OPINIÃO

Internações involuntárias podem salvar vidas

O método deve ser uma exceção e não a regra de tratamento, mas é importante que ele exista.

02/06/2017 10:10 -03 | Atualizado 02/06/2017 10:21 -03

Pixabay

Não sabiam direito se deviam tomar ou não, então a pequena comitiva de jovens sentou-se no local planejado para deliberar sobre o assunto.

— Cara, não pensa coisa ruim senão vai bater mal! Vai na confiança — Arthur estava relutante, mas disse aos colegas que se eles pensassem em coisas ruins teriam uma bad trip.

Após certo tempo de diálogo, todos decidiram tomar a droga. O local onde estavam parecia seguro; um descampado perto de um moinho abandonado. Ao planejarem o uso de LSD em conjunto, pensaram que ali nada de ruim poderia acontecer.

Inicialmente, sentiram-se relaxados. Mas alguns instantes depois a viagem começou a ficar sombria. As alucinações eram vívidas e os pensamentos ficaram cada vez mais perturbadores. Aterrorizados, decidiram se dissipar, ir cada um para a sua casa. Arthur tentou. Correu. Mas estava perdido. Sentia que estavam atrás dele. Não sabia dizer quem. Pensava que as pessoas dentro dos carros olhavam para ele e faziam comentários ruins.

"Onde estou?", foi a última mensagem que mandou aos seus amigos. Vagava atordoado, andando em ziguezague pelo campo gramado. Pouco tempo depois, fugindo da própria viagem, não viu que o chão acabara e despencou de um precipício de 20 metros de altura. Morreu ali, aos 15 anos, após fraturar o crânio.

"You fell from the sky

Crash landed in a field

Near the river Adur"

A história acima descreve a morte de Arthur Cave em 2015. Arthur era filho de Nick Cave, premiado músico e compositor australiano que estrela a trilha sonora de War Machine, novo filme da Netflix com Brad Pitt no papel principal. Após a morte de Arthur, Nick dedicou algumas músicas ao filho, incluindo Jesus Alone, da qual foi tirado o excerto acima.

A situação na Cracolândia tem levantado diversas questões, entre elas a controvérsia da internação involuntária. Muitos se posicionam contra o procedimento. Mas é preciso fazer alguns esclarecimentos.

A um primeiro olhar, ela parece uma violação dos direitos humanos. Internar alguém contra a própria vontade; como assim? Atitude higienista? "Bicho de sete cabeças"? Mas o caso acima ilustra uma das situações nas quais isso se faz necessário: perda de juízo e crítica por intoxicação por drogas.

O uso de drogas leva a uma turvação da consciência e frequentemente também a sintomas psicóticos. Significa ver coisas que não existem e acreditar em coisas que não estão acontecendo. A pessoa perde a crítica do que é real e imaginário, e pode fazer besteiras, como o filho de Nick.

Como a capacidade de julgamento está alterada pela substância, é autorizado que um médico avalie a pessoa e a encaminhe para internação, mesmo que a pessoa não queira. Não só é autorizado, como é necessário. Se Arthur tivesse sido abordado, provavelmente se recusaria a ser levado para um hospital. Estava se sentindo perseguido. Tudo teria de ser feito involuntariamente. E talvez ele ainda estivesse vivo hoje.

As alterações de crítica e julgamento são muito frequentes com o LSD, e também com o crack. Só quem já conviveu ou lidou/tratou de um usuário de crack sabe o quanto é difícil manejar pessoas com a dependência. A pedra deixa o indivíduo cego; rouba para comprar mais droga, deixa para trás familiares, amigos, a vida inteira. Tudo para alimentar o vício, entrando em um looping crescente de degradação física e psicológica.

Os relatos são diversos. As reportagens de pessoas que deixaram tudo para trás existem aos montes. Se ninguém nunca viu um "zumbi" vagando no meio da rua, inebriado pelo efeito da droga, agora terá mais chances de fazê-lo, uma vez que o fim da cracolândia-marco-zero criou diversas outras cracolândias espalhadas na cidade, expondo o paulistano ao que era aquilo.

Dessa forma, a internação involuntária é uma ferramenta importante para lidar com o indivíduo intoxicado. Sob efeito da pedra, ele não terá crítica do que está fazendo, e evidentemente não concordará em receber cuidados, em ser internado para que não agrida alguém, cometa algum crime, ou faça algo contra si mesmo.

Passado o efeito da droga, recuperado o juízo de realidade (trocando em miúdos, quando o sujeito volta a si), aí sim tem de se deixar o indivíduo decidir o que quer fazer. Para o tratamento, precisamos da vontade, do desejo da pessoa. Ela tem que querer parar. Não dá para "parar de usar à força".

Assim, a internação involuntária é ferramenta que pode ser muito importante no começo do tratamento. De exceção? Sim. Mas ela pode salvar vidas em alguns casos.

Não dá para riscarmos de nosso arsenal terapêutico. Claro, ela já foi muito usada no passado sem qualquer critério. Mas isso é história para outro post. Hoje em dia, ela é fiscalizada pelo Ministério Público e sempre avaliada cuidadosamente por um médico.

Precisamos da internação compulsória às vezes. Pois droga mata. Como vimos acima, não só no Brasil, não só na Cracolândia. Essas coisas acontecem não só com o crack e não só com pessoas pobres. Temos de estar alertas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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