OPINIÃO

Afinal, o brinquedo que virou febre entre crianças e adolescentes é mesmo terapêutico?

Resgata o brincar como agir e interagir no mundo, e não como um sentar em frente a uma tela e apertar botões em uma realidade fabricada, codificada.

09/06/2017 18:28 -03 | Atualizado 09/06/2017 18:36 -03

No clássico Xing Ling da Avenida Paulista, em São Paulo, comprando um hand-spinnerpara minha filha, brinquedo que rapidamente virou febre entre crianças e adolescentes, pergunta o transeunte:

– O que faz isso?

- Gira.

- Só isso?

- Sim. Gira.

- Ah... Legal. E?

- Gira.

Sim, só gira. Um pequeno aparelho de três pontas (alguns com quatro ou mais), com um eixo no meio feito para você segurá-lo com o polegar e girar a geringonça com algum outro dedo. Desde o surgimento do brinquedo muito se tem especulado sobre sua utilidade como antídoto para o TDAH (transtorno por déficit de atenção e hiperatividade) ou para a ansiedade.

Não há até o momento nenhuma publicação científica sobre o assunto, apenas opiniões e especulações. Crista Hopp, uma coach para TDAH de Virgínia, contou ao U.S. News que, quando um indivíduo mexe alguma parte do corpo, é mais capaz de focar em determinada tarefa.

No entanto Mark Hopper, psicólogo da Universidade da Flórida que estuda os benefícios dos movimentos em pessoas com TDAH, diz que o hand-spinner é mais uma distração do que algo terapêutico.

Estudos sobre intervenções para o TDAH falam em condicionamento motor e treinamento de habilidades, mas nada relacionado a algo semelhante como o brincar do spinner. Lendo mais opiniões sobre o assunto parece haver certo consenso de que se trata apenas de um brinquedo. Só isso.

Sim, só gira.

Face à querela sobre se é terapêutico ou não, foi proibido nas salas de aula sob o argumento de que, ao contrário do que se pensava, pode ser na realidade uma distração ao invés de ajudar a focar.

Mas enfim, por que tanto "causo" sobre o brinquedo? Lembrei-me então do peão. Do iô-iô. Das bolinhas de gude. Do jogo de bafo. Da pipa. Não me recordo de ter havido tamanha repercussão com estes e outros brinquedos simples que surgiram ou foram inventados naquela época. Eram simplesmente brinquedos. Divertidos. Sim, só gira. Só voa. Só roda. Ah sim, é claro: não pode rodar peão, jogar bafo, tampouco empinar pipa na sala de aula. Como também é óbvio que não dá pra usar o spinner na classe...

Deleuze, filósofo francês, falava da digitalização do mundo atual. No analógico, as coisas (sons de um disco de vinil por exemplo) são reproduzidas por uma linha contínua, sem interrupções. Traduzem melhor o real, segundo ele. No digital, as coisas são codificadas (como em um CD ou MP3). Transformadas em códigos, digitalizadas para depois serem traduzidas.

Hoje tudo está "digitalizado". Queremos traduzir tudo. Queremos saber para que serve. Traduzir em bem ou mal, se faz bem ou mal. Além de girar, o que mais faz? Ajuda no TDAH? Ajuda no estresse? Pode distrair na sala de aula?

Só gira.

Às vezes, parece que perdemos um pouco a inocência do brincar em detrimento do utilitarismo. Queremos saber se todas as coisas são úteis ou não. Se são prejudiciais em algum aspecto ou não. Esquecemos que o hand-spinner é apenas um brinquedo. Como o peão. Como o iô-iô.

Sim, só gira.

Quer saber de uma utilidade? Pois certo é que, como é um brinquedo físico (seguindo Deleuze, muito mais analógico do que digital), traz mais ao real do que um jogo eletrônico, por exemplo. Resgata o brincar como agir e interagir no mundo, e não como um sentar em frente a uma tela e apertar botões em uma realidade fabricada e codificada.

Pois é, só gira. E que bom que só gira!

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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