OPINIÃO

Corrupção, ganância e exclusão na guerra da Rocinha

A favela se inclui no cenário urbano ao oferecer um pouco de sua exclusão sob forma de produto: a droga.

29/09/2017 13:15 -03 | Atualizado 29/09/2017 13:15 -03
Bruno Kelly / Reuters
Após tiroteio entre gangues, a polícia e as Forças Armadas passaram a atuar na Rocinha.

Qual foi uma das primeiras coisas que subiu o morro após a instalação das UPPs? O mercado. Bancos, casas lotéricas, varejistas, redes de fast-food. Não há como negar, tem muita gente lá. E o fato de ter muita gente acaba atraindo o interesse de certos setores, como o comércio, por exemplo.

O Censo de 2010 do IBGE contabilizou que, há sete anos, quase 1,4 milhão de pessoas moravam em favelas no Rio de Janeiro. Isso totalizava, à época, 22% da população carioca. Em 2014, o número de moradores já passava dos dois milhões. É um mercado e tanto.

Mas antes de subirem as UPPs, antes de subirem os varejistas e bancos, uma coisa já estava presente no morro há muito tempo: o mercado do voto.

Já fui para o Rio algumas vezes. É realmente uma Cidade Maravilhosa. A combinação de metrópole com praia, a Mata Atlântica que insiste em aparecer por entre o asfalto da rua e o concreto das edificações, os acidentes naturais espalhados por todos os lados, ícones mundiais como o Cristo Redentor e o Maracanã.

E tem as favelas. Amontoados densos e desajeitados de casas, fios clandestinos a torto e a direito, e gente. Gente precisada, marginalizada. Gente subjugada aos caprichos dos traficantes. O pensamento não poderia ser diferente: por que não acabar com isso?

Não há interesse.

Por três motivos: 1) os traficantes têm dinheiro, a droga é um negócio lucrativo; 2) os traficantes têm influência; quer população mais obediente do que aquela sob a ditadura da bala? 3) e, por fim, a população da comunidade tem título de eleitor.

Muitos sociólogos defendem a teoria de que, na favela, há um duplo clientelismo, que faz que ela se perpetue por décadas.

O tráfico

O primeiro deles é o clientelismo moradores-traficantes. A favela é uma metáfora da exclusão. Da favela sai a droga, que é ilegal, portanto excluída das leis vigentes, e cujo papel é fazer que o usuário se desligue e/ou modifique sua realidade, ainda que momentaneamente.

A favela é um país a parte, com suas próprias regras em uma legislação informal controlada pelos chefes do tráfico. São eles também que controlam o fornecimento de gás, mercadorias, e assim por diante, a uma população carente e marginalizada.

Constrói-se assim um clientelismo pelo qual os traficantes oferecem serviços e segurança à população em troca de proteção da polícia e de outros traficantes. Apesar das limitações, os traficantes são uma fonte regular de serviços a muitos moradores das favelas em um ambiente onde os serviços do Estado são erráticos e extremamente limitados.

Assim, a favela se inclui no cenário urbano ao oferecer um pouco de sua exclusão sob forma de produto: a droga.

A política

O segundo clientelismo é aquele constituído por traficantes e políticos. Traficantes trocam demandas ao Estado por um eleitorado fiel. Esta troca de favores é mediada por líderes de comunidade e traficantes, que fazem o meio de campo entre políticos e a população.

Com isso, a relação comunidade-políticos fica menos pessoal do que a comunidade-traficantes. A política acaba não aparecendo. Mas é um meio pelo qual a favela se faz representar na política (isso é mesmo democracia?).

A favela se inclui ao oferecer seu voto, que por outro lado acaba perpetuando sua condição marginal, excluída. O mesmo mecanismo foi visto na Jamaica de 1980, com políticos muitas vezes patrocinando o tráfico em troca de eleitorado. E do mesmo modo na Colômbia... Traficantes têm conexões fortes no Estado e na sociedade civil.

E quando o sistema rui? Quando falta dinheiro, ou quando acaba a influência. Escreve Enrique Desmond Arias, professor de políticas públicas na George Mason University, que "em um nível mais profundo, as relações que muitos políticos mantêm com traficantes de drogas significam que o crime ficou imiscuído no sistema político e é improvável que seja controlado sem uma grande mudança política".

Em um Estado falido onde a força-tarefa da Lava Jato tenta acertar as contas com a abissal corrupção que sempre tomou conta do País, era previsível que esta homeostasia fosse se romper.

A atual guerra que estamos presenciando na Rocinha é, assim, fruto de uma mistura de fatores como corrupção, ganância (dos políticos e traficantes que querem sempre mais) e exclusão (o comércio da droga, o morro, os moradores marginalizados). O triste é saber que todas essas coisas vão continuar por lá, e que haverá trégua não porque elas acabarão, mas sim porque algum tipo de acordo entre bandidos e governantes foi feito.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade. ​​​​

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