OPINIÃO

Assédios na Paulista mostram que nossa sociedade está doente

Enquanto não resolvermos esta grave crise moral, política e econômica, o senso de pertencimento a uma sociedade regida por leis será cada vez mais fraco.

31/08/2017 18:35 -03 | Atualizado 31/08/2017 18:35 -03
REUTERS
Nesta semana, um homem ejaculou em uma mulher em um ônibus de São Paulo.

Nesta semana, um homem ejaculou em uma mulher em um ônibus de São Paulo. No dia seguinte ao ocorrido foi noticiado que outra mulher também havia sido abusada (foi tocada nos seios pelo agressor), também em um ônibus, também na avenida Paulista.

O primeiro comentário que comumente ouvimos sobre assédio sexual é de que isso "é doença". Sim, este tipo de ato é doentio, e quando ele acontece recorrentemente nos mostra que nossa sociedade está doente.

Há diversos conceitos de doença. Principalmente na psiquiatria, há um longo debate sobre o normal e o patológico, o são e o doente. Mas, grosso modo, doença na medicina implica em mal funcionamento de um órgão. Estendendo-se este conceito para outras áreas do conhecimento, geralmente falamos que alguma coisa está doente quando observamos uma disfunção, uma alteração de suas funções normais.

Pois bem, é um tanto quanto redundante falar isso, mas uma das funções primordiais da sociedade é inibir impulsos agressivos e/ou sexuais de maneira a possibilitar a vida em comunidade. Deixamos de obedecer aos nossos impulsos mais primitivos porque há regras, há leis, há punições.

Não que isso faça desaparecer nossos impulsos. Atire a primeira pedra aqui quem nunca quis esganar o chefe. Mas do pensamento raivoso impulsivo ao ato, há um longo percurso.

Emile Durkheim foi um dos primeiros sociólogos a discutir isso no século XIX. Estudando os diversos tipos de suicídio, pontuou que há épocas em que o senso de sociedade se enfraquece, e isso deixa o indivíduo mais às voltas com seus próprios demônios.Durante guerras, períodos de instabilidade econômica, períodos de incerteza política, por exemplo.

A sociedade fragilizada seria menos capaz de nos fornecer laços sociais. Estaríamos menos ligados uns aos outros, mais a sós com nós mesmos, e mais vulneráveis aos nossos instintos. No estudo de Durkheim, sem o lastro social, toda sorte de doença mental aumentaria, consequentemente aumentando o número de suicídios.

Mas isso vale não só para os transtornos mentais mas também para atos de desrespeito e de violação de outras pessoas. Uma sociedade doente desperta a doença singular ao indivíduo. Seja ela uma doença mental propriamente dita, seja um ato sociopático como os ocorridos em ônibus nos últimos dias.

O segundo sentido no qual podemos chamar isso de doença entra pela discussão do sexismo. Não são raras as demonstrações de machismo em nosso país, e os crimes contra a mulher também não são infrequentes. Muito pelo contrário, assustadoramente eles têm aumentado nos últimos anos.

Em 2016, por exemplo, a Delegacia de Polícia do Metropolitano registrou um aumento de cerca de 350% nos casos de abuso sexual cometidos nos trens de metrô, em comparação com o ano anterior. A questão da violência contra a mulher é um problema crônico no nosso país, perpetuado muitas vezes pela impunidade e pela negligência em registrar determinados crimes como relacionados ao gênero.

É um problema que encontra no nosso país de cultura machista um solo fértil para sua persistência e crescimento. Certamente uma sociedade menos disfuncional, onde não houvesse o desrespeito doentio à mulher, ofereceria uma resistência maior à realização destes crimes.

Por fim, o caso pode se tratar de uma doença de fato. Pode no sentido hipotético mesmo, pois não dá para saber ao certo. Há um distúrbio sexual denominado frotteurismo, no qual a pessoa só consegue obter prazer sexual ao esfregar sua genitália em outras pessoas, geralmente em transportes públicos.

Claro que para ser considerado um caso de doença, além de outros comemorativos a serem examinados por um profissional de saúde mental, a pessoa somente pode conseguir obter prazer desta forma (é uma parafilia). Evidentemente, deve haver um grande desconforto no indivíduo, já que ele só consegue se estimular desta maneira.

As pessoas com parafilias enfrentam a ambivalência de seus desejos, que só podem ser satisfeitos de maneira disfuncional. Já presenciei casos em que a pessoa se via de tal maneira incomodada com seu distúrbio que pensava que a única maneira de se "curar" seria a mutilação do próprio pênis (e de fato tentou isso).

Mas enfim, é uma doença rara. Não dá para pensarmos que vivemos em São Paulo uma epidemia de frotteurismo. O que há é desrespeito mesmo, na imensa maioria dos casos.

Enfim, enquanto não resolvermos esta grave crise moral, política e econômica pela qual estamos passando, o senso de pertencimento a uma sociedade regida por leis será cada vez mais fraco, e com isso será cada vez mais frequente vermos casos como este, onde a doença individual aflora. Doença decorrente de uma moléstia mais ampla, a doença da nossa sociedade.

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