OPINIÃO

Foi só o bullying?

Se houvesse uma associação causal, a incidência de tiroteios em escolas seria muito maior, tendo em vista ele ser um fenômeno comum.

27/10/2017 19:35 -02 | Atualizado 27/10/2017 19:35 -02
bodnarchuk via Getty Images
Estudo finlandês com nove mil adolescentes entre 14 e 16 anos observou que 17% dos meninos sofriam bullying.

Quando eventos que nos assustam acontecem, há uma tendência natural de procurarmos um culpado, pois aquilo que nos assusta é o que foge da rotina, do cotidiano, do habitual. Foge do normativo, do que estamos acostumados a ver todos os dias. E nós não lidamos muito bem com o estranho. Quando essa quebra normativa envolve a violência, o medo é potencializado. E queremos apaziguá-lo com algum tipo de informação ou explicação.

Foi o que aconteceu com o menino que saiu atirando em seus colegas em uma escola em Goiás. A primeira explicação, explicitada pelo autor dos disparos e abraçada por muitos, era a de que aquilo tudo tinha ocorrido por causa do bullying feito por seus colegas.

O bullying causa uma série de consequências danosas para o indivíduo, sim. Um estudo finlandês com nove mil adolescentes entre 14 e 16 anos observou que 9% das meninas e 17% dos meninos passavam ou já tinham passado por experiências de bullying. Ou seja, é um fenômeno relativamente comum, ao contrário do que muitos pensam.

Boa parte dessas crianças tinha sintomas ansiosos e depressivos, além de várias manifestações psicossomáticas. A média dessas manifestações era superior à observada em crianças que não eram vítimas.

O bullying leva a sentimentos de menos-valia e baixa autoestima e é por isso também que se associou frequentemente a uma maior taxa de distúrbios alimentares entre meninas. Esses achados todos foram replicados diversas vezes, em vários lugares do mundo.

Mas daí a inferir que o bullying gerou a morte dos alunos em Goiás é uma explicação muito simplista. Em nenhum lugar foi relatado que o bullying é gerador de homicídios.

O que pode se dizer foi que a discriminação foi um mero gatilho da violência ocorrida semana passada. Se assim não o fosse, se houvesse uma associação causal, a incidência de tiroteios em escolas seria muito maior, tendo em vista ser o bullying um fenômeno comum.

Sendo apenas um gatilho, precisamos olhar para algumas outras coisas.

Outros fatores

O bullying não é particularidade de escolas. Ele ocorre no ambiente de trabalho, nas famílias, na internet, em todo e qualquer grupo. Desde microgrupos, como pequenas salas de aula, até macrogrupos, como a sociedade. Só damos nomes diferentes a ele. Na sociedade, por exemplo, chamamos de preconceito e discriminação.

Como gosto de falar, todo grupo, para se fortalecer, vai eleger um elemento extragrupo para descarregar ódio. Esse mecanismo pode ocorrer em todos os grupos, independentemente de seu tamanho.

Por ser uma ocorrência comum (só ganhou um nome chique hoje, mas certamente na sua escola também tinha essa prática), passamos a pensar o porquê da reação violenta. Não foi um ato impulsivo-passional. O menino planejou a ação por dois meses. Foi uma violência programada.

Uma das coisas que li me chamou a atenção: classificar o ato como bullying ou como uma brincadeira normal vai depender da vivência subjetiva do indivíduo. Assim sendo, algo de errado havia com o subjetivo deste menino. Há aqueles que chegam na classe de aula, são satirizados e reagem com um xingamento, uma briga, um sopapo (o que talvez leve à cessação do bullying). Há aqueles que reagem retraindo-se. Há aqueles que se deprimem. E há aqueles (extremamente poucos) que atiram nos colegas. Tudo depende do subjetivo que foi construído na pessoa até aquele momento.

Portanto, infelizmente, uma quantia enorme de agressividade estava presente no subjetivo daquele menino.

Por qual motivo? Por causa da família? Pais policiais, arma em casa? Por causa da sociedade? Por conta da cultura? Por conta da agressividade dos colegas no trato com o menino? Permissividade da escola? Ambiente perverso em casa, na escola, ou com os amigos?

Não dá para saber ao certo, realmente. Talvez um pouco de cada coisa. Mas uma coisa podemos citar: a espetacularização de tais crimes por parte da mídia. O menino citou Columbine e Realengo. Casos que receberam enorme atenção da mídia. Pois essas coisas chamam a atenção, e a mídia quer plateia. Mesmo tendo uma incidência ínfima, tais crimes foram tratados como epidemia, a serviço do mercado.

É assim, também, uma agressão. São agressões que nos infiltram diariamente. E não percebemos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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