OPINIÃO

As verdades que o homem nu do MAM nos trouxe

A discussão gerada pela performance tentou responder a uma pergunta: o que é uma obra de arte de verdade? Quais os seus limites?

02/10/2017 16:02 -03 | Atualizado 02/10/2017 16:02 -03
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O homem nu trata-se do artista carioca Wagner Schwartz e a obra era uma releitura da série Bicho, considerada um clássico da artista Lygia Clark.

É difícil definir o que é arte. Mas uma coisa é certa: ela não tem mais obrigatoriamente o compromisso com o belo. Isso há muito tempo já.

Se olharmos a arte renascentista veremos magníficos quadros retratando paisagens e pessoas que ou eram reais ou poderiam muito bem o ser.

No Impressionismo, os traços começam a perder a correspondência com o real, e depois entram outros tantos movimentos que nos fazem experimentar muito mais o subjetivo do que o objeto em si. Duchamp colocou um mictório e uma roda de bicicleta em um museu. Picasso colocou pessoas desfiguradas.

Depois da fotografia, que graça tem pintar um quadro que retrata uma mulher exatamente como ela é, como era feito na Idade Média? Abra um livro de Sebastião Salgado e você verá que a arte na foto é bem diferente das fotos comuns do dia a dia. Ainda que experiências estéticas, suas obras muitas vezes nem parecem coisas fotografadas na Terra.

Enfim, há muita discussão sobre o que é arte e o que não é. Discussão que passa inclusive pelos próprios artistas e intelectuais, e que vez ou outra atinge o público com a mesma pergunta (vide Duchamp em 1917). Mas fato é que ela não tem mais um compromisso com o esteticamente belo.

Neste sentido, gosto bastante de um conceito de Heidegger sobre a arte: o de que ela é feita para que atinjamos a verdade de uma maneira não-convencional. Uma coisa é ler o capítulo do DSM-V sobre depressão. Outra coisa é assistir Melancolia, de Lars von Trier. Uma coisa é ler sobre consumismo, a banalização do cotidiano, e outra coisa é ver uma tela de Andy Warhol. Ambas trazem verdades semelhantes, mas acessíveis de maneiras diferentes.

E Wagner Schwartz conseguiu, de fato, provocar o aparecimento de algumas verdades com sua arte.

A primeira é que andamos muito indignados. A ponto de exortarmos uma agressividade muitas vezes desmedida. O ponto central da exposição não foi o nu em si. Quantas obras já não trouxeram pessoas sem roupas?

A questão foi que uma criança estava na instalação tocando o artista nu, com consentimento da mãe. Também não acho a atitude adequada. Mas podemos pensar que não sabemos que educação esta mãe dá a sua criança, quais códigos ela passa. Se pensarmos ser uma família adepta do naturismo, perceba que a coisa muda de figura. Seria apenas mais uma nudez. Ameniza.

Não obstante este argumento hipotético, ainda acho errado. Exposição excessiva e precoce à nudez faz mal à criança. Não sou eu quem estou dizendo, são diversos estudos relacionando problemas na vida adulta à esta exposição. São os pacientes da prática clínica.

Além do mais, a mãe pode ter uma concepção (madura) do que é obra de arte contemporânea. Mas e a criança? Se muitos adultos não entenderam a proposta da obra, que dirá uma criança? Complicado controlar o que uma simples garota acha daquilo. A mãe talvez não devesse tê-la levado para aquela sala.

Mas daí a chamar de pedofilia, também não. A verdade é que as redes sociais são terreno fértil para a histeria coletiva. Multiplicaram-se os hashtags de pedofilianãoéarte, transformando-o no assunto mais comentado dias atrás. Mas que pedofilia?

A questão não parou por aí. Como não poderia deixar de ser, a crítica embarcou na nau das flame wars cibernéticas tomando caráter político. Vi postagens dizendo ser a mulher do PT (se é verdade ou não, eu não sei, e não importa), e a atitude questionável da moça já virou pedofilia influenciada por ideologia de partido político. Não sabia que arte era exclusividade da esquerda. Ou pedofilia. Enfim, menos.

Uma verdade que Schwartz mostrou foi a de que estamos todos à espreita, esperando um mínimo deslize para jogarmos todo o nosso ódio e insatisfação nas redes. Parece que somos um barril de pólvora a procura de uma faísca. Qualquer sinal de ato moralmente reprovável amplifica-se nas redes sociais, ganha corpo e desfigura o fato em si.

Eu costumo pensar que quando somos inundados diariamente com noticiários sobre corrupção, crise econômica, desemprego, queda do poder aquisitivo e aumento do endividamento, cresce nossa insatisfação e indignação diante de toda ladroagem. Ficamos mais intolerantes e, a um mínimo sinal de desvio moral, soltamos uma avalanche de reprovação e desprezo.

Neste sentido, as críticas rapidamente se espalharam da atitude da moça contaminando o artista em si. "Isso é arte?" Aí está a outra verdade, esta mais Heideggeriana, que Schwartz trouxe à tona: a maioria de nós perdeu a trilha do que é arte nos dias de hoje. Fato é que ela deixou de ser uma experiência exclusivamente do belo sensorial e passou a ser também uma experiência intelectual, reflexiva.

A discussão não pára por aí, vai longe. Há até a corrente da anti-arte, daqueles que dizem que a arte não existe mais, e assim por diante. Todos tentando responder a uma pergunta: o que é uma obra de arte de verdade? Quais os seus limites?

Nisso, Schwartz acertou em cheio. Apesar de histérica, tacanha, agressiva e caótica, houve uma discussão sobre o que é uma obra de arte. E verdade é que ela não mais se restringe a pintar rostos bonitinhos em uma tela da mesma maneira como qualquer um os vê.

E, fundamentalmente, outra verdade que Schwartz quis mostrar é que a obra de arte hoje em dia não se restringe ao objeto (a escultura Bicho, de Lygia Clark, manipulada por ele na performance). Vai além dele.

Se dissessem para ele uma semana atrás que a repercussão atravessaria em muito as paredes do museu ele acharia que seria mentira. Mas foi verdade.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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