OPINIÃO

A quarta temporada de 'Black Mirror' debate liberdade e maldade

Enquanto avança a tecnologia, a liberdade diminui. E nosso mal interior é revelado.

16/01/2018 22:31 -02 | Atualizado 16/01/2018 22:31 -02
divulgação
Nova temporada de 'Black Mirror' reflete sobre liberdade e maldade.

Sou suspeito para comentar sobre as distopias. Tanto para escrever quanto para ler ou assistir, é um dos gêneros de que mais gosto.

O mundo distópico em geral se passa em um futuro onde desdobramentos de ordem política, moral, tecnológica, entre outros, trazem uma perspectiva malévola sobre o que está por vir. Obras como Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Jogos Vorazes e Divergente, por exemplo, nos põem para refletir. E não é diferente com a quarta temporada de Black Mirror.

Alguns temas são recorrentes e evidentes como o da maldade humana. Rousseau diria que a culpa é da propriedade privada que perverteu o homem naturalmente bom. Eu seria mais nietzschiano ao falar que ela faz parte do ser humano.

Nas sociedades nômades de caçadores-coletores, onde não existia propriedade privada, é impossível pensar que todos fossem naturalmente "bonzinhos", principalmente se houvesse disputa entre tribos. Daí a discussão pode se enveredar para uma definição do que é bom e do que é mau, mas os episódios da série não deixam dúvida de que o perverso e o maldoso estão em pauta.

Outra discussão, talvez um pouco menos aparente, é a da liberdade. Benjamin Constant observou já há mais de século que a liberdade dos modernos é diferente daquela dos antigos.

Na Antiguidade, tomada aqui a Grécia como referência, as pessoas encontravam maior satisfação na vida pública do que na vida privada. A participação cívica de cada indivíduo era maior. Podiam opinar sobre os rumos da polis, a representatividade política de cada um era maior. Se havia aí uma grande liberdade de decisão, no privado a liberdade era mais restrita. A privacidade do cidadão grego era reduzida, tanto devido a questões arquiteturais das moradias como do uso feito delas. Assim, privacidade era um ponto crítico em "tais sociedades onde a vida comunal tornava a solidão e a intimidade impossível em áreas de estar".

O inverso ocorre nos tempos modernos onde a vida privada é muito mais livre (entre quatro paredes você pode fazer [praticamente] o que quiser), enquanto que nossa liberdade para influenciar a vida pública é limitada.

Mas Black Mirror traz à tona um assunto que muda um pouco essa perspectiva e que frequentemente nos assombra, a saber, a do avanço da tecnologia em contraponto à diminuição da liberdade. A questão posta por Constant torna-se evidente aqui. Pois por um lado ganhamos uma certa representatividade por meio da internet. O colega tímido e anônimo da faculdade que se expõe online. As enquetes eletrônicas, as consultas públicas, as campanhas. Os compartilhamentos. A coisa pode tomar o rumo negativo dos linchamentos virtuais, das difamações e calúnias eletrônicas.

Mas por outro lado, perdemos nossa privacidade com a tecnologia. Quantos estranhos já não fuçaram suas fotos no Facebook? Tente passar um dia sem entrar em suas contas de redes sociais. Elas tanto nos prenderam que acabaram por virar as principais fontes de notícias para muitas pessoas, dizem especialistas. O risco disso são as notícias falsas, que podem se alastrar como pragas. De modo a diminuir isso, Mark Zuckerberg decidiu mudar o modo como o feed de notícias das pessoas funciona. Segundo o portal Bloomberg, perdeu 3,3 bilhões de dólares com isso. Pagaria este preço por ética, para ser bonzinho? Não. Provavelmente está com medo de processos astronômicos por sua empresa veicular notícias falsas. Medo de repetir o programa de rádio que narrou Guerra dos Mundos em 1938, de Orson Wells, gerando pânico nos Estados Unidos por levar muitas pessoas a de fato acreditarem que o país estava sendo invadido por alienígenas. Bom, na verdade, o pânico gerado foi muito menor do que aquele que se contou na época (um embrião de fake news?).

Também perdemos nossa privacidade com os incômodos monitoramentos: câmeras, nuvens hackeadas, cliques, links, hot-spots do seu mouse na página, tipos de leituras e sites seguidos etc.

Quem nunca se sentiu incomodado ao ver em sua timeline anúncios de coisas relacionadas a páginas que você visitou algum dia? Comprei um sapato pela internet, e o Google faz questão de me lembrar que a loja existe, todos os dias, há uma semana... Chega! Já comprei!

Black Mirror trabalha com essa ideia. A da tecnologia privando as pessoas de sua liberdade. A personagem que não se liberta dos likes, pais controlando seus filhos, o monitoramento dos pensamentos, e por aí vai.

Quando acessamos os pensamentos humanos, como no seriado, podemos por exemplo perceber que Nietzsche estava certo. Quanto angustiante seria se não pudéssemos ter privacidade nem nos nossos pensamentos? Ao menos um lugarzinho escondido dentro de nossa cabeça para deixarmos de ser tão éticos assim e darmos vazão a nossos pensamentos mais egoístas e brutais?

Aqui a discussão volta ao primeiro assunto deste texto, pois com a diminuição da liberdade e da privacidade, o mal fica mais aparente. Um mal inato ou um mal cultivado pelo excesso de liberdade? A liberdade da vida privada nos torna piores por dentro?

Mais sombria, mais ácida e mais sádica, a nova temporada de Black Mirror com certeza vale a pena ser vista.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.