OPINIÃO

A 'sociedade do mais' e o uso indiscriminado de estimulantes

Estimulantes melhoram nossa cognição, mas trazem efeitos colaterais perigosos.

16/08/2017 18:50 -03 | Atualizado 16/08/2017 18:50 -03
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A maioria das candidatas a smart pills são estimulantes, e muitas são derivados anfetamínicos.

Vivemos na "sociedade do mais". Mais resultados. Mais rápido. Mais metas. Mais performance. Mais rendimento. Mais comida. Mais remédio. Mais consumo. Mas, menos tempo.

É normal que queiramos encurtar os tempos. Produzir mais com menos duração. Fazer mais coisas. Alcançar mais resultados. Afinal, a cada quatro anos ritualisticamente ovacionamos o atleta que consegue percorrer cem metros no espaço mais curto de tempo, por exemplo.

Aos domingos, há quem assista a Fórmula 1 e seus velozes carros. E, à noite, vemos seriados na televisão transmitidos pela cada vez mais rápida conexão de dados da internet.

A velocidade é bem-vinda. Mas em alguns casos, ela é nociva.

Como na questão do uso de estimulantes. A dependência e o abuso de estimulantes são problemas de saúde pública crescentes que encontram, na "sociedade do mais", um solo fértil para o seu crescimento pernicioso.

Há um uso bem conhecido do público que é aquele destinado ao emagrecimento. Volta e meia, os estimulantes são proibidos no mercado brasileiro por questões de abuso. O uso de pílulas que acelerem o metabolismo e substituem a ginástica ou a dieta é uma praxe comum em pessoas sem indicação para o uso.

Perpetuam, muitas vezes, um ciclo vicioso perverso de alteração do humor, intolerância à frustração, uma exigência crescente por economia de tempo e uma incapacidade de abrir mão da alimentação e de velhos hábitos sedentários.

Mas há um uso mais recente dos estimulantes que veio na esteira dos tratamentos para o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): seu uso como smart pills. O termo refere-se a substâncias usadas com a função de melhorar a nossa cognição normal, funções psíquicas como memória, atenção e aprendizado.

A maioria das candidatas a smart pills são estimulantes, e muitas são derivados anfetamínicos. Não obstante, acham esta brecha de serem fármacos prescritos para o TDAH (Ritalina, Venvanse, etc.) para chegarem ao consumidor de maneira mais fácil.

Prescrevê-las para pessoas sem a doença é crime nos Estados Unidos, por exemplo. São drogas legais usadas ilegalmente. Nas crianças e adultos com TDAH, o anfetamínico tem um certo efeito calmante. O paciente fica mais tranquilo, presta mais atenção, melhora o foco, fica menos inquieto. Mas em pessoas normais, o efeito pode ser o inverso, causando agitação, por exemplo.

Mas afinal, existem de fato smart pills? Estes remédios realmente melhoram a cognição de pessoas saudáveis? Podemos extrapolar seu uso para além do TDAH? O grande corpo de evidências científicas em torno do assunto nos mostra que elas melhoram a consolidação do aprendizado e da memória de longo prazo, com efeitos que variam de pequenos a grandes.

Com relação à memória de trabalho, os resultados de estudos são heterogêneos, alguns mostrando eficácia, outros não. No entanto, nenhum trabalho mostrou prejuízo nesse quesito. O mesmo se observa em outras funções, como a executiva e o controle cognitivo, nos quais os resultados tendem a mostrar uma ausência de efeito. Em suma, tais substâncias realmente melhoram algumas áreas de nossa cognição.

Mas elas podem fazer mal? Sim. Há um preço a se pagar. Em primeiro lugar, há o risco de quadro psicótico (alucinações e delírios). A dita psicose por estimulantes pode exacerbar quadros psicóticos pré-existentes e desencadear primeiros surtos naqueles que não têm a doença.

Além disso, há os já conhecidos efeitos de irritabilidade, insônia, e outras alterações de humor. Por fim, diversos estudos mostram que elas podem também induzir o vício em outras drogas.

Elas até podem melhorar nossa cognição, mas há um preço (alto) a se pagar por isso. Já nos anos 1960, o neurocientista Corneliu Giugea, um dos primeiros defensores do aprimoramento cognitivo através de fármacos, disse: "o homem não vai esperar passivamente por milhões de anos até que a evolução lhe ofereça um cérebro melhor".

A ideia de se tomar um remédio que te faça produzir mais é sedutora. O homem flerta com ela já há algum tempo. Neste sentido, um levantamento nos Estados Unidos mostrou que de 1253 estudantes universitários entre 17 e 20 anos entrevistados, 15 a 20% referiram já ter feito uso de estimulantes.

No entanto, surpreendentemente viu-se que os usuários tinham notas menores, faltavam mais às aulas, gastavam mais tempo socializando e menos tempo estudando. No Brasil, estima-se que 14% da população universitária já tenha feito uso de anfetamina de maneira ilícita pelo menos uma vez na vida.

Se antes usavam-se estimulantes para economizar tempo de academia e perder peso consumindo grandes quantidades de comida, hoje são utilizados para se ter mais energia e produzir mais mentalmente. Apenas lados da mesma moeda. Um tiro que muitas vezes sai pela culatra causando mais problemas do que trazendo benefícios.

É mais um efeito colateral da "sociedade do mais", que não tolera o fracasso e a perda de tempo, e que incute no indivíduo a ideia de que ele tem que produzir mais e mais. Uma espiral que frequentemente se torna patológica. Nesta correria, é necessário que sigamos no contrafluxo: parar e refletir onde devemos desacelerar ao invés de apressar.

Bora tomar um café pra pensarmos sobre isso?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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