OPINIÃO

A mentira sistematizada na política brasileira

Todos os dias assistimos a uma exposição de fatos ilícitos e uma avalanche de escusas e negações por parte dos acusados.

14/07/2017 16:09 -03 | Atualizado 14/07/2017 16:09 -03
Ueslei Marcelino / Reuters
Articulista critica a mentira como arma fundamental no fazer política do Brasil.

Cada dia que abrimos o jornal ou a internet, vemos majoritariamente dois tipos de notícias. Um tipo revela delações premiadas, da descoberta de desvios monstruosos de dinheiro, pagamento de propinas etc. O outro consiste em notícias com aspas, que estampam manchetes com palavras dos acusados: "não houve desvio", "nunca tive intenção de adquirir tal triplex", "não recebi nenhum dinheiro indevido", e assim por diante.

Parece haver consenso de que tais desvios realmente aconteceram. Esse consenso baseia-se nas provas que aparecem (enriquecimentos súbitos, gastos exorbitantes feitos em dinheiro, testemunhos de empresários sobre o pagamento de propinas), mas também na percepção de que há uma cultura vigente de desonestidade no Brasil.

O "jeitinho brasileiro" é termo que retrata que muitas vezes as coisas não são como reza a regra, descrevendo o hábito que temos de burlar as normas (para o bem ou para o mal). Assim, além dos fatos que surgem, nossa cultura apenas reforça a crença de que vivemos em um país governado por corruptos.

Não obstante, eles continuam a negar as acusações. Diante da veemência com que recusam as denúncias, perguntamo-nos se seria o caso, por exemplo, de mentira patológica, da mitomania, do mentiroso compulsivo.

Não creio que seja o caso de doença psíquica.

Jeff Malpass, filósofo australiano, analisa que a mentira é universal e está onipresente em nossa sociedade, tanto na esfera pública quanto na privada. O comportamento do presidente Kennedy durante a crise dos mísseis em Cuba, a Igreja Católica e o acobertamento de casos de pedofilia por padres, o uso do sigilo na guerra contra o terrorismo.

O marido que mente para a esposa, o menino que engana os pais, a pessoa que esconde os vícios. Desde Platão na República até Freud analisando o mal-estar na civilização, a mentira sempre esteve presente e foi objeto de estudo.

Mas apesar de ser universal, nesta genealogia da mentira é necessário se distinguir entre seus tipos. Existem a mentira branca, a nobre (de Platão), o perjúrio, a trapaça, a lorota contada em histórias, o blefe, a enganação, o viés proposital e a mentira patológica, entre muitas outras. Seguindo esta linha, haveria mentiras "aceitáveis"? Como, por exemplo, a da mãe judia que mente para oficiais nazistas sobre a localização do filho para que este não seja levado para o campo de concentração?

Nos casos da vida privada, a discussão vai longe. E é evidente que existem as mentiras benéficas. Mas na esfera pública, ela não é tolerável. Segundo Malpass, a verdade e o compromisso com a verdade estão no coração da prática ética e na prática da democracia.

Para a filósofa de ética Sissela Bok, mentir é danoso para a sociedade porque destrói a confiança, característica que fundamenta as relações humanas e sustenta as instituições.

Mentir é moralmente errado também para James Rachels, outro filósofo da ética, porque corrói a confiança, pilar de sustentação da vida em comunidade. Para o americano, a exigência pela verdade é necessária para que uma sociedade exista.

Se não assumirmos que o outro está falando a verdade, a comunicação não será possível, pois o vago, o incerto, o falso e a desconfiança estarão sempre em jogo. Sendo a comunicação impossível, a sociedade é também impossível. A vida em sociedade pressupõe grau mínimo de confiança e de cultivo da verdade.

Indo mais adiante na mentira na esfera pública, Hannah Arendt escreve coisas interessantes em seu livro Mentira e Política. Ela teoriza sobre qualidades peculiares da imaginação do político, que estabelece interconexões entre a habilidade de mentir, a negação deliberada da verdade factual, a habilidade de atuar e a capacidade de mudar fatos (parece até que estava lendo o noticiário brasileiro de hoje).

Segundo ela, os historiadores sabem o quão frágil é a textura dos fatos. Para que se comprove que um fato é verídico, há que se testemunhá-lo. Tem que se estar lá e ver com os próprios olhos. O resto são relatos, reproduções, versões através da palavra. Assim, os fatos podem ser distorcidos ou negados por grupos organizados, nações ou classes.

É nessa fragilidade da verdade que reside a tentação da mentira para o político. Cathy Caruth escreve ainda que, aproveitando-se dessa fragilidade, o mundo real se tornou um mundo de enganação. Em um mundo onde há um conflito constante entre a verdade factual e a política, o passo para a negação da história e para a mentira política sistemática é muito pequeno.

Assim, o grande risco é quando a mentira perde sua função como meio alternativo de se alcançar ação política real e se torna um meio sistemático de se atingir autossatisfação.

Exemplo pictórico: Brasil.

Nas palavras de Arendt, mentira sistematizada construindo "um mundo totalmente fictício". Citando a autora, "o foco da política migrou da manutenção da moral e do bem-estar dos cidadãos para a manutenção do poder político pelo maior tempo que for possível. A mentira, por sua vez, é então justificada como uma ferramenta para a manutenção do poder político".

Política no Brasil virou sinônimo de egoísmo e ganância.

Em suma, essa enxurrada de mentiras que somos obrigados a aturar todos os dias no noticiário é fruto disso tudo. Da fragilidade da verdade. Da universalidade da mentira. Da pequena distância que houve entre a mentira para fazer política e a mentira sistematizada para a manutenção do poder. Da mudança do político para governar para o povo para aquele que governa para si próprio e sua família. Do ambiente cultural brasileiro, menos intolerante à infração de regras.

Por último, questiona-se se há como mudar este panorama. Aqui cito outro filósofo, Michel Foucault, para quem o homem não apresenta uma natureza inata. Para ele, não há uma essência fundamental do homem.

O homem é historicamente constituído, construído por constelações de práticas que o precederam. Assim, temos que mudar a prática de conivência. Intolerância com a corrupção, não importa se é uma pessoa qualquer da esquina ou um ex-presidente (ou ex-vice-presidente). E colocar esses bandidos na cadeia é o primeiro passo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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