OPINIÃO

Acabar com a Cracolândia adianta, mas está longe de ser suficiente

Não dá pra achar que uma única medida de saúde pública vai funcionar com o crack. Múltiplas ações são necessárias.

23/05/2017 17:25 -03 | Atualizado 23/05/2017 17:44 -03

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A região, no centro de São Paulo, atraía usuários de drogas.

Tratar a dependência química não é fácil. Exige muita persistência do profissional e do paciente, e muita força de vontade por parte deste último. E quando falamos do crack, a dificuldade é muito maior. O poder aditivo da droga é alto, desenvolvendo dependência e tolerância rapidamente, logo no começo do uso da substância. O crack é destrutivo: alguns relatos mostram que o usuário vive em média apenas 5 anos após o primeiro uso.

Dessa forma, no crack não dá pra achar que uma única medida de saúde pública vai funcionar.

Múltiplas ações são necessárias.

As polícias Militar e Civil realizaram uma operação neste domingo (21) para desmantelar a Cracolândia de São Paulo, ato que gerou muita controvérsia e reações opostas na mídia. Mas fato é que havia ali um mercado de drogas ao ar livre. Todo mundo sabia disso. Não era algo feito na calada da noite, às escondidas. A feira do crack corria solta em pleno dia, era de conhecimento público.

Assim, em primeiro lugar, tráfico de drogas é crime. Não é aceitável que haja uma região onde se comercialize drogas ilícitas em São Paulo, que todo mundo saiba disso, e que nada seja feito. O poder público não pode ser conivente com isso. E nós também não.

Em segundo lugar, acabar com pontos de tráfico adianta sim no combate ao vício. Uma das questões fundamentais no tratamento da dependência química é que usuário evite pontos de compra de drogas, evite sequer passar perto das "bocas". É isso que dificulta por exemplo o tratamento do alcoolismo: tem um bar em cada esquina. Quanto menos bocas, melhor. Quanto mais restrito o tráfico, melhor. Quanto menos acesso, melhor.

Tentar acabar com a cracolândia é apagar incêndio? É. Se nada mais for feito, provavelmente ela vai ressurgir de maneira fragmentada em outros pontos da cidade (na verdade já há pequenas cracolândias espalhadas por aí). Mas com uma droga tão poderosa e nociva, e dada a proporção deste ponto de drogas, é uma ação válida. Temos sim que apagar incêndios. O que não podemos é parar por aí.

Múltiplas ações.

Quem encarar a ação da polícia como um ponto final na guerra ao crack estará de fato muito equivocado. Ingenuidade achar que o problema acaba ali, com a retirada geográfica do ponto de tráfico. Outras medidas públicas são fundamentais, como a oferta de tratamento eficaz e a reinserção do dependente químico tratado. Pois a droga é uma metáfora da exclusão do indivíduo, e ela mesma reforça o desalojamento da pessoa da sociedade. Há que se oferecer aparelhagem de saúde pública suficiente e eficaz para tratar (atendimento ambulatorial, equipe multidisciplinar, internação). Não apenas tratamentos de fachada, com nomes bonitos para campanhas de marketing e fins eleitoreiros.

Quem trata dependência química sabe que há horas em que é necessário acolhimento, mas há horas em que é preciso ser muito duro. Pois a droga não perdoa. Não dá pra pintar um programa "Alice no país das maravilhas" e sair por aí fazendo propaganda do mesmo, como se funcionasse perfeitamente.

Além disso, há que se devolver o usuário ao convívio social. O que nenhum dos programas anteriores foi capaz de fazer. Ou por serem pouco abrangentes, ou por serem mera maquiagem; bonitos na teoria, agradam aos olhos, mas carecendo de eficácia prática.

Indo mais a fundo, o problema da droga vai muito além disso. As histórias se repetem: o adolescente que se sentia excluído, não se encaixava em lugar algum, que foi buscar os "amigos" das drogas, e ali achou o seu lugar. Na marginalidade, na exclusão. A droga como metáfora da exclusão.

O contingente de usuários de drogas é consequência também de uma anomia difusa na sociedade. Reflexo de uma sociedade doente. Em última instância, temos que cuidar também dos excluídos, de uma sociedade excludente, para que possamos tratar a dependência química com mais propriedade.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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