seu momento histórico. O consumo gera emprego, emprego gera renda, renda gera mais consumo, consumo mais emprego, e por aí vai.

Em teoria, esse funcionamento está alinhado à nossa evolução. É um modus operandi crescente, que impulsiona, que nos põe para frente. Uma retroalimentação positiva que gira a roda do desenvolvimento. Coisas novas surgem, inovações chegam ao alcance do consumidor, trocamos bens, ficamos cada vez mais "modernos", mais se pesquisa para que as coisas se modernizem, e assim a coisa vai caminhando. Compare a vida de hoje em dia com a vida de 30 anos atrás.

Um mecanismo que põe as coisas para andar, exatamente como o desejo humano. Para Freud, o desejo humano nasce pela falta. Só vamos atrás do que nos falta. E só vamos atrás porque nos falta. Se nada nos faltasse, ficaríamos no mesmo lugar, saciados, inertes. Então só vamos para frente por conta de um vazio, para completar aquilo de que carecemos. A questão é que a saciedade é uma sensação passageira. Quando ela passa, começamos a sentir falta novamente, e assim vamos andando, desejando, levando nossa vida.

Talvez por isso o consumismo tenha se dado tão bem com o ser humano. Pois este se encaixa exatamente dentro da engrenagem de nosso motor volitivo, mobilizando-nos pela falta. Muito do que nos falta nos chega pela propaganda. Sempre está faltando algo. Mesmo quando de fato não está, surge aquele carro fantástico do comercial, aquela paisagem paradisíaca da televisão, aquele estilo de vida do personagem da novela, para nos lembrar de que sim, falta. O céu é o limite. E daí o consumismo.

Antes que seja acusado de comunista: não tenho nada contra esse modo de operação. Qual o problema de comprar um gadget sem o qual você viveria perfeitamente bem? Qual o problema de consumir algo que te fará bem, que melhorará sua qualidade de vida? Qual o problema em pagar por uma parafernália tecnológica, seja ela grande ou pequena, que inova sua maneira de viver?

Nenhum. Faz parte do jogo, e é com isso que nossa sociedade evolui. Isso apenas impulsiona as coisas, em um efeito dominó, de modo que progressivamente galgamos degraus rumo ao desenvolvimento.

Não há problema nenhum com o consumo. O problema é quando ele se hipertrofia. E isso tem acontecido com razoável frequência.

Escreve Yuval Noah Harari, em seu best-seller Sapiens:

"Se a felicidade é determinada por expectativas, então os dois pilares de nossa sociedade – os meios de comunicação em massa e a indústria da publicidade – podem, sem querer, estar esgotando as reservas de contentamento do planeta."

A felicidade como cumprimento de expectativas, daquilo que falta, a felicidade como satisfação de desejos. A cada dia que passa somos mais e mais expostos às "tentações" consumistas. Em idade cada vez mais tenra. Espera-se cada vez mais que tenhamos x ou y produto. Espera-se isso de nós. O comercial de margarina mostra que a felicidade (só?) vem com aquela margarina.

Outdoors, propagandas nas revistas, jornais, programas de televisão, estilos de vida glamourizados que queremos copiar, padrões a serem seguidos (ou você será um outsider), os sutis códigos de modismos que se espalham sem que se saiba claramente qual a fonte (desde os hand-spinners até as calças Flare). Os ritos anuais de compras, como Dia dos Namorados, Natal, e por fim, a Black Friday.

Novamente, não há problema nenhum com o consumo dessas coisas. A questão é a hipertrofia do consumo. O esgotamento das reservas de contentamento pelo exagero, pela avalanche da publicidade. A criação de vazios cada vez maiores, a serem preenchidos pelo consumo. O contentamento que nunca é alcançado. Com isso, o descontentamento perene. O impulso desenfreado, descontrolado. A irresponsabilidade, a futilidade, a superficialidade.

Por aqui, já virou Black Fraude para alguns. Para minha surpresa, diversas matérias sobre como não agir impulsivamente, como não cair em golpes e falsos descontos. Gotas de moderação em um oceano onde todos brigam pela sua atenção. E pelo seu dinheiro.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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